Abrolhos pode se tornar Patrimônio Mundial Natural da Unesco; saiba como
Governo do Brasil apresentou à organização um dossiê do parque onde elencou os motivos pelos quais a região poderia receber o título


O Parque Nacional Marinho de Abrolhos, na Bahia, pode se tornar um dos patrimônios mundiais naturais da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Isso porque o Governo do Brasil entregou um dossiê sobre a ilha para a Unesco onde elencou os motivos pelos quais o lugar merece o título. A previsão é que a análise do documento, entregue no final de janeiro, ocorra em julho de 2027.
Cabras que viveram isoladas por 200 anos em Abrolhos podem ter desenvolvido nova espécie
Brasil reivindica ilha submersa no Atlântico rica em minerais e do tamanho da Espanha
Inscreva-se no Canal Náutica no YouTube
A Lista do Patrimônio Mundial Natural da Unesco engloba lugares cuja relevância natural ou cultural ultrapassa fronteiras nacionais e tem importância para toda a humanidade, conforme parâmetros avaliados pela própria organização. Nesse sentido, você sabe quais características de Abrolhos fariam jus ao título?
Abrolhos, um patrimônio nacional com ambição global
O Parque Nacional Marinho de Abrolhos foi o primeiro dessa categoria a ser criado no Brasil, em 1983. O local integra o maior complexo recifal natural do Atlântico Sul com estruturas únicas e somente encontradas na região, um ecossistema de grande importância para a biodiversidade. Somente por lá é possível encontrar o coral-cérebro (Mussismilia braziliensis), por exemplo.


Além de tantos corais, a região de Abrolhos também contribui para a reprodução e o cuidado parental de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). Segundo o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), João Paulo Capobianco, esses animais dependem do parque nacional para garantir a perpetuação da espécie.


Abrolhos simboliza ecossistemas essenciais para o ciclo de vida de animais que circulam pelo planeta, ultrapassando fronteiras nacionais-João Paulo Capobianco
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela gestão do parque, Abrolhos também é habitat de diversas espécies de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção, como tartarugas-cabeçudas, tartarugas-verdes e tartarugas-de-pente.


Outros animais marinhos com grande valor ecológico são encontrados no parque, como badejos, budiões, lagostas, peixes e outros invertebrados. Fora d’água, a região abriga aves marinhas residentes e migratórias, como grazinas-do-bico-vermelho, atobás brancos e marrons e beneditos.


O parque nacional de Abrolhos é formado por um arquipélago composto por cinco ilhas principais: Ilha Redonda, Ilha Siriba, Ilha Sueste, Ilha Guarita e Ilha Santa Bárbara — esta última excluída dos limites do parque e sob jurisdição da Marinha do Brasil.


Apesar de todo o apreço natural, o Parque Nacional Marinho de Abrolhos pode ser visitado durante o ano todo. Segundo o ICMBio, o período entre dezembro e abril é o ideal para quem busca mergulhar na região, já que as águas mais quentes oferecem melhor visibilidade. De junho a novembro, o principal atrativo é a observação das baleias jubarte. No mais, é possível avistar aves marinhas durante o ano todo.
Dossiê de Abrolhos à Unesco
O dossiê de apresentação de Abrolhos para a Lista do Patrimônio Mundial Natural da Unesco foi elaborado por diversas entidades do país além do MMA, como o próprio Instituto Chico Mendes e o Ministério das Relações Exteriores.


A criação do documento também teve apoio do WWF-Brasil (ONG focada em preservação e sustentabilidade) e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, no âmbito do Projeto Áreas Marinhas e Costeiras Protegidas. A entrega, feita em 29 de janeiro de 2026, contou com a participação do secretário de Meio Ambiente do Estado da Bahia, Eduardo Sodré, e de representantes do Itamaraty.
A candidatura de Abrolhos é a terceira apresentada pelo Governo do Brasil desde 2023, que inscreveu, nesse período, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu para integrar a Lista do Patrimônio Mundial Natural da Unesco — e os locais foram aceitos. Atualmente, o país tem 25 lugares nessa lista.
Brasil na lista de patrimônios mundiais naturais da Unesco
O Brasil está entre os países com mais destinos na lista internacional de patrimônios mundiais naturais. Ao todo, são 25 brasileiros — entre patrimônios culturais, naturais e mistos — já aprovados pela Unesco. O único nacional da categoria mista nessa lista é Paraty e Ilha Grande, pela cultura e biodiversidade local. Confira os demais:


Patrimônios naturais brasileiros
- Parque Nacional do Iguaçu;
- Reservas da Mata Atlântica do Sudeste;
- Reservas da Mata Atlântica da Costa da Descoberta;
- Complexo de Conservação da Amazônia Central 5;
- Área de Conservação do Pantanal;
- Ilhas Atlânticas Brasileiras: Reservas Fernando de Noronha e Atol das Rocas;
- Unidades de Conservação do Cerrado: Parques Nacionais Chapada dos Veadeiros e Emas;
- Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses;
- Cânion do Rio Peruaçu.
Patrimônios culturais brasileiros
- Cidade histórica de Ouro Preto;
- Centro histórico da cidade de Olinda;
- Missões Jesuíticas dos Guaranis: San Ignacio Mini, Santa Ana, Nuestra Señora de Loreto e Santa Maria Mayor (Argentina), Ruínas de São Miguel das Missões (Brasil);
- Centro Histórico de Salvador da Bahia;
- Santuário do Bom Jesus do Congonhas;
- Brasília;
- Parque Nacional Serra da Capivara;
- Centro histórico de São Luís;
- Centro histórico da cidade de Diamantina;
- Centro histórico da cidade de Goiás;
- Praça de São Francisco na cidade de São Cristóvão;
- Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar;
- Conjunto Moderno Pampulha;
- Sítio Arqueológico do Cais de Valongo;
- Sítio Roberto Burle Marx.
Se o mais recente dossiê apresentado pelo Governo do Brasil à Unesco seguir o padrão dos últimos enviados, em alguns meses o Parque Nacional Marinho de Abrolhos também estampará essa lista.
Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Relacionadas
Agência oferece passeio em dahabiyas, tradicional embarcação que remonta a experiência de navegar pelo Egito Antigo
Embarcação de luxo com casco planante foi construída pelo Grupo Ferretti e lançada ao mar em Ancona
Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável
Maior evento náutico da Bahia movimenta a Baía de Todos-os-Santos dos dias 5 a 8 de novembro; Saiba o que esperar do salão
Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
[caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"]

Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
[caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"]

Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.



