Como no cabelo humano, carapaças de tartarugas guardam informações e fornecem “visão” do passado
Estudo analisou como o casco desse animais pode ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais em espécies marinhas


Você já deve ter ouvido falar que o cabelo humano funciona como a “memória física” do corpo, uma vez que os fios armazenam informações sobre o nosso organismo — não à toa, podem revelar a presença de substância no corpo ou deficiência de nutrientes. Pois bem, algo parecido acontece nas carapaças das tartarugas, e estudiosos estão analisando como elas podem ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais nesses animais.
Ilhabela recebe reconhecimento por projeto Cidade Amiga das Baleias; conheça a iniciativa
Guardiãs do Mar: liderado por mulheres, projeto de combate a poluição plástica é retomado
Inscreva-se no Canal Náutica no YouTube
A semelhança com o que acontece nos fios de cabelo vem das placas ósseas que formam a carapaça das tartarugas. Isso porque elas são compostas de queratina, o mesmo material que compõe o cabelo humano. Essa proteína fibrosa é capaz de armazenar informações sobre a saúde, dieta, ambiente e exposição a substâncias químicas ao longo do tempo de crescimento capilar.


Na prática, deficiências de vitaminas, minerais ou proteínas podem alterar a estrutura da queratina produzida, registrando, assim, períodos de desnutrição ou doenças. Logo, tanto os fios quanto os cascos atuam como “cápsulas do tempo” biológicas. Nas tartarugas, a queratina cresce em camadas sucessivas.
Ao longo do tempo, pesquisadores usaram esses registros para entender a ecologia desses animais. Agora, porém, um novo estudo, publicado na revista Marine Biology, se debruça sobre rastrear como as mudanças ambientais afetam as tartarugas marinhas.
A pesquisa, liderada por Bethan Linscott e Amy Wallace, em colaboração com pesquisadores da Universidade da Flórida, da Universidade de Bristol e da Earth Sciences New Zealand, aplica técnicas de radiocarbono para contextualizar historicamente esses registros químicos.
Como foi conduzido o estudo com as carapaças das tartarugas
Para determinar a rapidez com que as camadas se formam, os estudiosos removeram pequenas biópsias circulares das placas ósseas de tartarugas marinhas encalhadas, das espécies tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) e tartarugas-verdes (Chelonia mydas), coletadas ao longo da costa da Flórida entre 2019 e 2022.


As placas foram cortadas em seções ultrafinas, de aproximadamente 50 micrômetros de espessura. Cada uma delas foi datada por radiocarbono e comparada com o “pulso da bomba” do século 20 — técnica que considera o aumento repentino de carbono na atmosfera da Terra devido às centenas de testes nucleares acima do solo, atuando como um indicador ambiental no ambiente marinho.
Em seguida, os pesquisadores utilizaram a modelagem bayesiana de idade-profundidade — abordagem estatística comumente usada em arqueologia — para datar as camadas de sedimentos e estimar a rapidez com que o tecido da carapaça se acumulou.


Os resultados revelaram que o crescimento das placas ósseas, considerando cada camada de 50 micrômetros, variam entre as espécies, mas representam, em média, de sete a nove meses de crescimento.
Com essa informação em mãos, a equipe pôde reconstruir uma espécie de linha do tempo, correlacionando as taxas de crescimento mais lentas com distúrbios ambientais nas águas da Flórida, a exemplo de eventos como a proliferações de algas nocivas, conhecidas como “marés vermelhas”, e grandes acúmulos de algas Sargassum.
Essas carapaças registram, na prática, o estresse ambiental no oceano. É como uma perícia forense com tartarugas marinhas. Podemos usar as impressões digitais químicas preservadas nas placas para detectar mudanças ecológicas– explicou Bethan Linscott
Ainda de acordo com a pesquisadora, o estudo pode ajudar os cientistas a entender com mais clareza como os ecossistemas marinhos estão mudando e como as espécies respondem a essas mudanças.
Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Tags
Relacionadas
Estudo analisou como o casco desse animais pode ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais em espécies marinhas
Separamos 11 fotos premiadas que arrancaram gargalhadas do público do Comedy Wildlife Photography Awards
Registro de 1949, gravado em um disco de plástico, revela em quase 1 minuto e meio o som emitido por uma baleia-jubarte
Segundo a fabricante holandesa U-Boat Worx, o modelo é o submersível privado mais rápido já construído, capaz de alcançar 300 m de profundidade
Evento que ocorrerá no São Paulo Yacht Club, na Represa do Guarapiranga, aceita inscrições até sexta-feira (3). Saiba mais!



