“Disneyland dos oceanos”: conheça Lorient La Base, a capital mundial da vela oceânica
Especialista em regras de regata, Ricardo Lobato conta como antiga base militar na Bretanha reúne as principais equipes e empresas que lideram a inovação no esporte


Os franceses são conhecidos pela paixão pela vela. Mas, se a ideia é falar de vela de oceano de competição, é melhor deixar de lado o glamour do Mediterrâneo: o verdadeiro centro mundial da modalidade fica na Bretanha, num lugar conhecido como Lorient La Base.
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Antes de seguir, vale um esclarecimento importante: no Brasil, a vela de oceano costuma ser associada a regatas curtas com barcos de cruzeiro ou antigas classes one design disputadas por sistema de rating. Lá, porém, o foco é a vela oceânica em sua essência: grandes regatas transoceânicas, como a Route du Rhum, entre Saint-Malo e Guadalupe, e a Vendée Globe, a volta ao mundo em solitário, sem escalas.


Caminhar pelos cais de Lorient La Base é testemunhar o pináculo da arquitetura naval contemporânea. O porto tornou-se a residência oficial e o laboratório de desenvolvimento das flotilhas mais cobiçadas da vela global. Confira abaixo quais são:
Os Trimarãs Ultim
Os trimarãs de 32 metros de comprimento por 23 de largura, capazes de voar sobre foils a mais de 45 nós ao redor do mundo, são montados, mantidos e pilotados em Lorient. Equipes como a Gitana, Sodebo, Banque Populaire e Actual têm bases fixas na região.


O principal desafio deles é o Trófeu Julio Verne, o recorde da volta ao mundo a vela sem escalas, batido no início deste ano por Thomas Coville e sua equipe a bordo do trimarã gigante Sodebo Ultim 3, completando a circum-navegação em 40 dias, 10 horas, 45 minutos e 50 segundos.


A Flotilha IMOCA 60
A classe rainha da Vendée Globe (a regata de volta ao mundo em solitário e sem escalas) tem em Lorient o seu porto seguro. Os principais times com Charal, Malizia, Paprec e DMG Mori Global One mantêm as suas bases em Lorient. A própria The Ocean Race se rendeu a classe IMOCA 60.


A Disneylândia da vela oceânica
A estrutura dessas equipes impressiona. Cada uma tem seu próprio hangar: no térreo, fica toda a área dedicada ao trabalho no barco; nos andares superiores, funcionam os escritórios, como em uma empresa completa. Há desde setores de RH e compras até cientistas de dados, metrologistas, especialistas em sistemas eletrônicos e profissionais ligados às mais diversas tecnologias.




Já as classes de formação e transição como a Mini 6.5, Figaro Benneteau e Classe 40 contam com polos de treinamento que servem como incubadoras de talentos, como o prestigiado Lorient Grand Large, que dá suporte logístico e técnico a dezenas de skipper. Lá você pode aprender sobre meteorologia, roteamento, utilizar o software de navegação Adrena e eletrônicos, além de regras de regata.


Se os Trimarãs Ultim representam o topo da pirâmide, a classe Mini 6.50 é a base. Centenas de jovens talentos modificam e testam seus pequenos e valentes laboratórios de 6,5 metros nas águas da Bretanha, perpetuando o ciclo de inovação de Lorient.


A classe é um verdadeiro laboratório de inovação. Além disto, todos os principais nomes da vela de oceano atual passaram pela classe. Seu principal evento é a regata Mini Transat que em 2027 saíra de La Rochelle na França e irá até Salvador no Brasil, com escala nas Ilhas Canárias.
Como Lorient virou o “Vale da Vela”?
A transformação de Lorient de uma base militar alemã da 2ª Guerra Mundial desativada para a “Sailing Valley” (o Vale da Vela) ocorreu por meio de uma combinação única de oportunidade geográfica, infraestrutura disponível, colaboração comunitária e visão de longo prazo.


A prefeitura é o principal motor financeiro local e conta com um plano de expansão até 2028 para consolidar sua posição e acomodar uma demanda crescente, aprovando um orçamento de 12,8 milhões de euros (cerca de R$ 77 milhões, segundo conversão de agosto de 2026) destinado a dobrar a capacidade do polo.
As obras (previstas para 2027–2028) focarão na ampliação de píeres, além de espaços voltados a fornecedores e construtores.


No final dos anos 1990, Lorient contava com imensos bunkers de concreto armado construídos para abrigar submarinos da marinha alemã durante a Segunda Guerra Mundial, que eram praticamente impossíveis de implodir.
Em vez de destruí-los, a comunidade local e velejadores lendários (como Éric Tabarly, Alain Gautier e Franck Cammas) enxergaram o enorme potencial daquela infraestrutura portuária protegida e com acesso direto ao Oceano Atlântico para barcos de regata de alto desempenho.
- Aproveitamento Físico das Estruturas: Os próprios bunkers foram reutilizados para atividades industriais de alta tecnologia. Um exemplo emblemático é a Lorima, líder mundial na fabricação de mastros e retrancas em carbono.
- Criação de um Ecossistema Cooperativo Único: Lorient estruturou um modelo onde equipes esportivas de elite e fornecedores industriais dividem o mesmo pátio e guindastes, desenvolvendo projetos lado a lado. Essa proximidade geográfica estreita — onde a solução para um problema está a poucas portas de distância — acelerou o ritmo de inovação técnica.
- Cluster de Alta Tecnologia Naval: O ecossistema abriga empresas inovadoras especializadas em todas as vertentes da engenharia náutica, tais como:
– Estrutura e Materiais: Estaleiros como o CDK Technologies (construção de cascos) e a Gsea Design (cálculo de cargas estruturais extremas em fibra de carbono;
– Velerias: Além das velerias globais como North Sails e Quantum, encontramos grandes velerias francesas especializadas nas regatas de oceano como a Incidence Sail e a All Purpose;
– Eletrônica e Automação: A Pixel Sur Mer, pioneira no uso de sensores de fibra óptica em tempo real para medir a tensão nos foils, e a Madintec, desenvolvedora dos pilotos automáticos avançados que garantem a estabilidade dos veleiros voadores. - Transição de Tecnologia para a Indústria Comercial: Mais do que apenas dar suporte às regatas, Lorient tornou-se um grande polo gerador de patentes. Tecnologias testadas no limite extremo das competições oceânicas — como o mapeamento estrutural por fibra óptica e o uso de velas rígidas — agora são exportadas para a marinha mercante global, visando a descarbonização do transporte de carga através da força do vento.


Para finalizar, a La Base conta com a Cité de la Voile Éric Tabarly. Muito mais que um museu tradicional com a icônica flotilha Pen Duick, o local é um espaço imersivo na vela de oceano. Conta com um incrível cinema dinâmico 4D, onde é possível sentir a emoção de velejar num IMOCA 60 com direito a batidas nas ondas e até borrifos de água na cara. Além de diversos simuladores e exposições com todos os equipamentos a bordo dos atuais veleiros de oceano.
Texto escrito por Ricardo Lobato (@regrasdaregata), especialista em regras de regata.
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