Consultor da Invest/SP destaca o turismo náutico como vetor de desenvolvimento econômico
Luís Antônio Sobrinho, representando Roberto de Lucena, comentou sobre o potencial paulista no 9º Congresso Internacional Náutica


São Paulo é uma grande potência hídrica. E não estamos falando de seus quase 900 quilômetros de costa e sim das águas interiores. São mais de 4,2 quilômetros de rios navegáveis e mais de 50 lagos e represas. Só o rio Tietê possui cinco mil afluentes. Localizadas no entorno desse mar de água doce, pelo menos 120 cidades têm vocação para o turismo náutico.
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Para explorar esse potencial, o governo do estado de São Paulo, através da Secretaria de Turismo e Viagens (Setur-SP), criou o Programa de Turismo Náutico, que promete estruturar e fomentar o fluxo de visitantes a esses municípios com a instalação de um modelo padronizado de estruturas.


A padronização dessas estruturas seria composta por píeres de atracação e passarelas, píeres flutuantes de atracação e sistemas de ancoragem construídos pela Metalu, com alumínio naval e madeiramento, além de mirantes e pergolados.
Durante o 9º Congresso Internacional Náutica, Luís Antônio Sobrinho, consultor da Invest SP, da Secretaria de Viagens e Turismo (Setur-SP) comentou — representando o secretário da pasta, Roberto de Lucena — sobre o assunto na sua palestra “O impacto Econômico do Turismo no Desenvolvimento Regional”.
O objetivo é estruturar e fomentar o fluxo de visitantes a partir da qualificação da atividade náutica– Luís Antônio Sobrinho


De acordo com o consultor da Invest/SP, na primeira fase do programa 13 cidades estão sendo contempladas com as estruturas, sendo que seis — que movimentam atualmente 1,7 milhão de turistas e excursionistas e geram um movimento de cerca de R$ 646 milhões ao ano em setores como lazer, transportes e compras — já foram atendidas.
“Considerando impactos diretos e indiretos, o turismo movimenta atualmente R$ 2,5 bilhões nessas 13 cidades. Com a implantação das estruturas náuticas, a previsão é de aumentar a movimentação econômica em 90% nos próximos 10 anos, com o número de turistas saltando para 6 milhões”, disse Sobrinho.


Segundo ele, o turismo náutico é uma forma sustentável de desenvolver um destino e aproveitar as riquezas naturais que o estado de São Paulo tem, além de promover a consciência ambiental e de gerar emprego e renda para a população das cidades.
Porém, essa hidrografia, apesar de enorme, é pouco conhecida. E as cidades aptas a desenvolver seu potencial não eram contempladas com investimentos públicos. Com isso, esses municípios estavam com as costas viradas para as águas– diagnosticou o consultor da Invest/SP.
A partir do Programa de Turismo Náutico da Setur-SP, esta página está sendo virada. “Por meio de estudos, identificamos os municípios banhados por águas interiores que começaram a enxergar a importância do poder transformador de estruturas náuticas para o desenvolvimento. E foi por eles que demos início ao programa”, disse Sobrinho.


Os 13 primeiros municípios do interior paulista já atendidos ou em vias de serem contemplados são estes: Araçatuba, Avaré, Fartura, Mira Estrela, Pereira Barreto, Pederneiras, Piraju, Presidente Epitácio, Rosana, Rubinéia, Sales, Três Fronteiras e Timburi.
Para eles, a chegada desses sistemas de ancoragem representa uma guinada, tendo o turismo náutico como vetor de desenvolvimento econômico.
O Congresso Internacional Náutica teve patrocínio da Metalu (maior fabricante de píers de alumínio no mundo) e antecedeu a abertura ao público do São Paulo Boat Show, evento que contou com mais de 170 barcos em exposição, 50 lançamentos gerais, além de uma série de produtos e serviços.
São Paulo Boat Show 2024
Consagrado como o maior evento náutico da América Latina, o salão que acontece desde 1998 reuniu, neste ano, mais de 170 barcos, disponíveis para o público conhecer e comprar. Nesta 27ª edição, os visitantes ainda puderam participar do sorteio de uma lancha Focker 188 Joy, equipada com motor Yamaha.


Tradicionalmente, o evento revela os principais lançamentos do ano, com estaleiros nacionais e internacionais apresentando barcos e jets de todos os modelos, preços e tamanhos. O público ainda confere motores, equipamentos, acessórios, brinquedos aquáticos, decoração e produtos de luxo — como resorts e helicópteros — expostos no Espaço dos Desejos.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




