Haja braço! Conheça o homem que remou de caiaque do Oiapoque ao Chuí

Educador físico, atleta e canoísta, Adelson Carneiro Rodrigues percorreu mais de 8 mil km a bordo de um caiaque de 5,5 m

14/10/2023

Depois de dar 3.520.315 remadas, o paulista Adelson Carneiro Rodrigues, de 61 anos, concluiu a mais longa aventura a bordo de um caiaque pela costa brasileira. Ao todo, foram 3 anos e 38 dias de adrenalina, sufoco, encanto e aprendizado, em um projeto chamado de “Expedição do Oiapoque ao Chuí”, em referência aos municípios dos extremos Norte e Sul do Brasil.

Ao desembarcar na Barra do Chuí — onde chegou, em uma remada simbólica, acompanhado de jornalistas e de outros remadores, sendo recebido em terra com festa e merecidos aplausos —, Adelson se tornou o primeiro brasileiro a remar toda a costa navegável do país de caiaque oceânico, um percurso de 8.082 quilômetros, conforme registrou o GPS portátil dele.

O trajeto de caiaque do Oiapoque ao Chuí inclui ainda entradas na Baía de São Marcos, no Maranhão; na Baía de Todos-os-Santos, na Bahia; e na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro; além da incursão pelo complexo lagunar costeiro do Rio Grande do Sul (uma série de 11 lagoas, entre a Lagoa Itapeva e Capão Porteira, seguida da Lagoa dos Patos e da Lagoa Mirim), na reta de chegada a Chuí.

 

Foi preciso muita energia para superar as situações difíceis que surgiram no caminho do caiaque do Oiapoque ao Chuí, como navegar em mar aberto com ondulações de até sete metros de altura em alguns trechos, encarar arrebentações, ventos de 20 nós, suportar diversos dias de chuva e (em águas doces) remar em meio a plantas aquáticas.

E energia é o que não faltou a esse educador físico (ex-preparador de atletas) e esportista, dono de extenso currículo como canoísta e repleto de prêmios em natação, triathlon e escalada — nesta modalidade, entre outros feitos, chegou ao topo do Monte Aconcágua, na Argentina, o ponto mais alto das Américas, com 6.962 metros de altitude.

 

Dores musculares, desgaste físico? Nada disso. “A minha preparação vem desde criança. Comecei a praticar esportes aos 10 anos de idade. São 51 anos participando de provas diversas, de natação, ciclismo e corrida. Já disputei 44 maratonas, além de três provas de Ironman”, explica o canoísta, que ingeriu entre 4 mil e 5 mil calorias por dia para repor as energias.

Durante essa expedição, eu não senti problema físico algum. Aliás, não usei um comprimido sequer para a dor – Adelson Carneiro Rodrigues

A canoagem entrou na vida desse superatleta, sedento por competições, em 2003. Desde então, passou a acalentar o sonho de “um dia” percorrer de caiaque toda a costa brasileira. Decisão finalmente tomada em 2015. 

Depois de tantos feitos, Adelson iniciou uma pesquisa profunda para a realização do projeto de remar o caiaque do Oiapoque ao Chuí. Com foco máximo na segurança. Remar preparado, com muito conhecimento a bordo do caiaque, é bem mais seguro que muitas atividades do dia a dia, ele acredita.

 

A expedição de cruzar a caiaque do Oiapoque ao Chuí começou no dia 17 de fevereiro de 2020, partindo da cidade de Oiapoque, Amapá, no extremo Norte do país.

 

“Subi 70 quilômetros pelo rio Oiapoque até a Baía de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, de onde apontei a proa rumo ao Sul pelo Oceano Atlântico, entrando em seguida no Arquipélago do Bailique, na Foz do Rio Amazonas, até sair na Ilha de Marajó”, descreve Adelson.

De remada em remada, ao todo, o canoísta atravessou 17 estados, a um ritmo que variou entre quatro e oito horas de viagem por dia. Mas encarou picos de mais de dez horas, como quando — na maior perna da viagem — cruzou os 63 quilômetros da Lagoa Mirim em um só fôlego.

 

“Eu estava preparado para remar até 70 quilômetros sem pausa, em cerca de 13 horas”, garante o canoísta, que ao longo da expedição dormiu em barraca, rede e de bivaque (na natureza, sem o uso de barraca, apenas jogando um plástico por cima, a céu aberto).

Navegando nessa cadência, Adelson poderia terminar a expedição de caiaque do Oiapoque ao Chuí em muito menos tempo que os 1.135 dias que levou para concluir a expedição. A pressa, porém, não fazia parte de seu vocabulário.

Não era uma travessia pura e simples. O caiaque foi apenas o meu meio de locomoção. A expedição tinha uma natureza cultural – Adelson Carneiro Rodrigues

“Eu parava de dois a cinco dias em algumas cidades, às vezes mais, para conhecer as pessoas, a vida dos ribeirinhos, dos caboclos, dos pescadores; a cultura local, enfim. E essa será a essência do livro que eu agora estou começando a escrever, junto com informações de natureza técnica sobre canoagem, como o mapeamento da nossa costa e a avaliação das condições ambientais de cada ponto do litoral brasileiro”, acrescenta.

Em Salvador, ele permaneceu por longos 20 dias na Baía de Todos-os-Santos e em seu entorno, mas sempre em movimento. Como sua estada na capital baiana coincidiu com uma etapa do Campeonato Brasileiro de Natação, Circuito de Águas Abertas, ele decidiu entrar na competição. “Participei da prova de 1.000 metros e fui vice-campeão”, conta, rindo.

 

O nosso litoral, segundo ele, é abençoado para a prática da canoagem. Porém, existem alguns macetes para evitar perrengues. Por exemplo: estudar bem os movimentos do mar, considerando a direção e o sentido das correntes marítimas. Se estiver no lugar errado, na hora errada, o canoísta corre o risco de ter de remar contra a corrente e, com isso, acabar andando para trás, em vez de avançar.

 

“Do Amapá à Foz do Rio Amazonas, a corrente corre no sentido Sul, o que ajuda na remada; já do Maranhão até a Paraíba a força do mar atua contra”, ensina Adelson. Tudo muda novamente a partir do chamado “Cabo Calcanhar” (na Ponta do Seixas, na Paraíba).


A partir dali a corrente corre do sentido do Nordeste para o Sul. Foi o trecho em que ele navegou com mais tranquilidade. “Até chegar no Cabo de São Tomé, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, onde entram as fortes correntes vindas do Sul, que costumam pregar peças até nos navegadores experientes”, alerta o canoísta, que — garante — passou sem nenhum aperto por lá.

“Precisei encontrar o momento exato para passar remando, com a corrente e o vento ajudando”, conta o canoísta, que durante cinco anos estudou a costa brasileira, até se sentir seguro para enfrentar essa empreitada. “Eu estava preparado para essa experiência”, afirma, sem esconder uma ponta de orgulho.

 

Foram cinco anos de preparação, para que não precisasse arriscar-se feito um aventureiro no desafio de ir de caiaque do Oiapoque ao Chuí. “Eu planejei muito, antes de iniciar essa expedição. Fiz uma pesquisa detalhada”, explica.

 

“No Maranhão, nós temos oito metros de amplitude de maré, uma coisa absurda, contra uma amplitude de 1,5 metros na Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, por exemplo. Então, é preciso chegar lá já com a lição de casa feita”, diz.

Ainda assim, sempre sobra espaço para pitadas de perigo e emoção. Na Foz do Rio Amazonas, por exemplo, mais especificamente na Ilha de Marajó, saindo de Soure, uma travessia de 50 quilômetros, ele chegou a pegar ondulações de até 7 metros de altura.

 

“Saí de lá às 4h da manhã, com orientação de pescadores locais. A maior parte do tempo remei com ondas normais, de 1,5 metro. Mas, em um trecho, as vagas vieram em um volume de água absurdo”, lembra Adelson.

 

Na costa do Maranhão, chamou atenção a força dos ventos, na faixa dos 20 nós. “Mas isso aconteceu já na hora de eu parar. Encostei e só dei continuidade na remada na manhã do dia seguinte, em condições mais confortáveis”, minimiza.

Em São João da Barra, no litoral do Rio de Janeiro, um contratempo de verdade: ele precisou pedir ajuda da Marinha para escapar das fortes ondas.

 

Já na passagem pelo Porto de Suape, em Pernambuco, o caiaque de Adelson foi atingido por um tubarão filhote, sem consequências para ambos. “Ele saiu nadando, eu continuei remando”, ri o canoísta, que foi aprendendo ao longo da expedição detalhes que não observou na pesquisa.

 

Lição importante: estar atento às mudanças de maré; e não desdenhar da fúria dos ventos. A chegada em hora errada na foz de um rio, por exemplo, pode transformar a aventura em pesadelo.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a remadora alemã Freya Hoffmeister, primeira pessoa a contornar a América do Sul de caiaque. Ao cruzar o Delta do Amazonas (na foz do Rio Sucuriju, no Amapá), ela foi surpreendida por uma pororoca (avalanche de água que se forma quando a maré sobe, invertendo o fluxo do rio.

 

Para sobreviver, apontou seu caiaque para a costa, surfando na escuridão, em meio a águas turbulentas, por cerca de 15 minutos, a uma velocidade que chegou aos de 30 km/h. Depois, numa localidade chamada Travosa, nos Lençóis Maranhenses, ela teve de tomar a decisão difícil de desembarcar.

 

A solução foi viajar de carro para Recife e reverter esse trecho; ou seja, remar de lá até o Maranhão e concluir o trajeto em sentido inverso, pois seria impossível vencer ventos contrários tão fortes.

Adelson passou por esses mesmos locais, onde a remadora alemã sentiu com mais intensidade as forças da natureza. Como são fenômenos previsíveis – e que têm até hora marcada para acontecerem — ele tinha tudo anotado na ponta do lápis.

 

Com essas informações, e um mapa adequado, os venceu sem problemas. E ainda teve tempo para contemplar as belezas de cantos remotos ou pouco explorados do país; de mergulhar em locais onde o mar é mais bonito, como Porto Seguro e Arraial do Cabo; e de remar em alguns dos melhores destinos de ecoturismo do nosso litoral, como o arquipélago de Abrolhos.

“Saindo de Caravelas, na Bahia, fui direto pra lá, um percurso de 60 quilômetros. Era o meu sonho conhecer esse paraíso de águas cristalinas, detentor da maior formação de corais do Atlântico Sul e um dos melhores pontos de mergulho do país”, relembra.

 

O pacote de viagem, digamos assim, garantiu a Adelson ver de perto tubarões (especialmente no litoral cearense), peixe-boi, arraias, tartarugas gigantes e até cobras sucuri.

 

“Só não consegui ver baleias, porque não coincidiu o período de avistamento”, lamenta. “Em compensação, chegando em Itajaí, fui cercado por duas famílias de golfinhos, uma de cada lado do caiaque, me acompanhando. Foi incrível. Nessas horas, a gente começa a entender o que realmente importa nessa vida, o que realmente tem valor”, reflete.

No desembarque, no Chuí, Adelson já anunciou sua próxima expedição: remar 4.000 quilômetros entre Chuí e Ushuaia, a gelada capital da província da Terra do Fogo, no Sul da Argentina, um lugar ao mesmo tempo belo e ameaçador.

 

“Eu já percorri a costa do Uruguai, analisando com meus próprios olhos todos os lugarzinhos em que poderei parar, o que é fundamental para o sucesso da missão”, explica. Ainda vamos ouvir muito falar sobre ele e seu caiaque marinheiro.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Poluição sonora no mar pode ser catastrófica para as baleias

    Barulhos provenientes da navegação de barcos, extração de recursos e outras atividades marítimas afetam a circulação dos animais que se comunicação pelo som

    Confira a melhor forma de chegar ao Rio Boat Show 2024

    Evento náutico mais charmoso da América Latina contará com transfer todos os dias e estacionamento 24h; saiba mais

    NÁUTICA Talks: Izabel Pimentel e Marcelo Osanai contam acontecimentos inesperados na navegação

    Dois navegadores que já passaram por apuros em alto-mar relatam suas incríveis histórias no Rio Boat Show 2024

    Yamaha vai ao Rio Boat Show 2024 com cinco motores e dois jets

    Entre os equipamentos, estão cinco modelos de popa; evento acontece de 28 de abril a 5 de maio

    Memória Náutica: relembre como foi o Rio Boat Show 2019

    Evento chegou a sua última edição antes da pandemia consolidado como o mais importante salão náutico outdoor da América Latina