Marinheiro resgatado após dois meses no mar levanta dúvida: quanto tempo é possível sobreviver sem água?
Tim e sua cachorrinha foram salvos após tempestade atingir o barco em que estavam; veja vídeo


Enquanto viajava do México para a Polinésia Francesa acompanhado de sua cachorrinha Bella, Tim Shaddock teve seu barco atingido por uma tempestade que o deixaria à deriva por dois meses no Oceano Pacífico. O marinheiro resgatado conseguiu sobreviver e passa bem, mas traz a questão: quanto tempo é possível sobreviver sem água?
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Tim é um australiano de 51 anos que conseguiu sobreviver no oceano à base de água da chuva e peixe cru — que ele mesmo pescou utilizando o equipamento de pesca de seu barco, um catamarã, que também o ajudou a evitar os danos dos raios de sol.


“Passei por uma provação muito difícil no mar. Só estou precisando de descanso e comida boa porque estou sozinho no mar há muito tempo. Fora isso, estou com uma saúde muito boa”, afirmou o marinheiro resgatado ao 9News.
A dupla foi avistada no mar por um helicóptero, o que possibilitou que uma traineira realizasse o resgate dos dois. Segundo a BBC News, Tim estava mais magro do que o normal, mas saudável e se recuperando bem.
MOMENTO EXACTO EN DONDE RESCATAN AL NAUFRAGO/ "Gracias, gracias", así fue el momento exacto en el que una embarcación de @Grupomar rescató al ciudadano australiano Tim Shaddock y a su perrita "Bella", quienes habían permanecido tres meses a la deriva pic.twitter.com/bKiHkeA1jK
— David Monroy MX (@DavidMonroyMx) July 19, 2023
Afinal, por quanto tempo é possível sobreviver sem água?
Essa é uma resposta um tanto quanto complexa. Experimentos do tipo são difíceis de realizar, já que a restrição de água pode ser mortal. Para tentar driblar essa impossibilidade, pesquisadores alemães analisaram relatos da mídia de pessoas que tinham enfrentado períodos sem hidratação.
A pesquisa deu origem a um artigo científico, localizado pelo site IFLScience, que aponta parecer “possível sobreviver sem comida e bebida por um período de tempo de 8 a 21 dias”. Caso a pessoa tenha água, mas não comida, esse tempo poderia alcançar até dois meses, diz o estudo.
Mas esses números são variáveis, uma vez que as condições físicas, idade e a temperatura são cruciais e podem interferir na resistência do corpo humano. Por conta disso, os profissionais de saúde hoje apontam que uma pessoa média só poderia ficar de dois a três dias sem água.
Uma prova dessa indefinição de tempo é um caso que aconteceu na Alemanha, em 1979. Na ocasião, o preso Andreas Mihavecz, de 18 anos, foi esquecido em sua cela após um acidente e ficou sem comida nem água. Somente 18 dias depois ele foi encontrado — ainda vivo, mesmo após perder muito peso.
Em 1944, dois cientistas, um de 28 e o outro de 33 anos, realizaram um dos poucos experimentos sobre o assunto. Ambos se privaram de água e comeram apenas uma dieta de alimentos secos — um deles por 3 e o outro por 4 dias.
“Seus rostos ficaram um pouco contraídos e pálidos e havia uma sugestão de cianose em seus lábios. Essa aparência geral de mal-estar desapareceu em poucas horas após a restauração do líquido, e os sintomas de desidratação passaram muito antes da reidratação fisiológica estar completa”, concluiu um estudo da Universidade de Cambridge sobre o caso.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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