Estaleiro italiano lança megaiate batizado de “Amor à Vida”
Esse é mais um texto sobre megaiates revelados na Itália, o berço da náutica mundial. Mas no caso deste, um detalhe, em especial, chama atenção: o modelo lançado pela CRN Yachts — parte do Ferretti Group — carrega um nome em português. Trata-se do “Amor à Vida”, um megaiate de 67,6 metros repleto de tecnologia.
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A partir do nome, o que se imagina é que o proprietário possa ser brasileiro — ou português, quem sabe. Mas a verdade é que, seguindo a cartilha de compras milionárias como essa, o nome do dono foi mantido em sigilo.


Até agora, especulações apontam para um gestor de fundos de hedge, baseado em Nova York, que, antes do megaiate Amor à Vida, possuía uma embarcação menor, de 46 metros, vendida ao final de 2024 — e, antes dessa, uma Azimut ainda mais enxuta.
Conforme informações da CRN, o proprietário ainda é um entusiasta de ações sustentáveis. Isso porque um dos pontos-chave para que ele adquirisse a embarcação foi o fato do projeto refletir o comprometimento do estaleiro com a sustentabilidade, já que sua intenção era “incorporar salvaguardas ambientais ao design”.
Afinal, como é o megaiate Amor à Vida?
Lançado em Ancona, na Itália, o megaiate Amor à Vida chegou a receber outro nome: Projeto Maranello. Nessa época, inclusive, a embarcação foi vista navegando “nua” por aí. A vista pouco agradável do barco aconteceu em 2023, durante alguns testes realizados pelo estaleiro– mas isso são águas passadas.
Agora, já como Amor à Vida, a embarcação luxuosa chega como o primeiro de quatro iates da CRN totalmente personalizados — os outros são o CRN 144, de 85 metros; o Project Thunderball, de 70 metros, e o CRN 146, de 67,6 metros.


Construído em aço e alumínio com casco de deslocamento, o Amor à Vida foi pensado em conjunto pela CRN e pelo estúdio de design Nuvolari Lenard, que assina tanto o estilo exterior quanto o interior do barco.
No exterior, inclusive, a Nuvolari apostou nas janelas alongadas, que, segundo os designers, “abraçam totalmente os requisitos específicos do proprietário enquanto incorporam sua visão e estilo de vida“.
Em termos de navegação, o megaiate corta ondas com um sistema de propulsão híbrido, capaz de aumentar a eficiência de combustível dos motores principais e dos geradores, ao passo que garante conforto aos hóspedes durante a navegação.


O Amor à Vida conta ainda com um sistema de recuperação de calor para “otimizar o gerenciamento de água quente para as piscinas e sistema de encanamento, reduzindo o impacto energético e os custos, ao mesmo tempo em que garante um serviço rápido e eficiente”, como explica a CRN.
Embora detalhes mais específicos sobre o megaiate Amor à Vida ainda não tenham sido revelados, já se sabe que a embarcação acomoda 12 hóspedes e nada menos que uma equipe de 17 tripulantes. O proprietário misterioso do barco deve recebê-lo ao final deste ano.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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