Mil viagens movidas pelo sol: barco 100% elétrico solar revoluciona a navegação em Ilha Grande

Idealizadores da embarcação pioneira em Angra dos Reis (RJ) revelam à Náutica detalhes do processo de transformar barco a diesel em um totalmente movido a energia limpa

Por: Nicole Leslie -
08/09/2026
Mogli, o táxi-boat 100% elétrico e solar que navega por Ilha Grande. Foto: André Cypriano / Arquivo pessoal

Imagine deslizar pelas águas de Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro (RJ), em um barco sem o ruído de um motor a combustão, sem vibração constante e sem aquele característico cheiro de combustível queimado. Embora ainda possa parecer o cenário utópico de um futuro distante, já é realidade diária no litoral fluminense graças a um novo táxi-boat.

Em apenas três meses e meio de operação, o primeiro táxi-boat 100% elétrico solar de Ilha Grande alcançou a marca de mil viagens concluídas. Transportando turistas, hóspedes e moradores entre a Vila do Abraão, o hotel Asalem e o recém-inaugurado Anexo Museu, a embarcação faz cerca de dez trajetos diários movidos exclusivamente por energia limpa.

 

A Revista Náutica conversou com os dois idealizadores por trás desse táxi-boat: o renomado fotógrafo de fine art André Cypriano e seu parceiro de longa data, o marinheiro caiçara Ezequias de Oliveira. Juntos, eles transformaram um barco tradicional a diesel em um símbolo de navegação limpa.

“É só alegria”

A semente da transição energética foi plantada por uma visita constante à dupla em Ilha Grande: a velejadora Maritza, comandante do veleiro Saracura. Ela instalou um motor elétrico marítimo para servir de apoio à embarcação durante manobras e convenceu os dois a dar uma chance a esse tipo de motorização.

Sempre que nos encontrava, dizia uma frase que acabou virando o slogan do nosso motor: ‘É só alegria!’. Passávamos horas conversando sobre como era incrível não ter que ir até Angra dos Reis buscar galões de óleo diesel. Na Ilha Grande, o esforço logístico para manter motores tradicionais é enorme-conta Cypriano

Inspirado pela facilidade e por sua própria experiência com um skate elétrico de bateria de lítio que usa como meio de transporte em Nova York, André decidiu que era hora de aposentar os barulhentos motores a combustão. “Eu viajava por meses e, quando voltava para Nova York, a bateria do skate continuava com carga total. Então pensei ‘Por que não aplicar isso na água?'”.


Da gasolina à energia limpa: benefícios pessoais e ambientais

Para Ezequias de Oliveira, a motivação diária era também física e prática. Com 17 anos de experiência como marinheiro na região, ele conhecia de perto o lado penoso dos motores a diesel. “Quebravam demais, o barulho era absurdo e o cheiro do combustível impregnava em tudo. Trabalhar o dia inteiro cheirando a óleo diesel, e ainda receber hóspedes nessa atmosfera, não era o ideal”, relata.

 

Cypriano, por sua vez, carrega uma veia ecológica profunda. Para ele, o motor elétrico protege a vida que não se vê a olho nu.

As pessoas não percebem, mas toda a água marinha que é sugada para refrigerar um motor diesel convencional sai superaquecida. Qualquer célula, plâncton ou pequeno organismo que passa por ali morre instantaneamente. Além disso, o uso excessivo de petróleo move as piores guerras do mundo. Diminuir o consumo de combustíveis fósseis é nossa responsabilidade coletiva-afirma André

 

 

A transformação do barco

A dupla tinha dois barcos em fibra de vidro equipados com motores à diesel para atender os hóspedes do Asalem e a ideia de adaptar uma embarcação veio antes de inaugurar o Anexo Museu. “Aproveitamos apenas o casco original de fibra de vidro de 7,5 metros. Todo o resto foi refeito do zero”, conta Ezequias.

Mogli e Cação, barcos da dupla, antes da transformação do primeiro em táxi-boat elétrico solar. Foto: André Cypriano / Arquivo pessoal

A remoção do volumoso motor a diesel, de sua “enorme caixa acústica de isolamento de ruído” e dos tanques de combustível liberou tanto espaço interno que a capacidade homologada do barco saltou de 8 para 12 passageiros mais um tripulante.

 

Batizado de Mogli, o barco em fibra de vidro no estilo center console tinha um teto rígido e levava as cores branco e azul claro no casco. Após a transformação, tudo mudou — com exceção do nome que, por tradição, não se muda. O táxi-boat passou a ser branco e amarelo e, no lugar do teto rígido, entrou uma estrutura de inox para uma proposta mais aberta, mas resistente para receber as placas de energia solar.

Adaptações necessárias no táxi-boat

Nesse processo, Ezequias precisou desenhar manualmente diversas soluções elétricas e mecânicas. Uma delas foi a instalação de uma “correia dentada de sacrifício”. O equipamento funciona como um anodo de sacrifício, mas com outro propósito.

Se a hélice travar em um cabo flutuante ou se houver um impacto brusco de reversão, a correia se rompe protegendo a integridade do motor e do eixo. O custo de substituição de uma correia é insignificante perto de um motor novo-explica Ezequias

Outro ajuste essencial foi no sistema de segurança elétrica. No início, os fusíveis originais de 150 ampéres queimavam constantemente quando o barco exigia mais potência. Então, Ezequias e o eletricista adaptaram disjuntores individuais em cada uma das três fases do motor. Agora, se houver sobrecarga, o sistema apenas desarma — como em um quadro elétrico residencial —, bastando rearmá-lo para continuar navegando.

Processo de adaptação do barco a diesel em barco elétrico e solar. Foto: André Cypriano / Arquivo pessoal

As placas solares dispostas sobre o toldo de inox fornecem autonomia completa. No sol forte, as baterias vão de 0 a 100% em apenas 1h30. E, na ausência de sol, uma tomada permite a recarga na rede elétrica convencional de forma ainda mais rápida e com baixíssimo consumo de energia.

 

Ao todo, mesmo com um trabalho manual feito de maneira adaptada na garagem do Asalem, Ezequias conta que foram necessários apenas 45 dias de trabalho para transformar o barco a combustão na embarcação movida a energia limpa. O táxi-boat 100% elétrico e solar foi inaugurado junto ao Anexo Museu, no último mês de fevereiro. Desde então, o barco a diesel da dupla não precisou navegar mais.

André finalizando a pintura no Mogli após transformação em táxi-boat elétrico solar. Foto: André Cypriano / Arquivo pessoal

Flutuando no silêncio absoluto: a experiência de navegar no táxi-boat

Para a dupla, navegar no barco elétrico solar proporciona uma experiência quase poética. “Diferente de um barco a combustão, quando você liga o motor elétrico não há vibração ou ruído. Enquanto o barco se move, parece que você está flutuando ou até parado, só percebe o movimento ao olhar para o lado e ver a água passando”, conta André Cypriano.

 

O trajeto do táxi-boat oferecido para visitantes do Anexo Museu leva cerca de 8 minutos. “Nós vamos devagarinho, economizando bateria, apreciando a vista e conversando com os passageiros”, detalha o fotógrafo.


Águas passadas e futuras

Com mil viagens em cerca de três meses, o sucesso do táxi-boat já permitiu que André e Ezequias planejassem futuros passos. O primeiro deles, agendado para o verão, é realizar a primeira volta completa na Ilha Grande utilizando exclusivamente propulsão elétrica solar.

 

Depois, a ideia é construir novos barcos elétricos solares, tanto para aumentar a frota do táxi-boat, quanto para atender a vizinhos e outros conhecidos que tiveram interesse em adquirir embarcações movidas a energia limpa. Para os próximos barcos, contudo, André e Ezequias de Oliveira pretendem abandonar os cascos adaptados e criar um design próprio de catamarã elétrico solar.

O catamarã oferece muito mais estabilidade, espaço e segurança. Queremos instalar um motor de 40hp (atualmente operam com o equivalente a 25hp) e utilizar duas rabetas, garantindo redundância mecânica e mais velocidade-detalha Ezequias

Ecossistema verde

Paralelo aos planos de novos barcos, André conta que já estuda a viabilidade de instalar pontos de abastecimento elétrico nos dois píeres do Anexo Museu. A ideia é criar um equivalente náutico aos postos de abastecimento de carros elétricos.

Queremos abrir as portas para que navegadores externos possam encostar e recarregar suas baterias, promovendo uma rede de navegação limpa na região-conta Cypriano

O Anexo Museu promove um encontro da arte com a natureza ao expor coleções fotográficas de André Cypriano e permitir que os visitantes apreciem uma vista privilegiada da Praia do Abraão. Assim, a travessia silenciosa a bordo do táxi-boat elétrico solar funciona como um prólogo perfeito para a experiência contemplativa do espaço.

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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