Gasolina com 32% de etanol: entenda os riscos para o setor náutico

Mistura obrigatória de etanol na gasolina sobe de 30% para 32%, enquanto especialistas alertam para riscos técnicos e de segurança no uso do combustível em embarcações

Por: Nicole Leslie -
17/07/2026
Foto: TDyuvbanova / Envato

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou, nesta terça-feira (14), a proposta do Governo Federal sobre o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. Com isso, a mistura do biocombustível que era limitado a 30% agora passa para 32% e poderá aumentar ainda mais. Embora a mudança possa baratear o preço do produto final (na bomba), essa mudança implica uma série de riscos para quem utiliza a gasolina no setor náutico.

Os desafios vão desde danos aos motores até problemas de segurança. O capitão Márcio Dottori, especialista e consultor técnico em navegação, elencou os principais riscos que a alteração implica para quem fabrica ou utiliza embarcações no Brasil. Eduardo Colunna, presidente da Associação Brasileira de Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), reforçou os impactos negativos dessa mudança para o setor.

 

 

Impactos de mais etanol na gasolina para o setor náutico

Problemas com umidade e condensação

Os barcos operam, logicamente, em ambientes úmidos e os tanques de combustível são sujeitos a variações de temperatura. Esse processo pode resultar na condensação de água no tanque de combustível nos barcos. Assim, a água condensada se mistura ao etanol e provoca a separação deste da gasolina, criando uma camada instável no fundo do tanque. Com o aumento da porcentagem de etanol no combustível, esse problema de separação torna-se ainda mais difícil de evitar e gerenciar, especialmente a bordo.

Foto: lyulkamazur / Envato

Incompatibilidade em motores

Márcio Dottori explica que os motores de popa e de centro-rabeta mais antigos não foram preparados para lidar com uma proporção tão alta de álcool (etanol) na mistura do combustível. Na prática, isso passa a oferecer mais riscos à segurança, uma vez que, caso o motor de uma embarcação pare de funcionar em locais perigosos, como arrebentações ou perto de pedras, os riscos podem ser graves.

Menor rendimento e maiores custos

Dottori também afirma que o etanol possui um rendimento energético menor que a gasolina, o que faz com que o motor consuma mais combustível. Ou seja, apesar do valor final do produto potencialmente ficar mais barato, na prática haverá maior necessidade de abastecimento, resultando em maiores gastos para o navegador. Além disso, o uso de uma mistura de combustível para a qual o motor não foi devidamente validado pode gerar gastos maiores com manutenção preventiva e corretiva.

Foto: photocreo / Envato

Escassez de alternativas no mercado brasileiro

O especialista diz que, no Brasil, os navegadores precisam usar combustível automotivo por falta de alternativas no mercado. Isso porque, diferente de países como os EUA, onde há opção de abastecer os barcos com gasolina pura, no Brasil essa diferenciação não é uma possibilidade prática.

É muito melhor para os motores aquáticos ter gasolina pura, mas a gente não tem essa possibilidade aqui-afirma

Dottori aponta que, embora existam gasolinas premium — como a Podium, que limita o nível de etanol a 25% —, esse tipo de combustível não é facilmente encontrado no Brasil. Além disso, quanto mais puro o combustível, mais caro fica o produto final e isso, conforme o especialista, não é compatível com muitos dos navegadores do país, que precisam de muitos litros para abastecer tanques maiores.


Falta de consulta ao setor náutico

Segundo Márcio Dottori, o aumento para 32% de etanol na gasolina foi decidido pelo CNPE sem consultar o setor náutico e outros segmentos afetados, como o de motocicletas e o da aviação experimental. Por fim, o especialista acredita que os testes realizados com teores de 30% de etanol foram rápidos e de curta duração, por isso não garantem a segurança do produto a longo prazo.

 

Eduardo Colunna também frisa que a alteração na mistura de etanol no combustível não considerou especialistas envolvidos com a navegação. O presidente da Acobar reforça os impactos negativos da mudança para o setor, especialmente no que diz respeito à segurança a bordo.

O governo tomou uma decisão que afeta milhares de embarcações em todo o Brasil sem ouvir quem conhece a realidade da navegação. Não somos contra os biocombustíveis, mas é incompreensível que uma medida com potencial impacto na segurança da navegação seja adotada sem diálogo com as entidades que representam o setor e sem testes específicos para motores náuticos. Segurança não pode ser tratada como um detalhe quando vidas dependem do funcionamento confiável de uma embarcação-declara Colunna.

 

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