Foto tirada do espaço mostra águas do Mediterrâneo prateadas

05/03/2025

Calma, esta não é uma foto de uma água tão poluída que ficou cinza. Na verdade, trata-se de um fenômeno raro chamado “sunglint”, que transformou o Mar Mediterrâneo num espetáculo prateado.

O registro foi feito por um astronauta, diretamente da Estação Espacial Internacional (ISS), e apresenta os arredores das ilhas gregas vulcânicas de Milos (centralizada) e Antimilos (esquerda), no Mar de Egeu. A foto foi tirada em junho de 2022, publicada na época pela NASA e divulgada recentemente pela Live Science.

Foto: Earth Observatory, da NASA

O fato é que as águas não estão prateadas de verdade, já que este fenômeno não passa de um evento óptico. O efeito acontece quando a luz do sol reflete em um corpo plano de água no mesmo ângulo em que o sensor a vê, formando assim uma espécie de “espelho astronômico”.

Tal efeito é parecido com quando a luz reflete no mar durante o nascer ou pôr do sol, só que em proporção bem menor. Logo, no lugar de uma faixa laranja brilhante que se reflete nas ondas, o fenômeno traz uma mancha prateada, capaz de cobrir centenas de quilômetros e se mover pelo oceano conforme a Terra gira.

 

O curioso é que esse fenômeno só pode ser notado por observadores que orbitam a Terra, como satélites e astronautas.

Mais do que podemos ver

O fenômeno sunglint revela algumas informações que, costumeiramente, não ficam tão escancaradas. Na imagem da NASA, por exemplo, é possível observar correntes superficiais impulsionadas pelo vento, correntes oceânicas e redemoinhos que ficariam “escondidos” sem o reflexo do sol.

Sunglint registrado nas Ilhas Canárias, em 15 de junho de 2013. Foto: Earth Observatory/ NASA/ Divulgação

Destaca-se na imagem um redemoinho gigante a leste (direita) de Milos. Além disso, há uma longa linha reta no canto inferior esquerdo da imagem que, segundo o Earth Observatory (Observatório da Terra) da NASA, provavelmente trata-se de um rastro de navio.

 

No entanto, o fenômeno mais raro na imagem é um conjunto de linhas paralelas, localizadas na costa noroeste (canto superior esquerdo) de Antimilos. Parcialmente escondidas por nuvens, esses traços na verdade são “ondas internas” — ondulações verticais massivas que passam pela água abaixo da superfície.

Sunglint no Mar Mediterrâneo, destacando as ilhas de Córsega e Sardenha, em fevereiro de 2020. Foto: Earth Observatory NASA/ Divulgação

Vale destacar que enquanto as ondas de superfície são impulsionadas por correntes oceânicas ou ventos fortes, as chamadas “ondas internas” resultam de ondulações gravitacionais, passando pela interface de dois meios fluidos quando a gravidade interrompe o equilíbrio entre eles.

 

De acordo com um artigo do The Conversation de 2021, essas ondas estão ondulando — por mais redundante que pareça — ao longo da fronteira submersa entre duas camadas de água, que foram estratificadas pela temperatura e salinidade e interrompidas pelas marés mutáveis da Terra.

Os efeitos das águas prateadas

Bonito? Sim. Problemático? Também. O fenômeno das águas prateadas às vezes é responsável por dificultar o trabalho dos cientistas, já que ele também obscurece características que costumam ser visíveis, conforme explica a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA).

Fenômeno do sunglint pode ser comparado, em proporções menores, ao sol refletindo na água durante o nascer ou pôr do sol. Foto: ravelarium/ Envato

Por conta disso, os pesquisadores tiveram que desenvolver filtros para as imagens “contaminadas” pelo sunglint — o que tem surtido efeitos positivos.

 

Os cientistas podem também utilizar este fenômeno a seu favor, para medir com mais precisão os derramamentos de óleo na superfície do oceano. O petróleo bruto, por exemplo, absorve uma quantidade significativa de luz solar, enquanto o sunglint reflete-a de volta para o espaço.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

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