Mar de plástico: alta concentração de microplástico ameaça corais no Mediterrâneo
Nem mesmo os recifes protegidos escapam da contaminação por resíduos plásticos. Um novo estudo publicado na revista científica Marine Pollution identificou uma concentração “excepcionalmente alta” de microplástico e microborracha em corais nas ilhas espanholas no Mar Mediterrâneo. A estrutura dos recifes, segundo os pesquisadores, favorece o acúmulo dessas partículas, criando um verdadeiro efeito armadilha no fundo do mar.
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O Mare Nostrum (Mar Mediterrâneo) está se tornando um mar de plástico, mesmo nos ecossistemas mais protegidos– comunicado do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC)
No caso, a espécie de coral que está sofrendo com a poluição por microplásticos é a Cladocora caespitosa, a única com capacidade de formar recifes no Mar Mediterrâneo. Nas amostras colhidas na reserva marinha da Ilhas Columbretes, foram identificadas 1.514 partículas de microplástico para cada quilo de corais, em média.


O número pode ser considerado preocupante, pois é muito superior aos obtidos em outras partes do Mar Mediterrâneo. Segundo o estudo, as taxas variam de 41 a 6.345 partículas de microplástico e microborracha por quilo de sedimento seco.
Encontramos microplásticos em todas as amostras, mas as maiores concentrações estavam dentro das estruturas dos corais– revela Diego Kersting, pesquisador do CSISC, que participou do estudo
Os microplásticos são pequenos resíduos plásticos com menos de cinco milímetros que podem vir de diversas fontes, como a degradação de plásticos maiores ou produtos cosméticos. Logo, não é uma surpresa que esses materiais acabem nas profundezas das águas.
Efeito armadilha
O estudo aponta um fator que explica a disparidade entre a quantidade de partículas de microplástico: o efeito armadilha. Isso se dá pelo formato dos recifes de coral, que contribui para o acúmulo dos materiais nocivos, que ficam presos nas estruturas.


Em Columbretes, o formato em ‘C’ da Baía de Illa Grossa também favorece o acúmulo de poluentes– afirma o pesquisadores Lars Reuning, coautor do estudo
O transporte de plástico por longas distâncias por meio das correntes Norte e Nordeste também contribui para a contaminação dos recifes de corais. Os fragmentos de borracha, por sua vez, são resultado, na maioria das vezes, do desgaste dos pneus em terra, que param no mar através dos rios.


De qualquer forma, é paradoxal que encontraremos essas concentrações de microplásticos em dois locais tão protegidos– lamenta Lars Reuning
Falsa segurança
Segundo o artigo, estima-se que 80% dos plásticos que chegam aos oceanos sejam provenientes de fontes terrestres. “Esse é um bom exemplo de que o lixo acaba em todos os lugares, da globalização da poluição plástica”, resumiu Kersting.


No momento, sabe-se que que os efeitos de 540 partículas por quilo seco de sedimento podem causar efeitos adversos à saúde dos corais — sendo que as concentrações de microplástico encontrado no Mediterrâneo são bem maiores. Porém, as reais consequências que o acúmulo pode causar são desconhecidos.
Além disso, o CSIC já detectou que o aquecimento do Mediterrâneo causa estresse neste coral, o que reduz seu crescimento e pode levá-lo à morte.
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




