Peixe de “Procurando Nemo” encolhe de tamanho para sobreviver às ondas de calor

31/05/2025

Que os oceanos estão esquentando cada vez mais — assim como todo o planeta — não é novidade. Para se defender dessa ameaça, os peixes-palhaço (Amphiprion ocellaris) — espécie que protagoniza o famoso filme “Procurando Nemo” –, adotaram uma resposta anatômica: se encolher.

Publicado na revista científica Science Advances, o estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, destacou também que esse fenômeno nunca tinha sido observado em recifes de coral, até então.

Foto: wirestock/ Envato

Para chegar a essa conclusão, os cientistas realizaram um monitoramento intenso durante o verão de 2023, com mais de 134 exemplares observados no recife de coral da Baía de Kimbe, na Papua-Nova Guiné — região considerada um dos principais pontos de biodiversidade marinha do planeta.

 

De todos os peixes estudados, 78% deles apresentaram diminuição significativa no tamanho corporal conforme o oceano esquentava. Esse encolhimento foi registrado na maioria das fêmeas e machos — 71% e 79%, respectivamente –, que encolheram ao menos uma vez.

O encolhimento não foi um evento isolado para muitos peixes-palhaço, já que 41% deles reduziram várias vezes durante as observações. Segundo a pesquisa, as fêmeas tendem a diminuir de tamanho quando atingem cerca de 80 mm, enquanto os machos encolhem com aproximadamente 61 mm.

Foto: Dmitry_Rukhlenko/ Envato

De acordo com a pesquisa, existem três padrões de resposta anatômica às ondas de calor: alguns não encolhem, outros diminuem uma única vez e o restante perde tamanho várias vezes. Curiosamente, os que mais reduziram demonstraram, na sequência, um crescimento de recuperação maior.

 

Logo, o estudo sugere que a hierarquia social e o tamanho inicial do animal influenciam em como eles reagem ao calor.

Diminuir para crescer

Ao mesmo tempo que esse comportamento inédito demonstra uma capacidade de adaptação louvável e ajuda a espécie a sobreviver diante o aquecimento nos oceanos, a redução anatômica pode comprometer a reprodução desses animais. Isso porque peixes menores tendem a gerar menos filhotes.

Foto: TravelSync27/ Envato

Entretanto, vale enxergar o copo meio cheio. O estudo aponta que os peixes que reduziram seu tamanho tiveram até 78% mais chances de resistir ao estresse provocado pelo calor intenso. Ou seja, ao final das contas o fenômeno ainda é um aspecto positivo para a conservação da espécie.

 

Outro comportamento curioso observado foi o encolhimento coordenado dos peixes-palhaço: alguns dos parceiros reprodutores reduziram juntos. Essa transformação em conjunto aumenta as chances de ambos sobreviverem em comparação aos casais que apenas um dos dois perderam tamanho.

 

Sendo assim, os pares que encolheram juntos evitaram disputas entre machos e fêmeas e mantiveram a harmonia no espaço limitado das anêmonas-do-mar. Fora dessa proteção, os peixes-palhaço ficam mais vulneráveis a predadores, já que nadam pouco e são lentos.

Preocupante ou animador?

Se engana quem pensa que o fenômeno do encolhimento se trata apenas de uma simples perda de peso. Professora de Ciências Marinhas Tropicais e coautora do estudo, a Dra. Theresa Rueger destaca que os peixes estão, de fato, “mudando ativamente de tamanho corporal como adaptação fisiológica”.

Tornam-se menores, o que reduz suas necessidades energéticas e melhora a eficiência no uso de oxigênio em ambientes mais quentes e com menos oxigênio disponível– disse a cientista à BBC

Foto: TravelSync27/ Envato

Há outros animais que também apresentam a capacidade de encolher para se adaptar às condições estressantes, como as iguanas marinas, por exemplo. Mas essa é a primeira vez que o comportamento foi observado em peixes de recife.

 

Os pesquisadores acreditam que o corpo do peixe pode estar absorvendo gordura e até massa óssea — assim como as iguanas. Casos semelhantes já foram encontrados em aves, répteis e insetos. Porém, essa hipótese ainda não foi comprovada por estudos laboratoriais.

Foto: Statuska/ Envato

Nemo pode ter um novo capítulo pela frente, em que ele não só enfrenta desafios familiares, mas também precisa lidar com um oceano em constante transformação– brincou Rueger

Entretanto, ainda há o que ser estudado sobre essa descoberta. Os pesquisadores precisam entender as transformações e como elas afetam o equilíbrio alimentar, a saúde ecológica, a reprodução e a capacidade de fuga dos animais. Eles também pretendem investigar se outras espécies marinhas têm o mesmo “talento”.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

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