Enorme rachadura na África pode formar um novo oceano; entenda

Estudo alerta que o movimento das placas tectônicas está "abrindo" a região de Afar, na Etiópia

15/12/2025
No centro da imagem, é possível ver o Triângulo de Afar, que exibe rachaduras formadas pelo afastamento lento das placas tectônicas. Foto: ESA/ Divulgação

A família de oceanos pode ganhar mais um membro daqui a alguns milhões de anos. Um grupo internacional de cientistas identificou que o calor vindo da Terra está, aos poucos, empurrando as placas tectônicas e esticando o terreno do nordeste da África. Esse fenômeno pode, muito futuramente, resultar em um novo oceano.

O estudo foi publicado na prestigiada revista científica Nature Geoscience e mostra que o fluxo de material quente, conhecido como manto, não é contínuo, mas ocorre em intervalos cíclicos que se assemelham a “batimentos de um coração geológico” — de maneira lenta e contínua.

Foto: marylooo/ Envato

O epicentro dessa transformação ocorre na região de Afar, no nordeste da Etiópia, que está literalmente se abrindo. O local é árido, vulcânico e carrega fissuras que cruzam o chão, funcionando atualmente como um ponto de encontro de três grandes fendas: o Rifte da África Oriental, o Rifte do Mar Vermelho e o Rifte do Golfo de Áden.

Nessa zona, as placas tectônicas — movidas pelo calor interior da Terra — se afastam gradualmente e geram rachaduras cada vez maiores, além das fissuras que se estendem por longas distâncias. Algumas são tão grandes ao ponto de poderem ser observadas em imagens de satélite.

Afar, na Etiópia. Foto: A.Savin, Wikipedia/ Wikimedia Commons/ Reprodução

A comunidade científica já tinha conhecimento que o manto da região vinha pressionando a crosta terrestre e fazendo ela se abrir. Entretanto, o novo estudo jogou uma luz sobre o tema e trouxe detalhes de como esse fenômeno acontece.

Como pode nascer um novo oceano?

A principal causa desse evento é o calor que sobe do interior da Terra, que está criando um “coral de magma”. Essa força geológica empurra a placa tectônica lentamente e vai abrindo o solo aos poucos. Portanto, é exatamente essa “abertura” que pode levar à formação de um novo oceano na região.

O mapa (a) mostra a estrutura fundamental da separação continental na região de Afar. Os mapas (b), (c) e (d) mostram a variação de elementos químicos nas rochas vulcânicas da região. Foto: Emma J. Watts et.al, Nature/ Reprodução

De acordo com a pesquisa, esse fluxo quente sob Afar não é uniforme. O calor se concentra em canais e pulsa em diferentes intensidades. Logo, é esse desnivelamento que contribui para a forma como o solo está se afastando.

 

O estudo ainda informa que o afastamento ocorre em proporções diferentes nessas três grandes fendas de Afar.

  • Rifte do Golfo de Áden: o afastamento ocorre a uma taxa de 15,5 mm por ano;
  • Rifte do Mar Vermelho: o afastamento é de 14,5 mm por ano;
  • Rifte da África Oriental: o afastamento é de 5,2 mm por ano.

Como batimentos cardíacos

Esses movimentos muito lentos funcionam como uma “respiração” da Terra. O calor sobe, o solo se abre e, com o tempo — muitos anos, na verdade — o continente se separa. Inclusive, essa força interna é a mesma que está por trás de vulcões e terremotos na região.

O diagrama (a) mostra as fendas na superfície e como o magma que sobe do manto está sendo “canalizado” por essas rachaduras. O diagrama (b) ilustra a ascensão do manto em Afar (o material quente que sobe). O diagrama (c) mostra cortes profundos (seções transversais) do solo nas duas fendas principais. Foto: Emma J. Watts et.al, Nature/ Reprodução

Em regiões onde as placas se afastam mais rápido, como o Mar Vermelho, essas pulsações viajam de forma mais eficiente e regular, como o sangue passando por uma artéria estreita-afirmou Tom Gernon, coautor do estudo

O nordeste da África abriga vulcões como o Erta Ale, um dos poucos no mundo com lago permanente de lava e registra tremores com frequência. Tudo por conta das forças internas que remodelam a superfície da Terra.

 

Segundo a pesquisa, o grupo analisou mais de 130 amostras de rochas vulcânicas coletadas no nordeste da África para o estudo.

E agora?

Por mais assustador que possa parecer a ideia de surgir um novo oceano, os cientistas fazem uma ressalva: esse processo é natural e extremamente lento. Não existe um prazo exato para que a separação seja completa, mas os especialistas apontam que pode levar dezenas de milhões de anos.

 

Entretanto, acompanhar movimentos como esse ajuda a entender como outros oceanos nasceram há centenas de anos. O Atlântico, por exemplo, surgiu da fragmentação da Pangeia, o supercontinente que começou a se romper há cerca de R$ 150 milhões de anos por conta do mesmo movimento das placas tectônicas.

 

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