Potencial oculto no Pacífico: cientistas descobrem campo hidrotermal gigante
Um achado recente no Oceano Pacífico pode mudar a forma como entendemos o potencial energético do planeta. A cerca de 4.300 metros de profundidade, pesquisadores chineses descobriram um campo hidrotermal colossal próximo à Fossa de Mussau e o nomearam de Kunlun. O local chamou a atenção por liberar grandes quantidades de hidrogênio.
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O que viria a se tornar a primeira parte do estudo foi publicada em agosto na revista Science Advances. Na ocasião, a pesquisa feita por cientistas do Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências (IOCAS) apresentou esse sistema inédito encontrado nas profundezas do Pacífico.


São 20 enormes crateras circulares ou ovais, com até 1,8 km de diâmetro e 130 metros de profundidade, que lembram tubos de kimberlito — formações geológicas de origem vulcânica e fonte primária de diamantes. Nesse caso, porém, o destaque é o hidrogênio resultante e não o minério.
Movidos pela curiosidade por trás dessa formação, os cientistas mergulharam com o Veículo Operado Remotamente (ROV) Fendouzhe novamente para um novo estudo, este publicado em 5 de setembro na mesma revista científica.


A pesquisa revelou altas concentrações de gás hidrogênio em fluidos que jorram dos tubos de Kunlun. O processo que explica esse fenômeno é a serpentinização: quando a água do mar se infiltra em fraturas da crosta terrestre e reage com rochas do manto, formando novos minerais e liberando hidrogênio.
Os cientistas calcularam que o Kunlun corresponde, sozinho, por cerca de 5% do hidrogênio liberado anualmente nos oceanos do mundo. Isso o torna o maior campo hidrotermal desse tipo já identificado no planeta.


Além da dimensão energética, o local também chama atenção pelo ecossistema ativo próximo a ele, apesar da distância da luz. Por lá foram observados camarões, lagostas, anêmonas, peixes e até vermes tubícolas, que se aproveitam das fontes de calor e nutrientes que emergem na região.
A segunda parte da pesquisa também revelou como essas estruturas se formaram. Os cientistas concluíram que bilhões de toneladas de hidrogênio foram produzidos por serpentinização e ficaram aprisionados em fraturas profundas, seladas por lama e carbonato, e que parte desse gás acabou se misturando ao oxigênio da água do mar que circula pelo subsolo.


O resultado é explosivo — e comparável a um barril de pólvora submarino. Quando a pressão se torna grande demais, a mistura de gases explode com uma energia equivalente a bilhões de toneladas de TNT, abrindo crateras gigantes no leito oceânico. Sismômetros instalados na região registraram mais de 800 pequenos tremores em apenas 28 dias, sinais de que o processo segue ativo até hoje.
Os cientistas destacam que o Kunlun amplia o conhecimento sobre os processos geológicos do planeta e pode ajudar a entender o potencial energético e os riscos ligados a reservas naturais de hidrogênio escondidas no fundo do mar.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
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Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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