Quer empreender em turismo náutico? Saiba por onde começar!

As águas do setor são promissoras, mas exigem um bom plano de negócios quando a intenção é aproveitá-las para empreender

24/01/2025
Foto: ADDICTIVE_STOCK / Envato

O mercado de turismo náutico está em franca expansão e tem atraído cada vez mais empreendedores de olho em suas oportunidades. Se você é um dos que sonham em navegar por essas águas promissoras, aqui vamos desbravar os passos essenciais para transformar seu sonho em realidade, desde o planejamento inicial até a regularização da sua embarcação e operação para empreender no turismo náutico.

Não é de hoje que o turismo náutico vem ganhando destaque. Dados comprovam essa tendência: segundo a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (ACOBAR), o setor náutico brasileiro faturou cerca de R$ 2 bilhões em 2022, com expectativa de crescimento para os próximos anos.

Foto: Biletskiy / Envato

A Organização Mundial do Turismo (OMT) também aponta o turismo náutico como um dos segmentos com maior potencial de crescimento no pós-pandemia, impulsionado pela busca por experiências ao ar livre e contato com a natureza.

 

De acordo com o Ministério do Turismo, o Brasil possui mais de 8,5 mil km de costa navegável e 35 mil km de águas interiores — um verdadeiro oceano de oportunidades para quem deseja empreender no setor. Além disso, o crescimento da renda e o aumento do interesse por atividades de lazer aquáticas impulsionam ainda mais a demanda por passeios de barco, aluguel de embarcações e outras experiências náuticas.

Plano de negócios: a bússola do seu sucesso

Antes de zarpar, é fundamental traçar uma rota clara e bem definida. Como qualquer outro negócio, o turismo náutico exige um plano de negócios robusto. Este documento será a sua bússola, guiando suas decisões e garantindo a sustentabilidade do seu empreendimento. Alguns pontos cruciais, são:

Foto: Netfalls / Envato
  • Estudo de demanda: quem é seu público-alvo? Quais são suas expectativas e necessidades? Quantas pessoas estão dispostas a pagar pelo tipo de experiência que você quer oferecer?
  • Planejamento do trajeto e atividades: quais roteiros você vai oferecer? Quais atividades serão disponibilizadas (mergulho, pesca, observação de fauna, etc.)? Defina itinerários atrativos e seguros;
  • Estudo do trajeto de navegação: analise as condições de navegação (correntes, ventos, profundidade), a distância entre os pontos de interesse e o tempo de deslocamento;
  • Capacidade da embarcação vs. demanda: qual o tamanho ideal da embarcação para atender à demanda projetada? Calcule o custo médio por passageiro para determinar a viabilidade econômica do negócio;
  • Análise financeira: projeção de receitas, custos fixos e variáveis, ponto de equilíbrio, fluxo de caixa e retorno sobre o investimento.

Logística: onde ancorar seu sonho

Além do planejamento estratégico, a logística é um fator determinante para o sucesso no turismo náutico. Você precisará definir:

  • Local de embarque e desembarque: onde seus clientes irão embarcar e desembarcar? É necessário ter boa infraestrutura, acesso facilitado e segurança;
  • Local de fundeio: onde a embarcação ficará ancorada durante os passeios? O local deve ser seguro, abrigado de ventos e correntes, e ter profundidade adequada;
  • Local de guarda: onde a embarcação ficará guardada quando não estiver em uso? É importante garantir a segurança contra roubos, vandalismo e intempéries.
Foto: MarinaNov / Envato

Parcerias e autorizações

  • Parcerias com empreendimentos: considere a possibilidade de firmar parcerias com marinas, clubes náuticos, hotéis ou resorts à beira d’água. Isso pode facilitar o acesso à infraestrutura necessária e atrair mais clientes;
  • Píeres públicos: em alguns casos, é possível obter autorizações especiais para utilizar píeres públicos para embarque e desembarque. Consulte a prefeitura local e a Capitania dos Portos para verificar as regras e procedimentos.
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Navegando em águas legais: a regularização da sua embarcação

Para operar legalmente no turismo náutico, sua embarcação precisa estar devidamente registrada na Marinha do Brasil. O documento essencial é o Título de Inscrição de Embarcação (TIE), emitido pelas Capitanias dos Portos, Delegacias e Agências (CP/DL/AG).

Foto: Rawf8 / Envato

Passo a Passo para Obter o TIE

  • Pagamento da GRU: emita e pague a Guia de Recolhimento da União (GRU) referente ao serviço de inscrição da embarcação;
  • Reúna a Documentação: prepare todos os documentos necessários (veja a lista abaixo);
  • Protocolo na CP/DL/AG: dirija-se à CP/DL/AG da sua jurisdição para protocolar o pedido de inscrição e entregar a documentação;
  • Retirada do TIE: após a análise da documentação, retorne à CP/DL/AG para retirar o TIE;
  • Validade do TIE: o TIE tem validade de cinco anos e precisa ser renovado após esse período.

Embarcações dispensadas de inscrição

  • Dispositivos flutuantes sem propulsão, destinados a serem rebocados, com até 10 metros de comprimento;
  • Embarcações a remo com comprimento até 12 metros;
  • Canoas havaianas e “skiffs”;
  • Embarcações miúdas sem propulsão a motor (até 6 metros).

Documentos necessários para registrar a embarcação

  • Requerimento do interessado;
  • Documento de identificação com foto;
  • CPF ou CNPJ;
  • Comprovante de residência;
  • Boletim Simplificado de Atualização de Embarcações (BSADE) preenchido;
  • Prova de propriedade da embarcação (nota fiscal ou outro documento legal);
  • Prova de propriedade do motor (nota fiscal ou outro documento legal);
  • Catálogo, manual ou declaração do fabricante/construtor contendo as características principais da embarcação (comprimento, boca, pontal, calado, contorno, material do casco, fabricante, modelo, nº de série, passageiros, tripulantes, potência, nº do motor, etc.);
  • Apólice de seguro de responsabilidade de danos pessoais causados pela embarcação ou por sua carga (DPEM) – obrigatório;
  • Título de aquisição e comprovante de regularização junto à Receita Federal do Brasil (para embarcações importadas).

Capitão habilitado: segurança em 1º lugar

Além da regularização da embarcação, é fundamental que o condutor seja habilitado. No caso de embarcações utilizadas em turismo náutico, é necessário possuir a habilitação de MAC (Mestre Amador Costeiro) ou MOC (Mestre Amador Oceânico), dependendo da área de navegação. Essas habilitações comprovam que o condutor possui os conhecimentos e habilidades necessários para operar a embarcação com segurança.

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Além disso, é obrigatório que o condutor tenha concluído o curso de ESEP (Estágio de Segurança e Sobrevivência Pessoal). Este curso aborda temas essenciais como prevenção e combate a incêndio, primeiros socorros, sobrevivência no mar e uso de equipamentos de salvatagem, garantindo que o condutor esteja preparado para lidar com situações de emergência.

CNPJ e CADASTUR: profissionalismo e segurança para o turista

Para operar seu negócio de turismo náutico de forma profissional e segura, é essencial possuir um CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) e estar cadastrado no CADASTUR (Cadastro dos Prestadores de Serviços Turísticos) do Ministério do Turismo.

 

O CNPJ formaliza sua empresa, permitindo a emissão de notas fiscais e o cumprimento das obrigações tributárias. Já o CADASTUR é um sistema de cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor do turismo, garantindo ao turista que a empresa segue as normas de segurança e qualidade estabelecidas pelo Ministério do Turismo.


Além disso, o CADASTUR facilita a divulgação do seu negócio e o acesso a linhas de crédito e programas de incentivo ao turismo.

 

Empreender no turismo náutico é uma jornada desafiadora, mas repleta de recompensas. Com planejamento, dedicação e o cumprimento das exigências legais, você estará pronto para navegar em direção ao sucesso.

 

Lembre-se: a chave está em oferecer experiências seguras, de qualidade e inesquecíveis aos seus clientes, contribuindo para o desenvolvimento sustentável do turismo náutico no Brasil. Prepare seu plano de negócios, regularize sua embarcação e bons ventos!

 

Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.