Planejamento, coragem e humildade: veja lições de Amyr Klink

Remador, navegador e acumulador de recordes nas águas compartilhou reflexões de vida em palestra exclusiva ao NÁUTICA Talks

Por: Nicole Leslie -
15/06/2026
Amyr Klink no barco Paratii. Foto: Amyr Klink / Divulgação

Amyr Klink, hoje com 70 anos, já viveu muito o mar principalmente desde os 28, quando cruzou o Oceano Atlântico Sul da África até o Brasil em um barco a remo. A saga, que foi tema do best-seller Cem dias entre Céu e Mar e ganhará as telonas com o filme 100 Dias em outubro, foi apenas um dos tantos feitos de Amyr. Ao NÁUTICA Talks, este que já remou, navegou e aprendeu tanto nas águas, compartilhou ensinamentos de vida em uma palestra exclusiva no Rio Boat Show em 2024.

Confira, nesta reportagem, algumas dessas lições:

Remo: mais que um esporte, um estilo de vida

Foi ainda na infância, quando morava em Paraty, no Rio de Janeiro, que Amyr criou o desejo de navegar. A cidade costuma ter as ruas alagadas, quando é possível se locomover em pequenas canoas pela rua. Foi naquele contexto, indo até padarias de “canoinha”, que o universo náutico começava a cativar Amyr.

Amyr Klink na infância. Foto: Amyr Klink / Divulgação

Anos depois, ele descobriu o remo e começou a praticá-lo. Na palestra, Klink conta que o que mais o atraiu no esporte é o que torna uma equipe vencedora. Diferente de outros esportes, não é o atleta mais forte, nem o mais competente quem vence.

O que faz um barco vencer no remo é o conjunto, o sincronismo, a sinergia, a dedicação, o engajamento, a disciplina e a insistência-detalha.

A importância de traçar um plano e cumpri-lo

Amyr Klink no barco I.A.T., em que cruzou o Atlântico Sul em 100 dias. Foto: Amyr Klink / Divulgação

Eu sei que a gente gosta de se espelhar pelo sucesso, mas, no mar, a gente aprende muito com os fracassos-ensina Amyr.

O escritor explica que o sucesso no mar depende de planejamento rigoroso, disciplina e aprendizado com os erros alheios. Apenas coragem e esperança não bastam para cumprir grandes desafios, pelo que diz. Na primeira grande saga de sua trajetória, a que durou 100 dias, 6 horas e 28 minutos, Amyr conta que o retorno ao Brasil foi um dia “estranho e muito especial”.

Amyr Klink no barco I.A.T.. Foto: Amyr Klink / Divulgação

“Eu estava feliz, mas não porque fui o primeiro que atravessou o Atlântico Sul a remo, entrei no livro mundial dos recordes, realizei o sonho da minha vida, me reinventei, nem porque superei minhas limitações. Eu estava feliz por uma razão absolutamente soberana e sagrada: porque eu tinha um plano e o cumpri. É legal ter um plano e cumprir. Mas foi um dia estranho porque eu estava triste de ter que sair do barco”, diz.

Invernagem na Antártica

Foi movido pela ideia de que com estudo, planejamento bem desenhado e dedicação seria possível completar desafios ainda maiores que Amyr realizou outro enorme feito: passou 642 dias longe do Brasil e, na maioria deles, sozinho. O objetivo? Passar uma invernagem na Antártica.

Amyr Klink na Antártica. Foto: Amyr Klink / Divulgação

O plano era navegar do Brasil até o extremo Sul do planeta e passar sozinho o período em que o mar se congela, esperando as águas descongelarem para voltar. Amyr permaneceu 14 meses preso no gelo e retornou 22 meses depois de partir. Apesar de tanto tempo na saga, ao relembrá-la o navegador comparou os quase dois anos a poucos dias. “Passou como se fosse um fim de semana”, disse.

Barco Paratii. Foto: Instagram @amyrklink / Reprodução

A primeira invernagem solitária de Amyr Klink na Antártica aconteceu a bordo de seu primeiro barco Paratii. Inclusive, após o período na Antártica, foi na mesma saga que Klink realizou um feito raro ao navegar entre latitudes extremas, descendo até 68º Sul e subindo até 82º Norte no Ártico antes de retornar à Praia de Jurumirim, em Paraty.

Barco Paratii. Foto: Amyr Klink / Divulgação

Barco Paratii 2

Depois de altas aventuras a bordo do Paratii, Amyr concebeu uma máquina de exploração mais robusta e inovadora: o Paratii 2. Ele contou, na palestra, que o Paratii 2 foi o primeiro veleiro das Américas construído 100% com estruturas deformadas a frio e também o primeiro monocasco do mundo a não utilizar chumbo ou lastro, baseando sua estabilidade apenas no desenho do casco — um conceito inspirado nas jangadas de piúba do Ceará.

 

O Paratii 2 pesa 120 kg e, embora tenha sido planejado para navegar por 10 anos e 100 mil milhas, Amyr o utilizou por 22 anos, percorreu quase meio milhão de milhas e a embarcação continuava em perfeito estado. Entre os itinerários estavam diversas expedições à Antártica e até mesmo outra invernagem.

Paratii 2. Foto: Instagram @marinabklink via @amyrklink

Apesar do apego ao barco, o navegador contou que uma embarcação daquelas necessitava de mais uso e manutenção do que ele poderia continuar oferecendo. Assim, decidiu se desapegar do barco para que tivesse um bom uso e tratamento. Dessa forma, o Paratii 2 foi vendido, em 2023, para o governo da Suíça.

 

A proposta era que a embarcação fosse utilizada em um programa internacional de pesquisa polar, após ter sido selecionado como um dos “melhores barcos de exploração do mundo” pela equipe suíça, nas palavras de Amyr.

Barco Paratii 2. Foto: Amyr Klink / Divulgação

Tal pai, tal filha

Amyr é pai de três filhas que cresceram o vendo se aventurar, com estudo e naturalidade, pelos oceanos do planeta. Isso inspirou uma das primogênitas, que são gêmeas, a seguir os mesmos passos do pai. Durante a palestra ao NÁUTICA Talks, Amyr relembrou o dia em que negou ela usasse o Paratii 2 para uma aventura solo.

 

Um dia uma das nossas filhas falou:
– Pai, seu barco está pronto para uma volta ao mundo?
– “Está”, respondi.
– Você o emprestaria para outra pessoa?
– “Claro”, falei.
– Você me deixa navegar em solitário?
– “Sim”, disse.
– Então posso pegar seu barco?
Tamara, nunca. Filha, se eu te der o barco pronto na bandeja eu vou perder os dois.
Ali ela entendeu e não ficou chateada. Ela entendeu que, no mar, a gente tem que construir o próprio caminho, não herdar as coisas. Você tem que fazer o seu caminho, não tem como ser esperto ou malandro no mar.

Tamara Klink em expedição solo. Foto: Instagram @tamaraklink / Reprodução

Assim, Tamara Klink partiu a bordo do Sardinha 2 em seu desafio solo incrivelmente parecido com o que o pai já havia feito, mas ao mesmo tempo totalmente diferente. Afinal, ela invernou ao Norte do planeta e ele, ao Sul. Tamara passou oito meses presa no gelo ártico e, segundo o pai, “aprendeu tudo”. A saga dela, inclusive, será tema de uma série na Netflix.

 

“Eu não tenho mais autoridade moral para dizer ‘Volta, minha filha’. A gente fica preocupado, mas eu acho que esse exercício de contaminar a família com as coisas que a gente gosta de fazer é muito gratificante. E é gratificante porque a gente também contamina pessoas distantes do nosso convívio”, declarou Amyr.

Paratii e Paratii 2 lado a lado. Foto: Instagram @amyrklink / Reprodução

Assista à palestra na íntegra

 

 

O que é o NÁUTICA Talks

O NÁUTICA Talks é um circuito de palestras com grandes nomes do meio náutico que acontece principalmente durante os Boat Shows no Brasil. As palestras reúnem desde velejadores experientes e atletas até autoridades técnicas e profissionais da pesca.

O objetivo é compartilhar conhecimentos e experiências aos amantes do mundo náutico.


No último Rio Boat Show, em abril, o NÁUTICA Talks reuniu quase 50 personalidades do universo das águas, com nomes como Aleixo Belov, Theodora Prado, Michelle des Bouillons e Ian Cosenza. Já no mais recente São Paulo Boat Show, em setembro de 2025, o circuito de palestras contou com nomes como Marcio Dottori, Angelita Rumor, Jackson Alves e Kurt Dali.

Amyr Klink palestrou aos visitantes do Rio Boat Show no NÁUTICA Talks em 2024. Foto: Instagram @marinabklink via @amyrklink

 

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