Novo estudo revela que tubarões-azuis podem mudar de cor

21/07/2025

Não bastasse deter uma das colorações mais raras do reino animal, o tubarão-azul (Prionace glauca) ainda consegue mudar sua cor. É o que aponta um estudo da Universidade da Cidade de Hong Kong, que imergiu na curiosa capacidade do animal. A pesquisa foi apresentada em 9 de julho, durante a Conferência Anual da Sociedade de Biologia Experimental, em Antuérpia, na Bélgica.

De acordo com os pesquisadores, o segredo por trás da “mágica” está nas nanoestruturas do animal — mais especificamente, nas cavidades pulpares das escamas. Esses dentículos dérmicos, semelhantes a dentes, revestem toda a pele do tubarão-azul.

 

Por lá, cristais de guanina funcionam como refletores azuis, enquanto vesículas com melanina — os melanossomas — absorvem os demais comprimentos de onda.

Dentículos dérmicos de um tubarão-azul. Foto: Dra. Viktoriia Kamska / Divulgação

Viktoriia Kamska, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório do Professor Mason Dean, na Universidade da Cidade de Hong Kong, explica em comunicado que “esses componentes são agrupados em células separadas, que lembram bolsas cheias de espelhos e bolsas com absorvedores pretos, mas mantidos em estreita associação para que funcionem juntos”.

 

Nesse mecanismo, um pigmento (melanina) colabora com um material estruturado (plaquetas de guanina de espessura e espaçamento específicos) para aumentar a saturação da cor.

Ao combinar esses materiais, você também cria uma poderosa capacidade de produzir e mudar a cor– esclarece o professor Mason Dean

Em busca do segredo do tubarão-azul

Para desvendar o segredo dos tubarões-azuis, os pesquisadores combinaram diversas técnicas avançadas de análise. O estudo começou com a coleta de amostras da pele dos animais e seguiu com dissecções minuciosas, que revelaram a estrutura interna dos dentículos dérmicos — as pequenas escamas em forma de dentes que revestem o corpo do tubarão.

Foto: TravelSync27 / Envato

Em seguida, a equipe utilizou microscopia óptica e eletrônica para observar, em escala nanométrica, a presença de cristais de guanina e melanossomas responsáveis pela produção da cor. Por meio da espectroscopia (método que estuda as interações entre a matéria e a radiação), foram analisadas como essas estruturas interagem com a luz, confirmando que os cristais funcionam como refletores seletivos de cor azul.

É desafiador manipular manualmente estruturas em uma escala tão pequena, então essas simulações são incrivelmente úteis para entender a paleta de cores disponível– destacou Kamska

Para entender melhor o comportamento dessas nanoestruturas, os cientistas também recorreram a simulações computacionais, que permitiram testar diferentes espaçamentos entre os cristais e seus efeitos sobre a cor refletida.

 

Essas simulações mostraram que pequenas alterações estruturais — como as provocadas por variações de pressão ou umidade — podem alterar a tonalidade da pele do tubarão, sugerindo um mecanismo de camuflagem sensível ao ambiente.


Logo, o processo se dá a partir de mudanças nas distâncias relativas entre as camadas de cristais de guanina dentro das cavidades da polpa do dentículo. Por exemplo: espaços mais estreitos entre as camadas resultam em azuis icônicos, mais fortes, enquanto o aumento desse espaço transforma a cor em tons de verde e dourado.

 

Na prática, em águas mais profundas, a pressão forçaria os cristais de guanina, que provavelmente se uniriam e escureceriam a cor do tubarão, para o animal se adaptar melhor ao ambiente.

O próximo passo é ver como esse mecanismo realmente funciona em tubarões que vivem em seu ambiente natural– destaca Kamska

Descoberta para além do reino animal

A descoberta das nanoestruturas responsáveis pela cor azul e pela capacidade de mudança de tonalidade na pele dos tubarões-azuis abre caminho para aplicações inovadoras na engenharia bioinspirada (soluções tecnológicas com base em estruturas, processos e sistemas encontrados na natureza).

 

Essas estruturas podem inspirar o desenvolvimento de materiais inteligentes, capazes de mudar de cor em resposta ao ambiente, sem o uso de pigmentos químicos. Isso pode beneficiar áreas como revestimentos navais sustentáveis, tecnologia têxtil adaptativa e dispositivos de camuflagem.

 

Além disso, como a coloração estrutural não utiliza tintas tóxicas, ela representa uma alternativa mais ecológica para diversas indústrias, contribuindo para a redução da poluição e da toxicidade de materiais, especialmente em ambientes marinhos.

 

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