Levando esperança ao mar: projeto social aproxima jovens de comunidades ao universo náutico
Associação i9Vela esteve no Salvador Boat Show pelo segundo ano consecutivo e realizou clínicas de vela e passeios em veleiro durante o evento


Uma iniciativa que transforma o mar em horizonte de oportunidades marcou presença no Salvador Boat Show pelo segundo ano consecutivo. A Associação i9Vela, fundada por Juan Sobral, levou às águas da Baía de Todos-os-Santos uma amostra do trabalho que já alcançou 1.033 crianças e adolescentes de comunidades soteropolitanas. Durante o evento, o projeto promoveu clínicas de vela e passeios em veleiro, aproximando novos públicos do universo náutico.
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Mais do que divulgar a iniciativa sem fins lucrativos, a presença da i9Vela teve um propósito ainda mais simbólico: abrir as janelas — ou velas — da inclusão. No último dia do salão, filhos de colaboradores da infraestrutura do evento — como equipes de montagem, apoio e serviços gerais — puderam embarcar em um veleiro e sentir, pela primeira vez, a experiência de navegar.


A proposta de desmistificar a vela e conectar a comunidade ao mar conversa com o espírito do próprio Boat Show, que busca tornar o mundo náutico mais acessível e próximo a diferentes públicos. Nessa mesma linha, o premiado Veleiro Marujo’s também ficou atracado na Bahia Marina, oferecendo passeios gratuitos aos visitantes durante todos os dias do evento.
A vela como porta de entrada
Em entrevista à NÁUTICA, Juan Sobral contou que seu primeiro contato com a vela, ainda jovem, foi o ponto de partida o sonho de democratizar o acesso ao mar para quem vive longe dele.


Foram mais de 15 anos amadurecendo a ideia até, há cerca de quatro, criar oficialmente a i9Vela. A associação une ensino teórico e prático, sempre voltada à formação de jovens e crianças em situação de vulnerabilidade, que vivem em comunidades em Salvador.
Hoje com uma frota de 14 barcos, o projeto segue firme na missão de transformar a relação da cidade com o mar. Um dos frutos dessa jornada é João Santos, aluno desde o início do projeto.
É gratificante velejar. Logo que conheci a vela me identifiquei e passei três anos no projeto sem faltar um dia de aula. É um projeto útil e que precisa continuar-contou o jovem


A Odisseia: quando o mar visita a comunidade
Entre as ações mais inspiradoras da i9Vela está a Odisseia, uma atividade que leva o universo náutico a quem nunca o viveu. Uma vez por mês, a equipe da associação leva um veleiro para dentro de alguma comunidade de Salvador, transformando ruas e praças em salas de aula teórica sobre a náutica.
No sábado, as crianças têm aulas teóricas sobre marés, vento e o funcionamento de um veleiro. No domingo, colocam tudo em prática, repetindo na água o que aprenderam em terra firme-explicou Juan
Para muitos jovens, essa vivência é o primeiro contato com o universo náutico e, não à toa, permite despertar novos sonhos. Foi através da Odisseia que boa parte das 1.033 crianças conheceram o projeto. Para participar, basta morar em uma comunidade de Salvador e estar matriculado em escola pública.


A i9Vela já passou por 23 comunidades, sempre apoiada por trabalhos voluntários — inclusive de jovens formados pelo próprio projeto. Além das clínicas de vela, a associação oferece oficinas de manutenção de barcos e cursos profissionalizantes, abrindo novas possibilidades de futuro para quem, até então, via o mar sempre distante.
Mais do que ensinar a velejar, levamos o mar até a criança e a esperança ao mar-concluiu Juan


Mais sobre o Salvador Boat Show
Após uma estreia de sucesso em 2024, o Salvador Boat Show retornou consolidado como o maior salão náutico da Bahia. O evento aconteceu na icônica Baía de Todos-os-Santos, cercada pela cultura inconfundível de Salvador e com toda a comodidade da Bahia Marina.


O salão náutico ofereceu experiências desde test-drives de embarcações até atrações culturais. O evento movimentou o coração náutico do Nordeste reunindo público qualificado, novidades e oportunidades de negócios para o setor.
O Salvador Boat Show 2025 teve o Ministério do Turismo/Governo Federal como patrocinador do Turismo Náutico e patrocínio da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Especial do Mar (SEMAR) e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda (SEMDEC).
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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