Homem que sobreviveu a naufrágio em 1871 embarcou no Titanic 40 anos depois do trauma

Uruguaio Ramon Artagaveytia apostou nas tecnologias avançadas da icônica embarcação para superar o medo de navegar

18/03/2025
Ramon Artagaveytia. Foto: Enciclopédia Titanica / Reprodução

As histórias de destino não costumam ser trágicas. Na verdade, elas geralmente vem acompanhadas de finais felizes, principalmente no âmbito romântico. Não foi o que aconteceu com o uruguaio Ramon Artagaveytia que, como em uma ironia do destino, vivenciou o mesmo trauma duas vezes — na segunda, de forma fatal.

Sua história daria um filme, daqueles bem dramáticos, em que os acontecimentos são revelados através de cartas perdidas no tempo.

 

Nesta trama, o uruguaio, figura principal do enredo, ganha um trauma que parecia ser eterno, quando o navio em que ele navegava naufraga, resultando na morte de mais de 100 pessoas — incluindo seus amigos.

Titanic em 1912. Foto: Wikimedia Commons/ Reprodução

Cerca de 40 anos depois, quando o trauma parecia superado, ele resolve enfrentar seus medos e navegar mais uma vez. A embarcação que protagoniza essa retomada foi escolhida a dedo por ele mesmo, que levou em conta suas avançadas tecnologias de segurança para se manter a salvo caso algo acontecesse. Tratava-se, contudo, do Titanic.

 

O caso viralizou nas redes sociais recentemente através de um vídeo sobre a história do uruguaio. Confira:

 

 

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Ramon Artagaveytia e as ironias do destino

Ramon Artagaveytia nasceu em Montevidéu, na capital do Uruguai, em 1840. Durante muitos anos ele atuou como gerente da fazenda de sua família, localizada na Argentina. No mais, vivia um estilo de vida “pacífico”.

 

Artagaveytia já tinha 31 anos quando passou por um grande trauma nas águas. Era véspera do Natal de 1871 quando o barco em que ele estava, o navio a vapor America, naufragou.


O acidente aconteceu em meio a uma corrida contra outro navio no porto de Montevidéu. Acredita-se que o excesso de pressão nas caldeiras resultou em um incêndio fatal, que afundou rapidamente a embarcação. Dos 164 passageiros, apenas 65 sobreviveram, sendo que muitos ficaram gravemente feridos.

Titanic no fundo do mar, revelado por imagens em 3D. Foto: Atlantic Productions / Magellan / Divulgação

O uruguaio se safou pulando na água antes de ser atingido pelas chamas. Em seguida, foi resgatado. O acontecimento, porém, lhe deixou cicatrizes emocionais bastante profundas, principalmente por perder tantos colegas.

 

Em cartas acessadas pelo Oceanliner Designs & Illustration, o homem relatou que os pesadelos com o acidente o atormentavam constantemente. “Mesmo nas viagens mais tranquilas, acordo no meio da noite com pesadelos terríveis e sempre ouvindo a mesma palavra fatídica: Fogo! Fogo! Fogo”, escreveu ele.

Titanic no fundo do mar, revelado por imagens em 3D. Foto: Atlantic Productions / Magellan / Divulgação

Foi somente em 1912, 41 anos depois do naufrágio do América, que Artagaveytia decidiu enfrentar seus medos novamente e viajar, de navio, para visitar a família. O barco escolhido? O Titanic.

 

“Quando o América afundou, bem em frente a Montevidéu, ninguém respondeu às luzes pedindo ajuda. Os que nos viram do navio Villa del Salto, não responderam aos nossos sinais luminosos. Agora, com um telefone a bordo, isso não acontecerá novamente. Podemos nos comunicar instantaneamente com o mundo inteiro”, registrou o uruguaio, em uma carta, sobre a segurança da embarcação.

Titanic no fundo do mar, revelado por imagens em 3D. Foto: Atlantic Productions / Magellan / Divulgação

Quando rumores de problemas no Titanic começaram a se espalhar, Artagaveytia e seus colegas foram vistos no convés próximos aos barcos de emergência por Elmer Taylor, passageiro da primeira classe. Taylor descreveu, também em carta, que o uruguaio e um companheiro aparentavam estar “mais mortos do que vivos” na ocasião.

 

Uma semana depois do naufrágio, o corpo de Ramon Artagaveytia foi recuperado pelo navio Mackay-Bennett e levado a Montevidéu para o sepultamento.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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