Apaixonado pelo mar, carioca adapta barco por conta própria para garantir acessibilidade

Marcio tem distrofia muscular de Becker e dribla dificuldades para não abandonar o prazer de navegar

09/06/2024
Foto: Arquivo Pessoal

A bordo de um veleiro classe Pinguim, o empresário Marcio Correa da Veiga, 68, começou a contar as primeiras milhas no mar ainda na infância. Quando uma distrofia muscular de Becker entrou no caminho, Marcio precisou ajustar o leme rumo a uma quebra de barreiras.

A paixão de Márcio pelas águas nunca foi embora. Pelo contrário, ganhou mais personagens e passou a ser compartilhada também com a esposa, Ana Cristina, 62.

 

Carregando no DNA as típicas características de um verdadeiro casal carioca, Ana (que é economista) e Marcio sempre se encantaram com a vista do mar, a areia nos pés e o sol na pele. Assim, em 1995, essa paixão ficou quase que palpável com a compra de uma casa em Angra dos Reis (RJ) e, claro, do primeiro barco: uma Intermarine Oceanic 32.

Intermarine Oceanic 32. Foto: Arquivo Pessoal

Dois anos depois, a primeira embarcação deu lugar a uma Ferretti 40 que, em 2001, foi substituída por uma Intermarine 500 Full. Isso até a chegada dela: a Regal 4160 Commodore, lancha que, desde 2006, acompanha o casal pelas águas de Jurubaíba, Ilha Grande, Ilha do Sandra, Piraquara e tantos outros mares que fazem o coração da dupla vibrar.

Regal 4160 Commodore. Foto: Arquivo Pessoal

Casados há 40 anos, é assim que o casal tem aproveitado os momentos livres nos últimos 30 anos: com vento soprando no rosto, ditando o norte e trazendo para perto a brisa do mar do Rio de Janeiro.

Foto: Arquivo Pessoal

Nenhum obstáculo tirou dos dois o prazer de estar a bordo e, o tradicional “navegar é preciso”, de Fernando Pessoa, foi justamente o que manteve Marcio sobre as águas, mesmo quando uma distrofia muscular de Becker começou a dar os primeiros sinais.

A minha vida é de constante adaptação. À medida que a doença vai me impossibilitando de fazer algumas coisas, eu vou tentando ter equipamentos de acessibilidade que me permitam levar uma vida o mais próximo do normal– conta Marcio

Perda de força impôs mudanças

Condição genética que causa a degeneração progressiva de músculos presentes nos braços, pernas, quadril e nos ombros, a distrofia muscular de Becker geralmente acomete mais homens e surge na infância ou na adolescência, começando com uma perda leve da força dos músculos, que aumenta com o tempo.

Foto: Arquivo Pessoal

No caso de Marcio, apesar de a doença acompanhá-lo desde o nascimento, a condição começou a dar os primeiros sinais em 1985, quando ele tinha 29 anos. “Sendo uma doença degenerativa e progressiva, em 1995, quando compramos o primeiro barco, não houve necessidade de adaptação”, conta Ana.


Em 2018, contudo, as primeiras adaptações começaram a acontecer. Primeiro, na casa, principalmente em ambientes em que o acesso de um cômodo ao outro se dava por meio de escadas. Ana conta que, nesse período, “Marcio estava com um grau avançado de dificuldade”.

 

Não demorou para que a doença começasse a dificultar o acesso à tão amada Regal. Ana explica que “as variações de maré colocam o barco muitas vezes bem abaixo do deque, o que dificulta e até impede o acesso, mesmo com auxílio da ponte, já que essa fica bastante íngreme”.

Marcio precisava fazer uma adaptação para entrar e sair do barco. Caso contrário, teríamos que nos desfazer de algo que nos dá muito prazer– conta Ana

Foto: Arquivo Pessoal

Solução na adaptação

Ao buscar soluções para a nova realidade, o cenário não foi animador. De acordo com Ana, “o mercado brasileiro de equipamentos para acessibilidade ainda engatinha, e para barcos é inexistente”. Outro entrave foram os custos envolvidos. “Os equipamentos oferecidos pela indústria náutica nacional são, em maioria, importados e vendidos a preços exorbitantes”, relata a economista.

Esse ano cogitamos vender tudo, porque estava muito difícil para o Marcio acessar o barco– conta Ana

Uma cadeira elevadora — comumente utilizada em escadas –, vista como melhor opção para o caso de Marcio, custa em torno de R$ 25 mil (valor sem o preço de instalação) e costuma ser importada. Ana conta que o casal buscou o representante no Brasil de uma marca importada que fabrica o produto. Porém, a negociação não seguiu adiante porque “o representante nunca instalou uma dessas em barcos”.

Foto: Arquivo Pessoal

A solução, então, foi adaptar. Depois de muito pesquisar e estudar, Marcio comprou uma cadeira elevatória de escadas residencial usada, fabricada nos Estados Unidos. Com a ajuda de um eletricista náutico parceiro, o empresário fez as mudanças necessárias para a instalação do equipamento no barco.

 

A cadeira adaptada leva o carioca do deque ao barco e vice-versa — “com segurança, conforto e dignidade”, conforme explica Ana, que complementa: “não foi algo comprado pronto, trazido de fora e instalado. Ele adaptou.” Para a economista, o “mundo ideal” seria “entrar na web, escolher, comprar, mandar instalar e ter garantia de funcionamento”.

 

A ideia deu certo, mas não custou pouco. A cadeira saiu por R$ 9 mil, e mais R$ 10 mil foram necessários para instalar o equipamento na embarcação. Confira abaixo o equipamento em ação.

 

 

Criamos muitas memórias maravilhosas no mar com nossos filhos. Agora, com eles adultos, estamos curtindo muito também! Essa acessibilidade ao barco permitiu não ceifarmos algo que amamos tanto da nossa vida– ressalta Ana

O casal tem três filhos: Mariana, 36, Bernardo, 34, e Felipe, o caçula de 27 anos que “quase nasceu a bordo”.

Foto: Arquivo Pessoal

Longo caminho em busca da liberdade

Na busca por acessibilidade e à liberdade de Marcio em usufruir de seu barco, Ana enxerga melhorias. Para ela, com o avanço tecnológico, leis e conscientização, estão sendo produzidos mais plataformas elevatórias, cadeiras elétricas acopladas a escadas, scooters e outros equipamentos para pessoas com necessidades especiais. Ainda assim, há uma grande defasagem em solo nacional, deixando-os inacessíveis, financeiramente falando.

 

A economista relata que, quem vê a adaptação feita na Regal, não deixa de comentar com o casal a triste experiência de ter que deixar alguém querido de fora dos passeios de barco, por não existir acesso adequado.

Adaptação não é apenas para pessoas com necessidades especiais, também engloba idosos, principalmente em um mundo que está ficando mais longevo– ressalta Ana

Foto: Arquivo Pessoal

Procuro sempre superar as minhas dificuldades e seguir vivendo!– ressalta Marcio

Agora, para Ana, o sentimento que fica é o de esperança para que “o mercado náutico abra os olhos para esse segmento”.

 

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