Ictiossauro Fiona: o fóssil grávido de 131 milhões de anos que resistiu ao tempo

Com dois filhotes no ventre e sinais de uma última refeição, fóssil é peça-chave para entender a vida marinha e os eventos geológicos do Cretáceo

22/07/2025
Fóssil de ictiossauro de 131 milhões de anos no campo glacial chileno, onde foi descoberto, com a paleontóloga Judith Pardo-Pérez, em 2022. Foto: Alejandra Zúñiga / Divulgação

Há 131 milhões de anos, um animal semelhante a um golfinho navegava pelas águas do que hoje é o Parque Nacional Torres del Paine, no Chile, quando foi atingido por um deslizamento de terra subaquático e morreu. Trata-se de Fiona, um ictiossauro que teve seus ossos encontrados há 16 anos. Além de indicar que a fêmea estava prenhe, o fóssil revela aspectos das mudanças geológicas da Terra naquela época em um novo estudo.

O fóssil de ictiossauro foi encontrado por Judith Pardo-Pérez, paleontóloga da Universidade de Magallanes, no Chile, em 2009. No ano seguinte, ao retornar ao local, a pesquisadora teve a surpresa: os ossos aparentes — fruto do derretimento das geleiras da região da Patagônia, que vem aumentando nos últimos anos — indicavam a presença de um feto de 15 centímetros de comprimento.

 

O processo para o estudo do ictiossauro seguiu por anos, até que, em 2022, o fóssil de 3,3 metros de comprimento foi transportado de avião em cinco pedaços, cada um pesando cerca de 180 kg, para o Museu de História Natural Río Seco, em Punta Arenas, no Chile.

Uma pesquisadora estuda Fiona no Museu de História Natural do Rio Seco. Foto: Irene Viscor / Divulgação

A partir daí, o animal foi identificado como Myobradypterygius hauthali. A análise foi publicada em fevereiro deste ano na revista Journal of Vertebrate Paleontology. Após a publicação do artigo, uma tomografia computadorizada das partes do fóssil que ainda estão envoltas em rocha revelou outro feto completo preservado dentro de Fiona.

Revelando a história

O ictiossauro recebeu o apelido da famosa ogra do filme “Shrek” pela cor esverdeada que os ossos ficaram como reação à cola usada para protegê-los. Mas depois voltaram à coloração natural. Fiona é a única ictiossauro prenhe totalmente preservada e escavada do Chile, e a primeira nessa condição conhecida do Hauteriviano, um período do Cretáceo Inferior.

Ilustração representa possível aparência de ictiossauros. Foto: Heinrich Harder / Wikimedia Commons / Reprodução

Sua gravidez trouxe à tona uma curiosidade: embora alguns ictiossauros dessem à luz com a cabeça do filhote saindo primeiro, o posicionamento do primeiro feto de Fiona sugere que ele teria saído do canal de parto com a cauda, como os golfinhos e baleias modernos.

 

Os restos mortais também permitiram identificar o que teria sido sua última refeição, porque os pesquisadores encontraram pequenas vértebras de peixe na caixa torácica de Fiona. Além disso, os estudiosos observaram sinais de uma lesão cicatrizada em sua barbatana e ossos fundidos — que podem ter sido resultado de uma infecção.

Razão da morte de Fiona remete a mudanças geológicas da Terra

As rochas ao redor do fóssil de Fiona ajudam a contar a história de sua morte. Durante o Cretáceo Inferior, a Terra passava por rápidas transformações geológicas.

 

Segundo o geólogo sedimentar Matt Malkowski, da Universidade do Texas, em Austin (EUA), a separação da América do Sul do supercontinente Gondwana deu origem à bacia oceânica de Roca Verdes, no atual sul do Chile, em um processo que provocou intensa atividade geológica, com terremotos, vulcões e deslizamentos submarinos.

 

Os pesquisadores acreditam que um desses deslizamentos subaquáticos tenha lançado o ictiossauro para o fundo de um cânion e o soterrado rapidamente — daí a boa conservação de seus restos mortais.


Seu focinho teria ficado enterrado em cerca de dez centímetros de areia, o que indica que o corpo foi coberto por sedimentos quase imediatamente após a queda. “Esses deslizamentos provavelmente aprisionaram os ictiossauros e os empurraram para o fundo, onde foram cobertos”, explicou Judith Pardo-Pérez ao New York Times.

 

No mesmo campo glacial onde Fiona foi encontrada, cientistas identificaram outros 87 ictiossauros fossilizados. No entanto, os indícios sugerem que eles não morreram ao mesmo tempo, mas em múltiplos deslizamentos de terra ao longo dos anos.

 

Para esclarecer o que aconteceu, a equipe realiza atualmente análises geoquímicas que buscam reconstruir o ambiente daquela antiga bacia oceânica. “Estamos tentando entender se tratou de um único evento ou de vários, e quais fatores os desencadearam”, afirma Malkowski.

 

Outro fato curioso é que os cientistas descobriram na área neonatos e recém-nascidos, o que indica que o local pode ter funcionado como um berçário natural de ictiossauros. Pardo-Pérez acredita que novas expedições podem revelar mais fêmeas grávidas e reforçar essa hipótese.

 

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