Da Antártica ao Brasil: navio Bandero, da operação internacional Krill Wars, pode ser visitado em Ilhabela
Embarcação da Captain Paul Watson Foundation esteve envolvida em ações diretas para interromper a pesca industrial de krill. Visitas são gratuitas


O krill, um pequeno crustáceo considerado a base de toda a cadeia alimentar do oceano Antártico, pode estar em risco. Isso porque sua retirada em larga escala vem comprometendo diretamente o equilíbrio do ecossistema marinho. O navio Bandero, símbolo da operação internacional Krill Wars, atua justamente contra esse movimento — e agora pode ser visitado em Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo.
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A embarcação, da Captain Paul Watson Foundation — uma organização não governamental independente, sem fins lucrativos, cujo objetivo é apoiar, intervir, educar e conscientizar sobre a conservação dos oceanos, inspirada pelos esforços do capitão canadense Paul Watson contra a pesca ilegal e a degradação dos ambientes marinhos —, esteve envolvida recentemente em ações diretas para interromper a pesca industrial de krill na Antártica.


Em comunicado, a Sea Shepherd Brasil, também organização de conservação marinha sem fins lucrativos, fundada pelo próprio Paul Watson em 1999, destacou que, durante a operação, a tripulação do Bandero “atuou para interromper atividades de grandes embarcações pesqueiras”, em um cenário descrito como um “confronto desigual entre uma pequena embarcação de conservação e uma indústria multibilionária”.


Na prática, o krill, alvo dessas operações, é a base alimentar de baleias, pinguins, focas e diversas outras espécies. Logo, sua retirada em larga escala compromete diretamente o equilíbrio do ecossistema marinho, provocando impactos em toda a cadeia alimentar — justamente o que a operação Krill Wars tenta impedir.
Bandero no Brasil: a conexão do que acontece na Antártica e no litoral brasileiro
A presença do Bandero no país levanta um debate sobre como o que acontece no continente gelado pode alcançar o litoral brasileiro. Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil, destacou que “muitas das baleias que vemos no Brasil percorrem milhares de quilômetros todos os anos após se alimentarem de krill nas águas frias da Antártica”.


Segundo ela, esse pequeno organismo sustenta diretamente essas gigantes do oceano, que chegam ao litoral brasileiro — inclusive em Ilhabela — para se reproduzir e dar continuidade à espécie.
Proteger o krill, portanto, não é apenas preservar um elo da cadeia alimentar, mas garantir a recuperação e sobrevivência dessas baleias e o equilíbrio de todo o ecossistema marinho– explicou Nathalie Gil
Alguns reflexos da retirada em larga escala do krill, inclusive, já puderam ser observados em Ilhabela, de acordo com pesquisas realizadas no arquipélago pela especialista Mia Morete, bióloga e fundadora do VIVA Instituto Verde Azul.
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Segundo suas análises, a maioria das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) avistadas na região são indivíduos juvenis com condição corporal abaixo do esperado, o que pode estar relacionado à menor disponibilidade de alimento nas regiões antárticas de onde migram.
Estamos observando em Ilhabela casos de baleias juvenis mais magras e aparentemente debilitadas– ressaltou Mia
Em 2025, pela primeira vez na história, a frota industrial de pesca de krill encerrou a temporada antes do prazo, batendo a cota anual de 620 mil toneladas de forma prematura — cenário diretamente influenciado pelo vencimento, em 2024, de uma medida de conservação essencial, que distribuía espacialmente as capturas ao longo da temporada.


Ainda assim, a Noruega, por meio da Aker BioMarine – empresa responsável por 64% das 620 mil toneladas métricas de krill extraídas do Oceano Antártico em 2025 – apresentou à CCAMLR (Convenção para Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos) uma proposta para quase dobrar o limite anual de captura, elevando-o para 1,2 milhão de toneladas.
Apesar disso, a comissão encerrou suas negociações sem acordo para melhorar a gestão da pesca nem para criar uma nova área marinha protegida na Península Antártica, mesmo com apoio de mais de 150 estudos científicos.
Nas últimas décadas, a população de krill caiu drasticamente — até 90% em algumas áreas do Oceano Antártico — devido à pesca intensiva e às mudanças climáticas. O cenário levanta preocupações sobre a oferta de alimento e possíveis impactos na recuperação das baleias, com reflexos já observados no litoral brasileiro após o fim da caça comercial.
A pesca de krill é uma bomba-relógio ecológica. Nada justifica explorar uma espécie da qual depende todo um ecossistema. Proteger o krill é proteger baleias, pinguins e a vida no oceano como um todo– Lamya, presidente da Sea Shepherd França e líder da ação
A visitação ao navio Bandero
A visitação ao navio Bandero busca aproximar o público dos impactos da pressão sobre a vida marinha em regiões remotas, mostrando como esses efeitos se propagam pelo oceano e atingem espécies também presentes no Brasil. A experiência também destaca a atuação da Sea Shepherd Brasil, com ações contra a exploração de tubarões vendidos como “cação”, combate ao lixo marinho pela campanha Ondas Limpas e proteção da fauna aquática na Amazônia.
Aberto ao público em Ilhabela e em São Sebastião, o navio recebe desde estudantes até visitantes em geral, oferecendo acesso a áreas da embarcação e informações sobre a pesca de krill, suas consequências para as baleias e o funcionamento das operações no mar.
As visitas, gratuitas, vão até 3 de maio (próximo domingo), com seis visitações por dia, das 9h às 16h, e devem ser agendadas previamente pela plataforma Sympla.
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