Arte em alto-mar: francês transforma catamarã em ateliê flutuante durante travessia de 25 dias
Xavier Veilhan, artista contemporâneo, partiu da costa francesa até o Brasil para expor esculturas produzidas a bordo


Sair da França e navegar num veleiro-catamarã de 60 pés até o Brasil já é uma aventura e tanto. Agora, realizar toda essa travessia em 25 dias e transformar uma embarcação em um ateliê flutuante é algo que só um artista fora da caixa pensaria. Esse é o projeto do francês Xavier Veilhan, 62 anos, que depois de desbravar os mares por quase um mês, desembarca em São Paulo com todas as suas esculturas feitas a bordo.
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Essa ideia ousada estará materializada na galeria de arte Nara Roesler São Paulo, com abertura marcada para o dia 8 de novembro, às 11h. A exposição, batizada de “Xavier Veilhan – Do Vento”, levará todo o ativismo ambiental e os ecos da jornada em alto-mar do artista e sua equipe.


Em São Paulo, Xavier Veilhan irá mesclar as obras produzidas durante a travessia transatlântica com partes de embuia (Ocotea porosa), madeira nativa de Florestas de Araucárias, ecossistema típico dos estados do Sul do Brasil, principalmente Paraná e Santa Catarina.
“Do Vento” incluirá ainda um vídeo realizado pelo artista durante a travessia transatlântica, “O Filme Fantástico” (“Le FilmFantastique”, 2025), gravado a bordo do Transatlantic Studio — nome dado ao barco nessa viagem — numa jornada sensorial que promete entregar comédia e horror.
“E se a gente fosse de barco?”
Comprometido com a defesa do meio ambiente, Veilhan tem empregado processos que minimizam os impactos ambientais em sua produção de materiais. Porém, dessa vez, ele decidiu expandir essa ideia para um outro nível, ao reduzir a emissão de poluente no transporte internacional de suas obras e levar seu ateliê para um veleiro-catamarã, movido pela energia dos ventos.


Em entrevista à NÁUTICA, Xavier, diretamente da Oficina São João — onde fazia os últimos ajustes de suas obras — , explicou como essa ideia saiu do papel. A partir de diferentes discussões com sua equipe — entre elas, as dificuldades de viajar para longe e realizar uma exposição de arte –, surgiu a proposta de iniciar uma jornada sem nenhum avião.
Entretanto, a ideia de usar uma embarcação como alternativa não veio de primeira. No começo, ele conta que foi difícil pensar em outro meio de transporte. Mas papo vai e papo vem, o artista optou pela opção mais ecológica. “Decidimos, contra lógica, tentar chegar em São Paulo por mar”, disse.


Antes de chegar a essa conclusão, Veilhan já se questionava sobre a dificuldade de enviar uma peça de arte de um país para outro, ou se era difícil construí-la no local, visto que parte do trabalho dele era bem grande. “Às vezes é economicamente viável, as vezes não é”, explica.
Além disso, as constantes viagens para as exposições de arte contemporânea traziam outro questionamento para Xavier: a repetição de rotina. Os mesmos rostos, os mesmos espaços e formatos que se repetem em diversas partes do mundo. “Você pode se perguntar, depois de algum tempo, se é realmente lógico fazer isso”, questiona.
É uma grande questão em relação a todos os hábitos que temos, a maneira como estamos viajando– indaga Veilhan


Segundo o artista, essa dualidade inspirou seu novo projeto. A proposta não traz uma resposta definitiva, mas se apresenta como uma provocação, um exercício de imaginação: “E se, em vez de pegar um avião para a próxima exposição do outro lado do mundo, um artista decidisse ir de barco?”, indagou a ele mesmo.
É um projeto um pouco maluco, porque envolve muitas habilidades e apenas experimentar como é fazer a exposição sem nenhum avião envolvido– pontuou
Um artista em alto-mar
O universo náutico sempre esteve presente na vida de Veilhan. Desde criança, o futuro artista gostava muito de veículos pequenos e tinha no seu pai um construtor de barcos, daqueles bem simples, nada extraordinário. Era com esses barquinhos que sua família passeava, pescava e realizava pequenas viagens no litoral francês durante as férias.


Portanto, é uma relação diferente com um objeto quando você o usa, é como se você construísse sua própria bicicleta ou seu próprio carro– conta
Inclusive, este instinto construtor nascido na infância o acompanhou nessa travessia França-Brasil. A bordo, ele e sua equipe construíram uma serra de fita comum (ferramenta usada para cortar madeira ou outros materiais) e a transformou em um equipamento movido por pedal, semelhante a uma bicicleta.
Foi graças a recursos como esse que Xavier e seu time completaram com êxito a longa travessia. Partindo de Concarneau, na Bretanha, no dia 5 de outubro e chegando no Porto de Santos no dia 30 do mesmo mês, o longo trajeto foi desafiador, como descreve o artesão.


A campanha a bordo do catamarã We Explore — modelo Outremer 5X, sustentável, construído com 50% fibra de linho — teve como companhia figuras como Roland Jourdain, bicampeão da regata transatlântica Routedu Rhum, no posto de capitão, além de Denis Juhel como vice-assistente.
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Também acompanhado por Antonie Veilhan, seu filho e especializado em marcenaria, e Carmen Panfiloff, assistente de escultura e marcenaria, o artista enfrentou dificuldades óbvias para quem tenta produzir algo numa plataforma flutuante, como o enjoo e a falta de estabilidade.
Um catamarã é plano na água, mas a água em si não é plana– explicou


O fato de tudo estar sendo feito a bordo fez com que com a equipe se antecipasse e trouxesse quase meia tonelada de compensado de madeira para a embarcação. “Você não apenas produz uma exposição — que já é algo complicado em terra — mas também tem que imaginar as diferentes condições, o vento, o movimento do barco e a combinação”, revelou à NÁUTICA.
Ele conta que, enquanto trabalhava no filme, cada vez que ele assistia às filmagens se sentia “completamente enjoado”.
Meu filme estava em movimento e tudo estava em movimento. [Foi um] pesadelo, de fato. Não é fácil. Mas não reclamo, porque eu estava procurando por esta situação– relembrou


A expedição, além de artística, também terá um cunho científico. Esteve a bordo Matthias Colin, oceanógrafo, que coletou amostras de plâncton e monitorou o hidrofone, instrumento que permite a gravação de sons subaquáticos. Os dados recolhidos foram enviados via satélite para alimentar bases de dados científicas.
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“Este é definitivamente uma forte conquista que fiz: entrar no barco por 25 dias para descer com a peça. É uma espécie de projeto mais antigo que eu gosto, que transformei não apenas em uma ideia, mas em uma situação real”, conta orgulhoso do resultado.
25 dias vivendo da arte
Dos 25 dias de aventura, 20 eles não viram nada além de água, sem terra alguma. Apesar de todo esse tempo, Veilhan sentiu que a viagem, liderada por Roland Jourdain, foi bem rápida e no tempo programado — principalmente para uma travessia que teve problemas técnicos e condições climáticas difíceis.


Percebi que tudo estava planejado pelo capitão, e ele simplesmente não podia nos dizer, porque você nunca tem certeza no mar– lembrou
Segundo o artesão, o capitão escolheu as opções de trajeto que eram mais confortáveis para a tripulação, numa rota diagonal — do norte da França até a América do Sul. Inclusive, ele conta que a última terra avistada antes de atracar no Brasil foi ao passar nas imediações do Saara Ocidental. Fora isso, apenas mar aberto.
Por 20 dias não vimos terra nenhuma. O que faz você se sentir mais como um explorador do que um viajante
O que esperar da exposição em São Paulo?
A ideia de Xavier Veilhan é que a exposição na Nara Roesler São Paulo seja a primeira de um novo modelo de criação e transporte de obras pensado pelo artista, incorporando a sustentabilidade e o processo criativo de uma maneira mais enfática a sua poética.


Faz parte do trabalho como artista fazer seu sonho se tornar realidade. É um pouco clichê ao mesmo tempo, mas é verdade-declarou à NÁUTICA
“Trata-se do que chamamos, que é tudo o que é vivo. É sobre animais que estão perto de nós. É sobre uma tentativa de capturar a realidade deles em diferentes níveis de compreensão, porque quando você os vê, eles são uma combinação de diferentes maneiras de construir algo”, explicou sobre o que representa as esculturas que estarão em exposição.


De acordo com ele, quatro tipos de peças serão expostas na galeria Nara Roesler São Paulo: esculturas, pinturas em tela e parede e, por fim, o filme. Dessa forma, pretende-se, por meio de futuras parcerias dentro e fora da França, expandir esse formato, trazendo para ele novos arranjos, materiais e debates.
É uma maneira de representar um certo caótico. É muito forte, mas uma certa combinação de estados de realidade ao nosso redor– finalizou
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