Donzela-real: peixe invasor chega ao litoral paulista e ameaça espécies nativas

Espécie costuma formar grandes cardumes e tem como característica sua agressividade territorial

13/02/2026
Donzelas-reais encontradas no litoral de São Paulo. Foto: Instagram @familiamergulho e @terradagente / Reprodução

Um peixe nativo do Indo-Pacífico, a um oceano de distância, já está se reproduzindo e se adaptando ao litoral paulista, o que soa como um alerta para o ecossistema marinho. Trata-se da donzela-real (Neopomacentrus cyanomos), espécie invasora que vive em corais e é conhecida pela sua agressividade territorial e formação de grandes cardumes.

O animal não é exatamente uma novidade para os cientistas, já que foi descrito pela primeira vez ainda em 1865 pelo especialista holandês Pieter Bleeker. Porém, em águas brasileiras, a espécie só veio a ser registrada em 2023 — relativamente recente em termos científicos. Agora, está se sentindo mais à vontade.

Donzela-real. Foto: Creative Commons/ Wikimedia Commons/ Reprodução

Segundo pesquisadores, as donzelas-reais foram confirmadas em ilhas costeiras como a Ilha da Queimada Grande, o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos e a Estação Ecológica Tupinambás, no Arquipélago de Alcatrazes. E quanto mais espaço elas têm, mais perigoso fica o ambiente marinho.

 

Isso porque, por natureza, a espécie possui um comportamento totalmente territorial e agressivo, conforme explicou ao g1 o biólogo e mergulhador Eric Cormin. Segundo ele, o peixe “defende o local de desova de uma forma feroz contra quaisquer outras espécies”. Por consequência, acabam disputando espaço com seres nativos.

A descoberta ainda é recente, e os especialistas notaram, por enquanto, apenas pequenos cardumes, com impactos no ecossistema marinho ainda em avaliação. Entretanto, a principal preocupação segue sendo a competição por recursos.

Eles estão sim se reproduzindo com sucesso, porém é preciso que haja um monitoramento contínuo para ver se a espécie na nossa região está se estabelecendo com sucesso– afirmou Comin ao veículo

O biólogo defende ainda que se faz necessário um levantamento amplo para mensurar o impacto dessa invasão ao longo dos anos. Mas fato é que, ao se estabelecer em recifes de coral — como vem acontecendo — , ela pode alterar a dinâmica populacional do local.

Um problema real

Um lugar onde esse peixe já está estabelecido é o Golfo do México, com direito a cardumes de alta densidade formados. Muito mais que uma inquilina, a donzela-real é avistada por lá desde 2013. Para um certo alívio, contudo, os estudiosos não conseguem afirmar que a espécie levou danos significativos ao ecossistema, mesmo que há mais de uma década nessas águas.

Foto: Instagram @familiamergulho e @terradagente / Reprodução

Segundo um artigo publicado na Bulletin of Marine Science, houve sim uma queda no número de espécies nativas no Golfo do México, mas não por conta da invasão da donzela-real. Para os autores da pesquisa, a causa dessa diminuição é a crescente degradação do habitat dos recifes.

Foto: Wikimedia Commons/ AravindManoj/ Reprodução

O estudo sugere que a donzela-real, sendo muito resistente, consegue prosperar em ambientes degradados e em estruturas artificiais (como plataformas de petróleo), enquanto os peixes nativos não aguentam a barra. Logo, ela é mais uma consequência do declínio do que a causa.

 

Outros estudos também sugerem que o impacto imediato sobre peixes nativos planctívoros (que se alimentam de plâncton) poderia ser limitado, embora o potencial de invasão e a rápida colonização de novas áreas ainda sirva como um alerta para os recifes brasileiros.

Como eles chegaram aqui?

A resposta para essa pergunta ainda não é certeira, mas sim uma hipótese. A principal delas, segundo os pesquisadores, é de que chegaram pela chamada água de lastro — aquela que os navios colocam em tanques internos para garantir equilíbrio e estabilidade durante a navegação. Nessa teoria, as embarcações teriam vindo do Caribe.

Exemplo de como funciona as águas de lastros nas embarcações. Foto: Observatório de Justiça e Conservação/ Reprodução

Por serem capturadas no mar, as águas de lastro têm seu descarte geralmente feito nos portos de destino. Ou seja, tudo o que foi capturado é despejado no local de chegada, transferindo microrganismos e espécies exóticas para o ambiente local, o que causa desiquilíbrio biológico e riscos sanitários.

 

Não à toa, a distribuição desse animal não é exclusiva. No Oceano Índico, vai desde a África Ocidental, Mar Vermelho e Golfo Pérsico até o Oceano Pacífico, incluindo Filipinas, Malásia, Indonésia, sul do Japão, norte da Austrália e Nova Caledônia. Agora, chegou a vez dela no Atlântico Sul.

Como ela é?

O peixe mede, em média, 10 centímetros, cabendo tranquilamente na palma da mão. Eles apresentam um corpo alongado com coloração que varia do azul-escuro para o preto, com uma mancha branca próxima da barbatana dorsal.

Foto: Wikimedia Commons/ Serge Planes/ Reprodução

Quando jovens, apresentam barbatanas amarelas que tendem a escurecer conforme chegam à fase adulta. A donzela-real se alimenta principalmente de zooplâncton (composto de animais que flutuam ou nadam fracamente, que dependem de correntes para se deslocar a grandes distâncias). De acordo com os estudos, o animal é encontrado entre 5 e 30 metros de profundidade.

 

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