O mar como matriz econômica: a estratégia de Salvador para crescer com sustentabilidade

Por: Redação -
26/10/2025

Salvador de frente para o mar? Mais do que uma frase, é um chamado. Um reposicionamento simbólico e geográfico de uma cidade que nasceu voltada para o oceano, mas que, ao longo dos séculos, acabou se afastando dele. Hoje, com novo olhar e propósito, Salvador volta a encarar o seu destino marítimo. A cidade reencontra suas origens e assume o mar como um de seus principais vetores de desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural.

Salvador está situada às margens da imponente Baía de Todos os Santos — a segunda maior baía navegável do mundo. A frase carrega muito mais que um sentido geográfico. São 350 km² de território molhado à beira da Baía de Todos os Santos, com 56 ilhas, 153 naufrágios registrados e uma população de mais de 3 milhões de habitantes em seus 18 municípios. Somos uma cidade abençoada, a capital da Amazônia Azul. Somos do mar.

 

O mar moldou nossa cultura popular, das festas religiosas à música, da culinária às tradições. Ele também sustentou a economia desde o período colonial, quando o Porto de Salvador, então chamado “Porto do Brasil”, era um dos mais importantes do país.

 

Curiosamente, ao longo dos anos, Salvador virou as costas para suas origens marítimas. O planejamento conduzido pela Secretaria do Mar (Semar) busca resgatar essa herança, recolocando a cidade diante do seu destino náutico e valorizando uma das mais vigorosas vocações do nosso povo: viver e prosperar com o mar. O objetivo é estruturar e fortalecer a economia náutica, promovendo seu crescimento sustentável por meio da integração entre poder público, setor privado e sociedade.

 

 

Com o maior litoral do país e um dos mais belos do planeta, a Bahia oferece condições excepcionais para o desenvolvimento das atividades náuticas, impulsionadas pelo turismo e pela relação cultural do baiano com o mar. Para que essa vocação se consolide, são necessários investimentos em planejamento, infraestrutura, incentivos fiscais, capacitação profissional e apoio institucional.

 

A náutica é estratégica para a economia e o desenvolvimento social. Gera emprego e renda, fomenta o turismo, valoriza o meio ambiente e incentiva setores como design, engenharia naval, meteorologia, medicina esportiva e tecnologia. É também promotora da imagem positiva da cidade e do país, além de contribuir para o lazer e a formação esportiva.

 

Uma embarcação no mar gera, em média, 3 empregos diretos e 5 indiretos. Um imóvel com vista para o mar pode valer até cinco vezes mais que um sem essa paisagem. Esses números comprovam: o mar é riqueza, presente e futuro.

 

O setor náutico é hoje um dos mais promissores do mundo. Além de movimentar centenas de bilhões de dólares globalmente, ele gera empregos, impulsiona o turismo, estimula o lazer e incentiva a inovação tecnológica.


A história confirma essa conexão. Fundada em 1549, Salvador sempre teve o mar como elemento central de sua identidade. Ele moldou a economia, com o antigo Porto do Brasil; influenciou a cultura, com festas como a de Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia; inspirou o Afoxé Filhos de Gandhy, criado por estivadores; e marcou a culinária com as moquecas e os frutos do mar.

 

O prefeito Bruno Reis reafirma essa relação com a criação da Semar, que tem como missão implantar uma cultura náutica em Salvador, construir políticas públicas para a economia do mar, atrair investimentos e promover o uso sustentável dos recursos marítimos. O mar se consolida, assim, como novo pilar de desenvolvimento econômico da cidade — uma nova matriz para uma nova era.

 

Hoje, a náutica representa 2,8% do PIB de Salvador e responde por 43% da movimentação dos portos públicos da Bahia, impactando setores como agronegócio, indústria, comércio exterior e turismo de cruzeiros. A Semar já identificou 53 oportunidades de negócios em áreas como infraestrutura portuária e náutica, energia, mobilidade marítima, pesca, gastronomia, educação e cultura.

 

Além da vertente econômica, a secretaria atua no campo social com o programa Salvador Social Clube, que promove a inclusão de estudantes da rede municipal em atividades esportivas, e com iniciativas voltadas a pescadores, marisqueiras e fazendas marinhas. Projetos como a Marina Municipal, o Plano de Orla da Ribeira, a Escola de Vela, a Captação de Regatas Internacionais e o Desenvolvimento das Ilhas integram uma agenda robusta de valorização do mar.

Maria Eduarda Lomanto, Secretária do Mar de Salvador. Foto: Divulgação

Todas as ações da Semar são desenvolvidas em parceria com instituições públicas e privadas, academia e sociedade civil. A secretaria tem participado de fóruns, comitês e encontros técnicos, além de integrar debates como o lançamento da Frente Parlamentar da Economia do Mar, no Senado Federal, fortalecendo a cultura marítima nacional.

 

Salvador reencontra, assim, seu verdadeiro horizonte. A história de Salvador é inseparável do mar. Agora, essa relação ancestral se transforma em projeto que é presente e é futuro. O mar volta a ser protagonista — como fonte de cultura, renda, lazer e inovação. Os ventos sopram a favor, e a cidade volta — definitivamente — de frente para o mar.

 

Artigo de Duda Lomanto, secretária do Mar de Salvador, à Revista NÁUTICA.

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