Transatlântico antigo é preparado para ser afundado no mar: entenda esse processo
SS United States tem sido cuidadosamente limpo para ser transformado em um enorme recife artificial de corais


A prática de afundar embarcações inativas é mais comum do que parece — especialmente quando se trata de gigantes dos mares. É exatamente o que vai acontecer com o transatlântico SS United States, que, com seus 302 metros de comprimento, terá como lar definitivo o fundo do mar, onde será transformado em um imenso recife artificial de corais. Mas, antes disso, precisa passar por um preparo meticuloso.
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O responsável por liderar esse processo é Tim Mullane, de 54 anos, cuja principal função, desde 2022, é limpar completamente navios destinados a um “descanso eterno” nas profundezas. Embora pareça uma ocupação exótica, o trabalho carrega bastante responsabilidade.


À National Geographic, Mullane explicou que o trabalho no preparo de cada navio é diferente, mas nem tanto. Isso porque, em linhas gerais, alguns passos criteriosos devem ser seguidos, como:
- remoção de todas as pinturas, inclusive das grades;
- limpeza completa dos tanques de combustível — no caso do SS United States, são 120 deles;
- abertura das vigias (ou escotilhas);
- retirada de todos os materiais de isolamento (térmico, acústico ou quaisquer outros).
E o mais importante: todo esse processo precisa ser feito de forma que não ofereça riscos nem à equipe, nem ao meio ambiente. Como muitas vezes o preparo ocorre com a embarcação ainda na água, o cuidado com vazamentos e resíduos precisa ser redobrado.
A razão de tanto zelo é simples: garantir que o navio não se torne um amontoado de ameaças ecológicas. A ideia é deixá-lo pronto para passar, literalmente, uma eternidade submerso sem causar danos.
Somos os agentes funerários do navio, levando-o para seu local de descanso final– resume Mullane


Etapas do preparo do navio
No caso do SS United States, a equipe já removeu os quatro hélices e a tinta de várias estruturas. Segundo Mullane, agora estão sendo retirados os materiais perigosos. E, em breve, um guindaste de 61 metros será usado para içar os dois funis de 19,8 metros cada, que hoje repousam no fundo da embarcação.
Além dos cuidados ambientais, é preciso garantir que o navio não afunde antes da hora. Como o trabalho envolve maquinário pesado e força bruta, qualquer rompimento no casco pode levar ao afundamento precoce — inclusive com a equipe a bordo.
Para evitar esse tipo de acidente, engenheiros desenvolveram um modelo virtual do SS United States para entender onde os furos podem — e precisam — ser feitos para que o transatlântico afunde no momento e na direção ideais. Afinal, como o objetivo é transformá-lo em atração de turismo subaquático, o ideal é que o navio não tombe de ponta-cabeça ou inclinado demais.
Se tudo correr como planejado, o SS United States será finalmente afundado em novembro deste ano, no Golfo da Flórida. A iniciativa faz parte de um plano do governo do condado de Okaloosa (EUA), que espera atrair milhões de dólares por ano com a nova atração.
O governo local pagou US$ 1 milhão pelo navio, que passou três décadas abandonado em um cais na Filadélfia. Agora, após tantos anos de aposentadoria, ele recebe os retoques — ou melhor, os desretoques — finais para finalmente repousar em paz.
História do transatlântico SS United States
A primeira viagem desse então gigante dos mares foi em 1952. Apesar das proporções grandes já para a época — sendo maior que o Titanic, que tinha 269 metros de comprimento — , o navio conseguiu atingir a velocidade média de 36 nós, o equivalente a mais de 66 km/h, e conquistou o recorde de velocidade transatlântica.


A embarcação levou três dias, 10 horas e 40 minutos para atravessar o Oceano Atlântico, superando o então recordista RMS Queen Mary com uma diferença de 10 horas.
Em 1969, o navio passou a ser de reserva (quando está equipado, mas não é necessariamente utilizado) e então transitou por vários proprietários, que apesar do intuito comum de repaginá-lo, acabaram não o fazendo. Por isso, ele ficou décadas no rio Delaware até perder a capacidade de navegar em segurança.
Em breve, a história do SS United States será ressignificada mais uma vez, quando ele deixará de ser uma carcaça de navio para viver uma nova etapa como um ecossistema.
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