Cai população global de tubarões de recife e arraias sobem na cadeia alimentar

Estudo realizado em 67 países mostra queda e consequências para o equilíbrio ecológico

21/06/2023

Populações de cinco espécies de tubarões de recife estão cada vez menores, aponta estudo de uma universidade australiana. Os animais sofreram, ao todo, uma redução de 60% a 73%, de acordo com a pesquisa que utilizou dados de 67 países, incluindo o Brasil.

Segundo os cientistas, a principal causa da queda é a pesca predatória, que tem afetado, inclusive, o equilíbrio ecológico.

 

O estudo, feito através de monitoramento via câmeras, mostrou que as espécies ameaçadas são importantes para sustentar estoques de peixes com relevância econômica. Além disso, com a queda no número de tubarões, as arraias estão passando a dominar o habitat, tomando o lugar do predador no topo da cadeia e causando perturbação no equilíbrio ecológico.

Entenda como foi feita a pesquisa

Liderado pelo biólogo Colin Simpfendorfer, da Universidade James Cook, da Austrália, um monitoramento feito com a utilização de câmeras subaquáticas possibilitou aos pesquisadores o mapeamento das populações do animal em quase 400 conjuntos de recifes no planeta, o que gerou mais de 22 mil horas de vídeo.

Uma pequena estação automática de filmagem — que usa tecnologia não invasiva — batizada de BRUV (Baited Remote Underwater Video System), foi a responsável pela coleta de tantas imagens. O biólogo italiano Tommaso Giarrizzo, da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), foi o pioneiro no uso do equipamento na costa brasileira.

 

“É uma câmera de vídeo compacta colocada em uma caixa montada numa estrutura de metal ou PVC. Na frente do campo de visão da câmera fica uma haste presa a um saco de tela com uma isca, geralmente sardinha, esmagada para atrair os peixes. Os BRUVs são lançados diretamente da embarcação, encostam no fundo, e ficam na água filmando por 60 minutos” explica o biólogo.

 

O resultado da análise foi publicado na revista Science e os pesquisadores afirmam que “se não forem enfrentadas, as pressões que causam a queda de diversidade de tubarões que descrevemos continuarão a resultar na perda de espécies, funções ecológicas e serviços ecossistêmicos que garantem o modo de vida sustentável de milhões de pessoas no mundo”.


Simpfendorfer precisou elaborar um modo de estimar quais seriam os tamanhos originais das populações do animal, uma vez que não existia uma série temporal para saber se os tubarões em questão estavam aumentando ou diminuindo de número.

 

“Estimamos a linha de base desenvolvendo uma relação entre o número de tubarões de cada espécie vistos nos vídeos, o rigor das áreas marinhas protegidas onde eles existiam e a distância do recife de pressões humanas, como cidades e rotas comerciais” explicou o cientista ao O Globo.

 

Assinado por 154 cientistas, o estudo na Science mostra que o método adotado por Simpfendorfer foi bem sucedido, uma vez que o trabalho de campo envolveu muito esforço e produziu informações suficientes. Os dados gerados, inclusive, mostraram que algumas espécies de tubarões não foram encontradas em até 47% dos recifes envolvidos.

Situação dos tubarões no Brasil

O estudo mostrou que a situação no Brasil é uma das mais preocupantes. A população do tubarão-recifal (Carcharhinus perezi) caiu pela metade, enquanto o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) teve queda de 75%, sendo que essas foram as espécies monitoradas pela pesquisa no Oceano Atlântico.

 

“Esses predadores são as primeiras espécies a serem capturadas quando você põe um anzol grande dentro d’água. São sempre os mais agressivos que vêm morder a isca primeiro”, conta Hudson Pinheiro, do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (Cebimar/USP).

 

Isso explica o motivo pelo qual essas duas espécies tiveram uma queda tão abrupta, mesmo apesar de não terem grande valor comercial. Hudson conta ainda que, antes de o arquipélago de Trindade se tornar um parque nacional, em 2018, o peixe mais capturado por frotas pesqueiras no local era o tubarão-recifal.

 

“Já o tubarão lixa é muito capturado também pela pesca recreacional, porque é uma espécie que ocorre em águas mais rasas e é muito acessível”, completa ele.

 

A situação dessas espécies no Brasil é preocupante, mas no Caribe (Jamaica e Martinica) os dois tubarões nem sequer foram vistos pelas câmeras dos cientistas. A situação se repetiu no Pacífico e no Índico, onde o tubarão-cinzento sumiu das águas de 13 países em que costumava aparecer.

 

As espécies agora estão na categoria “ameaçadas” para a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Segundo Simpfendorfer, apesar de preocupante, a situação pode ser revertida em uma década, caso sejam adotadas medidas de proteção.

 

“A recuperação será muito dependente da ação país por país. A implementação de áreas marinhas protegidas onde a pesca não ocorre é um método muito bom” diz ele. Ainda segundo o cientista, os resultados foram utilizados para incluir as espécies na Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), o que significa que seu comércio internacional será regulamentado em breve.

 

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