COP30 marca virada da transição energética naval com barcos a hidrogênio
Brasil apresenta duas embarcações movidas a hidrogênio que ficam como herança tangível da conferência: o BotoH2 e o JAQ H1


Em meio a milhares de negociações, discursos e anúncios de metas climáticas, a COP30 vai deixar um legado concreto para a navegação brasileira e com potencial de impacto global: embarcações que já operam, ou estão prontas para operar, com hidrogênio verde, além de um projeto de barco totalmente autossuficiente, capaz de gerar seu próprio hidrogênio a bordo.
Fundador da S.O.S. Mata Atlântica, Fabio Feldmann elogia iniciativa “muito desafiadora” do JAQ H1
Ministro do Trabalho defende capacitação na rota da descarbonização durante visita ao JAQ H1 na COP30
Inscreva-se no Canal Náutica no YouTube
Em Belém, no Pará, dois protagonistas dessa virada chamam atenção: o BotoH2, patrocinado pela Itaipu Binacional, é primeira embarcação do país a unir célula de combustível a hidrogênio e painéis solares que ficará de legado para a cidade de Belém; e o JAQ H1, barco que apresentou sua hotelaria movida a hidrogênio verde e vai percorrer as principais capitais do país.


O BotoH2, de 9,5 metros de comprimento, permanecerá em Belém após a COP30 e será incorporado às Unidades de Valorização de Resíduos Sólidos (UVRs) em implantação na cidade para facilitar a coleta de recicláveis nas ilhas e com isso reduzir a dependência de barcos a diesel em mau estado, ainda comuns na região.


O programa prevê também reforma de galpões, fornecimento de equipamentos (esteiras, prensas, caminhões-baú) e assessoria em gestão às cooperativas de catadores, com impacto direto na renda, na organização e nas condições de trabalho desses profissionais.


Já o JAQ H1, primeiro barco da empresa JAQ Apoio Marítimo, tem 36 metros de comprimento, cerca de 400 m² de área útil, auditório para 50 pessoas e estrutura de embarcação oceânica. Ele foi 100% financiado pela iniciativa privada e nasce com vocação nacional: após a COP30, deverá percorrer diversas capitais brasileiras para apresentar o sistema da célula de hidrogênio verde.


Na primeira fase, apresentada em Belém, toda a hotelaria do barco, com iluminação, climatização e sistemas internos, já está preparada para operar com hidrogênio verde. Na segunda etapa, em dezembro, em Fortaleza, será instalado o motor da MAN com sistema de propulsão dual fuel, capaz de utilizar 20% de hidrogênio na mistura, o que reduz em até 80% a emissão de CO2 da embarcação. Após isso, o barco atracará no Porto de Suape, em Pernambuco, para o abastecimento do hidrogênio.


Na terceira fase, prevista para 2027, a empresa irá apresentar uma nova embarcação: a JAQ H2. Com cerca de cerca de 50 metros, o barco será capaz de gerar seu próprio hidrogênio a bordo através da dessalinização da água do mar por meio de um eletrolisador que quebra as moléculas de hidrogênio e oxigênio, para armazenar o hidrogênio e tornar viável a autossuficiência energética com emissão zero.
A missão das duas unidades será cruzar os principais biomas brasileiros, combinando pesquisa científica, educação ambiental e trabalhos portuários. Graças ao uso de hidrojatos, o JAQ H2 consegue navegar em áreas de menor profundidade, o que permite alcançar comunidades ribeirinhas e ampliar o alcance das ações de sensibilização climática.
O projeto JAQ H1 é financiado 100% pela iniciativa privada e reúne parceiros que contribuem com expertise e tecnologia. É o caso do Itaipu Parquetec, que forneceu know-how e suporte técnico no comissionamento do sistema e da GWM, que trouxe a tecnologia dos equipamentos, enquanto a MAN passa a atuar na etapa de propulsão, com a instalação de dois motores dual fuel.
“Na COP há muito debate e isso é fundamental. Mas, desde o início, nossa intenção foi ir além do discurso e mostrar soluções concretas”, afirma Ernani Paciornik, idealizador do projeto JAQ e presidente do Grupo Náutica.


“O BotoH2 fica como legado direto para Belém para apoiar os catadores e ajudar a cuidar dos rios da cidade. O JAQ H1 vai rodar o país como barco que vai apresentar o sistema da célula de hidrogênio nas principais capitais do Brasil. São dois projetos brasileiros que provam, na prática, que já é possível navegar com muito menos impacto.”
“Estamos dando a nossa contribuição ao planeta com embarcações que qualquer pessoa pode visitar, entrar, fazer perguntas e entender como funcionam. Quando um estudante pisa a bordo e vê um barco silencioso, sem fumaça, movido por uma tecnologia que pode usar energia limpa, ele percebe que o futuro não é promessa, é realidade. Esse é o legado que queremos deixar da COP30”, finaliza o executivo.
Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Relacionadas
Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
[caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"]

Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
[caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"]

Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
Projeto lançado em Cannes promete casco esportivo, 1.500 hp de potência e fabricação limitada a 26 unidades
Colaboração estratégica reúne engenharia, design, condições comerciais exclusivas e experiências para clientes das duas marcas, e inclui uma edição especial da NX 44 Fly nas cores do Suassuna Design by Pininfarina
Lançada no São Paulo Boat Show 2026, lancha da Real Powerboats registra alta procura e tem toda a produção vendida até o próximo ano




