Peixes de águas profundas ajudam no equilíbrio do carbono mais do que se imaginava

Criaturas que habitam as "zonas crepusculares" são cruciais no estoque de carbono nos oceanos, diz novo estudo

15/08/2025
Peixe-rosa de barriga preta. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Até então, acreditava-se que os peixes mesopelágicos (de águas profundas) tinham pouca ou nenhuma contribuição no ciclo do carbono. Entretanto, um novo estudo lançou luz sobre essa teoria e provou que, na verdade, esses animais não só colaboram, como são cruciais para esse processo.

Os cientistas sabiam, até então, que os peixes de águas rasas excretam minerais carbonáticos — cristais de carbonato de cálcio. Esse processo, chamado de ictiocarbonato, ajuda os animais a equilibrar água e sal em seus corpos e, ao mesmo tempo, contribui para o ciclo do carbono no oceano.

Foto: kryzhov/ Envato

Entretanto, nada se sabia sobre a contrinuição dos peixes de água profunda nesse processo — até agora. De acordo com o estudo, realizado por cientistas da Universidade de Miami e publicado no Journal of Experimental Biology, essas criaturas também expelem carbonato em quantidades semelhantes aos de águas rasas.

 

Para chegar a esse resultado, os cientistas focaram num tipo específico de peixe de águas profundas: o peixe-rosa de barriga preta (Helicolenus dactylopterus), que vive entre 350 e 430 metros de profundidade.

 

A espécie foi a escolhida pela sua capacidade de se adaptar ao clima de laboratório e por não possui bexiga natatória, fator que contribui para sua sobrevivência mesmo com a mudança brusca de pressão até a superfície.

Peixe-rosa de barriga preta. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Durante o experimento, os pesquisadores mantiveram os espécimes em um ambiente que replicava seu habitat natural. Logo, eles observaram que cada quilo de peixe liberava aproximadamente 5 miligramas de carbonato por hora — quantia muito semelhante à registrada nos animais de águas rasas.

 

Para Amanda Oehlert, coautora e professora assistente do Departamento de Geociências Marinhas, a pesquisa preenche uma lacuna fundamental na compreensão da química oceânica e do ciclo do carbono.

Com os peixes mesopelágicos desempenhando um papel tão significativo, sua contribuição para o fluxo de carbonato — e como ele pode mudar com o aquecimento dos oceanos — merece maior atenção– destacou Oehlert

Ecos do experimento

O teste concluiu que nem a profundidade nem a pressão inibem a formação de ictiocarbonato. Além disso, os resultados reforçam as estimativas globais da produção de carbonato derivada de peixes, com os mesopelágicos sendo parte fundamental dessa cadeia.

Martin Grosell, pesquisador envolvido no novo estudo, observa o peixe-rosa de barriga preta. Foto: Diana Udel/ University of Miami/ Divulgação

Os cientistas também concluíram que a composição do ictiocarbonato expelido é semelhante, independentemente da profundidade em que se forma — o que influencia como e onde ele é armazenado ou dissolvido no oceano.

 

Os peixes que vivem na “zona crepuscular” do oceano — como o “cobaia” do estudo — (entre 200 e 1000 metros de profundidade) representam até 94% da biomassa global desses animais. Logo, se todos os peixes contribuem com a produção de carbonato, o impacto deles na química do oceano é gigantesco.

Peixes mesopelágicos não são apenas presas; são engenheiros químicos do oceano– apontou Martin Grosell, principal autor do estudo

Além disso, os peixes profundos contribuem de forma tão significativa com o ciclo do carbono que ajudam os cientistas a aprimorar os modelos do sistema terrestre (uma espécie de programa de computador que simula interações complexas para prever o clima e entender como ele muda).

O que é o ciclo do carbono?

Por ironia do destino, os animais que eram negligenciados, na realidade, trabalham em prol do ciclo do carbono. Este processo, por sua vez, ocorre de maneira natural e descreve como o carbono — elemento essencial para a vida — se move entre a atmosfera, os oceanos, a terra e os seres vivos.

Peixe-rosa de barriga preta. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Trata-se de um ciclo biogeoquímico. Ou seja: um processo que garante a reciclagem do carbono, possibilitando que esse elemento interaja com o meio e com os seres vivos. Logo, o processo possibilita verificar como o carbono se movimenta pela atmosfera, litosfera, hidrosfera e biosfera.

No oceano, parte desse carbono é convertido em carbonatos, que são importantes para a formação de conchas e esqueletos de muitos animais marinhos.

 

Isso significa que a contribuição desses peixes para o estoque de carbono nos oceanos é muito maior do que se imaginava, e essa informação é vital para entender como nossos oceanos e o clima do planeta funcionam.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Veleiro Esperança crava pódio na Cape2Rio após enfrentar tormenta e dois ciclones

    Equipe gaúcha ficou com o 3º lugar na regata África-Brasil. Theodora Prado recebeu premiação especial por ser a 1ª mulher a realizar a disputa sozinha

    Confira o top 10 atualizado dos iates mais caros do mundo

    A lista começa já na casa dos R$ 600 milhões. Você arriscaria um palpite de quanto custa o mais caro? Veja aqui!

    Aeronave anfíbia pode abrir voo por terra ou água: conheça a Beriev Be-200

    Imagens poderiam ser confundidas com criações de inteligência artificial, mas são reais. Saiba como!

    Quanto de plástico pode matar um animal marinho? Estudo analisou quantidades e tipos mais letais

    De acordo com o estudo, a ingestão de quantidades pequenas de plástico podem aumentar em 90% a chance de morte de alguns animais

    Tripulação francesa bate recorde de volta ao mundo mais rápida em um veleiro

    Liderada por Thomas Coville e a bordo do trimarã Sodebo Ultim 3, equipe circunavegou o globo em 40 dias e 10 horas