Pesquisa revela produção de oxigênio no fundo do mar e desafia teorias sobre o início da vida na Terra
A história do início da vida na Terra como se conhece até hoje pode estar prestes a ganhar um novo — e histórico — capítulo, graças a pesquisadores que encontraram oxigênio no fundo do mar, a 4 mil metros de profundidade. Para entender melhor o que isso significa, contudo, é necessário voltar ao passado, mais precisamente, para as aulas de Ciências e Biologia.
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Foram nessas matérias que a população mundial aprendeu que era preciso luz solar para que os organismos fotossintéticos, como plantas e algas, produzissem o oxigênio que respiramos. Essa é a ideia que, simplesmente, norteia os estudos sobre o início da vida no planeta Terra, que aconteceu há nada menos que cerca de 3,5 bilhões de anos.


Mas agora, em 2024, toda essa teoria deve ser revisitada e repensada, uma vez que uma equipe liderada pelo professor Andrew Sweetman, da Associação Escocesa de Ciências Marinhas (SAMS), descobriu que, há 4 mil metros de profundidade, bem longe da incidência de luz solar, existe produção de oxigênio.
A descoberta que pode mudar tudo
A descoberta, publicada na revista científica Nature Geoscience, aconteceu durante um trabalho de campo em um navio no Oceano Pacífico, mais precisamente, no leito marinho da Zona Clarion-Clipperton, onde Sweetman e sua equipe avaliavam os possíveis impactos da mineração em alto mar.
O processo de mineração extrai nódulos polimetálicos que contêm metais, como manganês, níquel e cobalto, necessários para produzir baterias de íons de lítio para veículos elétricos e celulares.
Esses nódulos carregam consigo uma carga elétrica muito alta, capaz de levar à divisão da água do mar em hidrogênio e oxigênio, em um processo conhecido como eletrólise da água do mar. Nesse processo, a decomposição química da água em oxigênio e hidrogênio acontece por efeito da passagem de uma corrente elétrica pela água.
Para que a eletrólise ocorra, uma voltagem de 1,5 volts é necessária — a mesma de uma bateria AA típica, para se ter uma ideia. O que a equipe não esperava era registrar, após análises dos nódulos, leituras de até 0,95 volts nas superfícies de alguns.
Ou seja, quando agrupados, esses nódulos podem ter voltagens significativas — mais do que o necessário para o processo de eletrólise.


“Quando obtivemos esses dados pela primeira vez, achamos que os sensores estavam com defeito, porque todos os estudos já feitos no fundo do mar só viram oxigênio sendo consumido, em vez de produzido. Nós voltávamos para casa e recalibrávamos os sensores, mas ao longo de 10 anos essas leituras estranhas de oxigênio continuaram aparecendo”, revelou Sweetman em comunicado de imprensa.
Agora sabemos que há oxigênio produzido no fundo do mar, onde não há luz. Acho que, portanto, precisamos revisitar questões como: onde a vida aeróbica [que utiliza oxigênio como aceptor final] poderia ter começado?– destacou Sweetman
A vida de uma nova perspectiva
Ao suspeitar que os sensores estavam com defeito, a equipe de Sweetman decidiu, como prova real, usar um método de backup que funcionasse de forma diferente dos sensores — e ele confirmou o resultado. Foi aí que os pesquisadores entenderam que estavam diante de “algo inovador e inimaginável”.
Para Nicholas Owens, diretor do SAMS, a descoberta do agora chamado “oxigênio escuro” é uma das mais emocionantes na ciência oceânica dos últimos tempos.
“A visão convencional é que o oxigênio foi produzido pela primeira vez há cerca de três bilhões de anos, por micróbios antigos, chamados cianobactérias. Houve um desenvolvimento gradual de vida complexa depois disso”, disse Owens.
O potencial de que havia uma fonte alternativa exige que repensemos radicalmente– frisou Nicholas Owens, diretor do SAMS
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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