Pesquisa revela produção de oxigênio no fundo do mar e desafia teorias sobre o início da vida na Terra

25/07/2024

A história do início da vida na Terra como se conhece até hoje pode estar prestes a ganhar um novo — e histórico — capítulo, graças a pesquisadores que encontraram oxigênio no fundo do mar, a 4 mil metros de profundidade. Para entender melhor o que isso significa, contudo, é necessário voltar ao passado, mais precisamente, para as aulas de Ciências e Biologia.

Foram nessas matérias que a população mundial aprendeu que era preciso luz solar para que os organismos fotossintéticos, como plantas e algas, produzissem o oxigênio que respiramos. Essa é a ideia que, simplesmente, norteia os estudos sobre o início da vida no planeta Terra, que aconteceu há nada menos que cerca de 3,5 bilhões de anos.

Mas agora, em 2024, toda essa teoria deve ser revisitada e repensada, uma vez que uma equipe liderada pelo professor Andrew Sweetman, da Associação Escocesa de Ciências Marinhas (SAMS), descobriu que, há 4 mil metros de profundidade, bem longe da incidência de luz solar, existe produção de oxigênio.

A descoberta que pode mudar tudo

A descoberta, publicada na revista científica Nature Geoscience, aconteceu durante um trabalho de campo em um navio no Oceano Pacífico, mais precisamente, no leito marinho da Zona Clarion-Clipperton, onde Sweetman e sua equipe avaliavam os possíveis impactos da mineração em alto mar.

 

O processo de mineração extrai nódulos polimetálicos que contêm metais, como manganês, níquel e cobalto, necessários para produzir baterias de íons de lítio para veículos elétricos e celulares.


Esses nódulos carregam consigo uma carga elétrica muito alta, capaz de levar à divisão da água do mar em hidrogênio e oxigênio, em um processo conhecido como eletrólise da água do mar. Nesse processo, a decomposição química da água em oxigênio e hidrogênio acontece por efeito da passagem de uma corrente elétrica pela água.

 

Para que a eletrólise ocorra, uma voltagem de 1,5 volts é necessária — a mesma de uma bateria AA típica, para se ter uma ideia. O que a equipe não esperava era registrar, após análises dos nódulos, leituras de até 0,95 volts nas superfícies de alguns.

 

Ou seja, quando agrupados, esses nódulos podem ter voltagens significativas — mais do que o necessário para o processo de eletrólise.

“Quando obtivemos esses dados pela primeira vez, achamos que os sensores estavam com defeito, porque todos os estudos já feitos no fundo do mar só viram oxigênio sendo consumido, em vez de produzido. Nós voltávamos para casa e recalibrávamos os sensores, mas ao longo de 10 anos essas leituras estranhas de oxigênio continuaram aparecendo”, revelou Sweetman em comunicado de imprensa.

Agora sabemos que há oxigênio produzido no fundo do mar, onde não há luz. Acho que, portanto, precisamos revisitar questões como: onde a vida aeróbica [que utiliza oxigênio como aceptor final] poderia ter começado?– destacou Sweetman

A vida de uma nova perspectiva

Ao suspeitar que os sensores estavam com defeito, a equipe de Sweetman decidiu, como prova real, usar um método de backup que funcionasse de forma diferente dos sensores — e ele confirmou o resultado. Foi aí que os pesquisadores entenderam que estavam diante de “algo inovador e inimaginável”.

 

Para Nicholas Owens, diretor do SAMS, a descoberta do agora chamado “oxigênio escuro” é uma das mais emocionantes na ciência oceânica dos últimos tempos.

 

“A visão convencional é que o oxigênio foi produzido pela primeira vez há cerca de três bilhões de anos, por micróbios antigos, chamados cianobactérias. Houve um desenvolvimento gradual de vida complexa depois disso”, disse Owens.

O potencial de que havia uma fonte alternativa exige que repensemos radicalmente– frisou Nicholas Owens, diretor do SAMS

 

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