Velejadora Izabel Pimentel levou barco centenário da Espanha para a Rússia em meio à guerra
Ela mostra os desafios da jornada junto a Juliano Leal no mini documentário "Entre duas Guerras". Prestes a completar 60 anos, Izabel ainda enfrentará o Drake rumo à Antártica


Um barco de quase 100 anos, projetado para enfrentar a Segunda Guerra Mundial, passou por mãos alemãs e soviéticas até parar nas da velejadora brasileira Izabel Pimentel. A primeira mulher da América Latina a concluir uma volta ao mundo de veleiro, em solitário, se viu diante de uma verdadeira missão, que a colocaria à prova, novamente, no auge dos seus quase 60 anos.
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Era o final de 2024 quando Izabel começou a vislumbrar os caminhos mais estratégicos para levar o então enfraquecido Zvezda da Espanha para a Rússia — mas, sem querer dar spoilers, esse já é o começo do fim dessa história. Antes disso, duas guerras, alguns saques e o abandono cruzaram o caminho dessa embarcação quase centenária.
Zvezda, uma estrela que se recusou a apagar
O veleiro Zvezda começou sua história nesse mundo já rodeado por desafios que iam muito além de um mar agitado. Nascido em 1934, no estaleiro alemão Abeking & Rasmussen, ele não só precedeu a Segunda Guerra Mundial como foi pensado para ela.


O barco foi projetado por Hermann Wilhem Göring, militar alemão, político, líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e fundador da Gestapo (polícia secreta oficial da Alemanha Nazista). A bordo, militares alemães treinavam navegação sobre as águas do Mar do Norte.
Ao final na Guerra, em 1945, quando as forças alemãs ruíram, o Zvezda foi transferido junto de outros barcos para a então União Soviética, como um meio de reparação. Por lá, o veleiro encontrou seu novo refúgio no St. Petersburg River Yacht Club of Trade Unions, hoje conhecido apenas como St. Pettesburg River Yacht Club.


Daí em diante, o barco que leva no nome o significado de “estrela”, em russo, mostrou que faria de tudo para não deixar de brilhar. Seu casco de aço e o convés de madeira suportaram reformas, reparos e o desgaste natural do tempo.
Deixou de ser um Sloop (um mastro), passando a navegar como Cat (dois mastros). Assim, chegou a representar a Rússia em regatas internacionais. Em junho de 2019, contudo, seu declínio chegou mais perto do que nunca.
Uma falha no motor levou o Zvezda direto para as rochas das Ilhas Canárias, na Espanha. O barco chegou a ser rebocado para um porto de pesca, mas uma sequência de fatores o tirou, por tempo indeterminado, de rota. A embarcação acabou abandonada pela tripulação, que por questões com o visto, precisou voltar para a Rússia. Logo após, a pandemia de Covid-19 fechou as fronteiras.
Um brasileiro entra em cena
O velejador brasileiro Juliano Leal reparava seu barco no Porto de Fuerteventura, na Espanha, quando o inconfundível casco de aço do Zvezda lhe chamou a atenção.
Me impressionei com o tamanho da quilha do barco. Uma quilha corrida gigante. O barco todo de ferro. Me apaixonei por ele e pela estrutura dele. Dava para perceber que não era uma embarcação normal-destacou Juliano sobre as primeiras impressões do Zvezda
Um ano antes, ele havia trabalhado no transporte de um barco da Inglaterra ao Brasil, o que lhe colocava no radar de Alexey Semenov. Empresário e velejador responsável pela reparação do Zvezda à distância, o russo procurava, à época, uma tripulação que pudesse levar o veleiro de volta ao lar.


Com Semenov custeando os reparos do barco, Juliano, junto de outros dois amigos, conseguiu o levar até Vigo, na Espanha.
Nunca imaginei que um dia poderia navegar nesse barco, e mais do que isso: levá-lo para casa, que na época eu sequer sabia onde era-relembrou o velejador
Essa alegria, contudo, não durou muito. Não bastassem as limitações da pandemia que assolava o mundo, em fevereiro de 2022 a Rússia invadiu a Ucrânia. Começava, ali, outra guerra — e outra saga par o Zvezda.


A embarcação ficaria parada por mais três anos, já que o conflito trouxe também sanções internacionais e o fechamento de portos. As mãos do tempo não o pouparam das consequências da inércia, com um toque a mais de deteriorações.
O alento veio em setembro de 2024, quando novas mãos, dessa vez humanas, voltaram a tocar o icônico casco. Lutando mais uma vez para não deixar de brilhar, o Zvezda foi retirado da água e passou a receber cuidados com o apoio da dupla russa Semenov e Sergey Alekseev, sob orientação de Izabel e Juliano.
Izabel Pimentel assume o comando
Amiga de longa data de Juliano, Izabel Pimentel, como de praxe, fazia mais uma de suas constantes ligações para o rapaz que, para ela, “é quase um filho”. Desta vez, contudo, ela contou ter notado algo de diferente pairando no ar. Foi quando Juliano revelou que estava se preparando para navegar no Zvezda mais uma vez.


O plano, em teoria, era simples: levar o barco de volta à Rússia pelo Mediterrâneo. Acontece que essas águas estavam fechadas e o Mar Negro havia sido tomado pela guerra.
Quando me dei conta do que estava acontecendo, falei como que de brincadeira: ‘e se a gente fosse pelo Norte, pela Sibéria?’-relembrou Izabel
De bate pronto, Juliano convidou a velejadora para ser a capitã dessa jornada, que chegaria carregada dos desafios de um mar imprevisível, raso e perigoso; e de uma embarcação com histórico de reparos. De quebra, a travessia seria feita sem escalas, com o risco de o barco ser apreendido. “Mesmo assim eu aceitei”, contou Izabel.
Além de Izabel, como capitã; e Juliano, como marinheiro e contador; o Zvezda teria a bordo o espanhol Toni Cruz, que falava russo e ficou encarregado de cuidar das burocracias da jornada.
Velejando num barco de quase 100 anos
Com a tripulação ajustada e o barco revisado, o veleiro partiu rumo a São Petersburgo, na Rússia, com 520 litros de diesel a bordo. Não demorou, claro, para que os primeiros problemas começassem a aparecer.
O início foi assim. Quebra, concerta, quebra, concerta… Até o barco estabilizar-disse a velejadora
Depois de alguns dias seguindo para o norte, a capitã decidiu orçar para oeste — a contragosto da tripulação. Mas como bem relembrou Izabel, “nem sempre todo mundo vai estar de acordo. Mas quando você entra em uma embarcação, precisa saber que a última palavra é do capitão. Sempre”.


Esse obstáculo, contudo, logo foi substituído por outro. A costa oeste da Irlanda trouxe correntes violentas e ventos dominantes de oeste. Segundo Izabel, se o barco mantivesse o rumo sul do país, acabaria com “vento na cara” ou empurrado para a costa — onde a visita de uma embarcação russa em meio à guerra não seria lá muito bem-vinda.
Os refrescos vieram entre as ilhas de Zetland e Shetland, no Reino Unido. “Nunca escurecia de verdade. Chegava à noite, vinha o crepúsculo e depois mantinha-se a luz, como se o sol estivesse sempre ali por perto”, contou Izabel.


Mas, fazendo jus ao ditado “antes da tempestade sempre vem a calmaria”, a tripulação do Zvezda já esperava pelo que vinha à frente. Uma conexão rápida com a internet mostrou que uma tempestade chegaria em poucas horas. Sem mais detalhes, o sinal se esvaiu.
Entraram duas depressões que formaram um monstro. Ia ser por tudo. Ou a gente seguia, ou desistia. E navegando pelos mares do sul eu descobri uma coisa: os seres humanos são adaptáveis-relatou Izabel
Ela conta ter ouvido sons que se assemelhavam com vozes durante a navegação — e que durante aquele dia ficaram ainda mais intensos. O mar subia como uma muralha. O vento uivando. Um único golpe do mar levou as cartas e apagou o computador da tripulação.


“Esse barco se navegava com uma tripulação de nove pessoas. Não tínhamos o enrolador de vela, cada vez que mudava o vento tínhamos que subir e descer as velas estando apenas em dois. O barco não tinha uma estrutura para estar dentro, foi uma navegação muito molhada. Fazia bastante frio”, relembrou Juliano.
Muitos momentos de medo, de tensão. Muitas noites sem dormir. Mas tudo isso recompensado pela aventura e satisfação de poder realizar algo pessoal-complementou o velejador
Izabel conta da sensação de sentir o barco se agarrando na água “como se tivesse raízes”. O senhor de quase 100 anos, que tanto viveu, mostrava ali que era diferente dos outros. “Uma estabilidade absurda. Foi feito para sobreviver à guerra”, relembra.
Naquele momento eu entendi que não éramos nós segurando o barco. Era ele que segurava a gente-pontuou Izabel
Cortando esse momento de reflexão, um barco da guarda costeira se aproximou e tripulantes suecos subiram a bordo. Toni, então, entrou em ação. Seu papel foi bem desempenhado — ele conseguiu conversar com os rapazes, mas trouxe para a capitã um recado: seria necessário sair da rota dos navios.
Izabel, embora não contente, seguiu a orientação, mas o Mar do Norte logo mostrou porque é tão temido. O Zvezda, de repente, viu a profundidade sob o casco desaparecer. “Demos ré e saímos. Fiquei furiosa comigo mesma. Por pouco não morremos na praia”, contou.


De volta à rota dos navios, a tripulação viu pintar no horizonte uma ponte. Era a Ponte de Øresund, que liga a Suécia a Copenhague, na Dinamarca. Ali, as correntes que ligam o Mar Báltico ao Mar do Norte também revelaram o seu poder — e Juliano, no leme, mostrou que estava preparado.
Foram 22 dias até a chegada em São Petersburgo. Barco entregue.


O mini documentário “Entre duas Guerras”, compartilhado por Izabel Pimentel, retrata essa grande história (disponível abaixo). Alexey Semenov conta que tanto ele quanto todas as pessoas que se importam com o Zvezda “olhavam o rastreamento todos os dias”.
A alegria pelo retorno e as emoções que sentimos foram indescritíveis-destacou o russo
Próxima parada: Antártica
Não bastasse a aventura rumo à Rússia, Izabel Pimentel ainda colocará outro grande feito na lista que precede os seus 60 anos. As seis décadas serão comemoradas em alto-mar, em uma jornada até a Antártica. “Eu completo 60 anos em 11 de fevereiro e estarei em plena passagem do Drake”, disse ela já rumo ao continente gelado, em entrevista à NÁUTICA durante breve acesso à internet.
Vou completar meus 60 anos na latitude 60º. Vou dar um pulinho lá para ver os pinguins como presente de aniversário-brincou a velejadora
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