Cientistas encontram lixo em 77 de 84 recifes de corais estudados em pesquisa

Estudo conduzido por brasileiro mostra que plástico é o principal detrito encontrado, incluindo resíduos da pesca

18/07/2023
Foto: Tane Sinclair-Taylor / Divulgação

A quantidade de lixo em recifes de corais ao redor do mundo alcançou números surpreendentes. O brasileiro Hudson Tercio Pinheiro, do Centro de Biologia Marinha da USP, foi o responsável por conduzir a pesquisa que encontrou os detritos e ligou o alerta para essa questão.

Publicado na revista Nature, o estudo soma 1.231 análises subaquáticas, sendo que grande parte das imersões foram feitas na zona mesofótica, que fica entre 30 e 150 metros abaixo da superfície da água.

Foto: Luiz Rocha / Divulgação

Hudson passou seis anos visitando ecossistemas de recifes ao redor do globo. Ao todo, o pesquisador passou por 52 deles, sendo que outros 32 locais foram analisados por outros pesquisadores parceiros do brasileiro, no mesmo período, resultando em análises de lixo em recifes de corais de 14 países.

Incrivelmente, nós encontramos maior quantidade de lixo nos ambientes mais profundos. Isso não era esperado – Hudson Tercio Pinheiro, pesquisador

Alguns pontos podem explicar o motivo pelo qual uma grande quantidade de lixo foi encontrada em ambientes profundos. Nos recifes mais rasos, por exemplo, há maior ação humana para a remoção de detritos, assim como a força das ondas são capazes de levar o lixo tanto para o mar aberto, quanto para as profundezas do oceano.


O fato do plástico ficar preso nos corais da zona mesofótica — que forma a última barreira antes da acumulação no fundo do mar — também explica a maior quantidade de lixo no fundo do oceano, assim como o fato dos corais mais rasos crescerem rapidamente ao ponto de cobrirem parte da poluição.

Sempre ele: o plástico

Os cientistas encontraram lixo em 77 dos 84 recifes estudados, sendo o plástico o material mais abundante, somando 88%. Nesse percentual, predominam as embalagens plásticas.

Foto: Luiz Rocha / Divulgação

Das áreas pesquisadas, somente ao redor de Seychelles — país da África formado por ilhas no Oceano Índico, ao Norte de Madagascar — as embalagens não foram encontradas. No entanto, houve registros anteriores de lixo nesses locais.

Foto: Luiz Rocha / Divulgação

Há quem pense que os lugares mais remotos do planeta ficam de fora da estatística do plástico no mar, mas não é bem assim. Nos recifes das Ilhas Marshall, no Pacífico, foram encontrados de 581 a 1.515 itens de plástico por quilômetro quadrado. Comores, um arquipélago na costa Sudeste da África, teve a maior densidade de poluição, com cerca de 8.529 a 84.495 itens de plástico por quilômetro quadrado.

A pesca como ameaça

No meio de tanto lixo, alguns materiais se destacam por estarem presentes com frequência. Dos itens de plástico encontrados no mar, 73% eram oriundos da pesca: cordas, redes e linhas. Aliás, a “pesca fantasma” acontece justamente por conta desses itens que, enroscados nos corais, acabam capturando animais marinhos, que ficam presos.

Foto: Léo Francini / Divulgação

Segundo os pesquisadores, o acúmulo do plástico nos recifes de coral é estimado em pelo menos 11 bilhões de itens apenas nos recifes rasos da Ásia e do Pacífico. A previsão é que a poluição plástica aumente em 40% antes de 2025, sendo que os picos acontecem em locais próximos a populações humanas, com grandes mercados e áreas protegidas.

Foto: Luiz Rocha / Divulgação

Importância dos recifes de corais

Os recifes de corais são responsáveis por abrigar cerca de 25% da biodiversidade marinha e metade de todas as espécies conhecidas de peixes, mesmo que represente menos de 1% da cobertura do mar. Contudo, a poluição tem diminuído a capacidade dos recifes de abrigar animais marinhos e algas.

 

Além disso, devido à pouca luminosidade, os recifes mais profundos têm menor capacidade de recuperação, já que crescem de forma mais lenta. Para piorar, o plástico causa danos aos recifes, prejudicando ainda mais a sua recuperação.

 

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