Você sabia que os peixes estão “consumindo” medicamentos antidepressivos?

29/09/2024

Embora os antidepressivos ajudem milhões de pessoas, o efeito não é o mesmo quando essa substância contamina outras espécies. Segundo estudo publicado no British Ecological Society, os peixes já estão em contato com estes resíduos químicos — o que pode alterar o corpo, comportamento e reprodução sexual dos animais.

A pesquisa comandada por Upama Aich, Bob Wong e Giovanni Polverino estudaram os impactos do antidepressivo fluoxetina (mais conhecido pela marca comercial Prozac) em guppies machos. No experimento, 15 gerações e 3.600 peixes desta espécie foram expostos a níveis contaminados por resíduos farmacêuticos durante cinco anos.

Além de terem encontrado traços do antidepressivo nos peixes em águas doces — o que não surpreendeu os cientistas –, os resultados mostraram que mesmo pequenas doses da substância, comum em corpos d’água, prejudicam a saúde e a reprodução dos peixes.

 

De acordo com a pesquisa, a motilidade (movimentação) dos espermatozoides foi reduzida nos machos expostos, em comparação aos animais que não foram apresentados a resíduos de antidepressivos.


Como as guppies fêmeas são capazes de acasalar com múltiplos machos, os “espermatozoides de machos diferentes podem competir dentro da fêmea para fertilizar os óvulos”, segundo o estudo.

Motilidade espermática mais baixa pode, portanto, reduzir o sucesso reprodutivo de machos expostos à fluoxetina– disseram os pesquisadores no artigo

Consequências abrangentes

Feito para aumentar o nível de serotonina no cérebro e causar o sentimento de bem-estar e felicidade nos humanos, o antidepressivo Prozac tem efeito quase que inverso nos peixes. Outros estudos já apontaram que a fluoxetina pode tornar os guppies menos ativos — em todos sentidos.

Foto: Creative Commons/ Reprodução

Além disso, a substância química alterou o comportamento dos peixes, tornando-os menos capazes de ajustar suas ações em diferentes contextos. Na natureza, comportamentos previsíveis farão com que os guppies sejam alvos mais fáceis para predadores — que comprometeria sua sobrevivência.

 

Logo, esses efeitos comportamentais reforçam preocupações sobre como a poluição farmacêutica — mesmo que em pouca quantidade — pode impactar ecossistemas aquáticos. A pesquisa também ressalta a urgência de entender as consequências da substância nos ambientes a longo prazo.

Como o antidepressivo chega até os peixes?

Quando qualquer medicamento prescrito é consumido pelo paciente, seu corpo não absorve toda a substância. Logo, o resíduo é excretado na urina ou nas fezes. Em seguida, passa pelo vaso sanitário e continua para os cursos d’água e centros de tratamento de resíduo.

Entretanto, a substância permanece na água e as espécies marinhas absorvem esses poluentes. Nem mesmo nos centros de treinamento de resíduos — feitos justamente para eliminar os contaminantes — conseguem tratar o ecossistema e remover os restos farmacêuticos.

 

Sendo assim, a água ainda pode ser absorvida pelos peixes — como no caso dos antidepressivos. Para piorar, medicamentos vencidos ou não utilizados são frequentemente despejados no vaso sanitário, o que deixa a situação mais crítica.

Segundo especialistas, serão necessárias mais pesquisas para entender exatamente como esses poluentes podem prejudicar o ambiente aquático. Com mais resultados, teríamos mais respostas de como melhorar os padrões de monitoramento e diminuir — quiçá eliminar — os produtos químicos da água doce.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Jet de R$ 200 mil será destaque da Edy Jet's no São Paulo Boat Show

    Raptor Jet 20.5 será lançado no evento onde a marca também exibirá cascos expansores para motos aquáticas por a partir de R$ 45 mil

    Martine Grael relembra trajetória na vela em novo mini documentário disponível no YouTube

    Velejadora faz uma viagem entre os altos e baixos da carreira, passando por momentos de identificação própria, mudança de planos e até depressão

    Mil viagens movidas pelo sol: barco 100% elétrico solar revoluciona a navegação em Ilha Grande

    Idealizadores da embarcação pioneira em Angra dos Reis (RJ) revelam à Revista Náutica detalhes do processo de transformar barco a diesel em um totalmente movido a energia limpa

    Com o T36, Tank Boats estreia no mercado náutico durante o São Paulo Boat Show 2026

    Novo estaleiro firmou parceria com empresa sueca que testa e valida projetos navais. Primeira embarcação fabricada estará no evento

    Nova NX62 by Pininfarina será lançada no São Paulo Boat Show 2026

    Modelo de 60 pés promete recursos inéditos na categoria, inspirados em embarcações acima de 70 pés. Evento ocorre de 24 a 29 de setembro, no São Paulo Expo