Conheça o planalto que sofreu danos irreversíveis no fundo do mar

Extensão localizada no Sudeste dos Estados Unidos sofreu com a extração de minérios e jamais se recuperou do impacto

15/05/2025
Na década de 1980, o Serviço Geológico dos EUA marcou o local da Deepsea Ventures com aproximadamente 100 "blocos de pátio" de concreto, para ajudar a avaliar as condições ambientais da área. Um desses blocos foi avistado durante um mergulho, em 2019. Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research/ Divulgação

No campo da filosofia, o pensador pré-socrático Heráclito defendia a Teoria do Fluxo, em que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto a pessoa não já não seriam os mesmos. Entretanto, no Oceano Atlântico, quem visitar o Planalto Blake, de fato, não verá as mesmas águas de outros anos.

Localizado na costa da Carolina do Norte, Estados Unidos, a extensão repleta de criaturas brilhantes e curiosas carrega as cicatrizes de um experimento realizado há mais de 50 anos: o primeiro teste-piloto de mineração em alto-mar do mundo — e que não foi bem-sucedido.

Diagrama do sudeste dos Estados Unidos. Foto: NOAA/ Domínio Público

Em 1970, a empresa americana Deepsea Ventures usou uma máquina rudimentar — que funcionada no estilo de um aspirador de pó — para realizar a extração dos minérios no fundo do mar, numa região marcada por sulcos profundos (depressões alongadas e estreitas no leito oceânico).

 

Por um lado, foi um sucesso: a companhia recuperou 60 mil nódulos ricos em minerais — isso é, rochas compostas de níquel, manganês e colbato — que são requisitadas até hoje para aplicações tecnológicas. Por outro, porém, fracassou comercialmente e deixou um impacto ambiental irreversível.

Caranguejo-dourado, uma das quase 100 espécies de peixes de águas profundas identificadas nos Planalto de Blake. Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research/ Divulgação

Em 2022, cientistas voltaram ao Planalto Blake com um veículo operado remotamente no trecho onde a exploração foi realizada. Lá, ao invés de ameaça, encontraram algo mais assustador: o vazio. A área apenas lembrava o que tinha antes da mineração.


O que encontraram foram rastros surpreendentemente bem preservados na lama, que se estendem por mais de 43 quilômetros. Porém, uma simulação de mineração separada feita em 1989 mostrou que a biodiversidade do local permaneceu reduzida, com a vida microbiana se recuperando apenas parcialmente.

Só restaram lembranças

A microbiologista Samantha Joye e outros cientistas alertam que o ocorrido no Planalto Blake, pode servir de lição — no caso, do que não fazer — para regiões que agora são alvo de operações parecidas, como a Zona Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico.

Nódulos de manganês, objeto do teste piloto da Deepsea Ventures. Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research/ Divulgação

Segundo estudo publicado na revista científica Nature neste ano, os efeitos a longo prazo da mineração no fundo do mar são alarmantes na sustentabilidade. Na pesquisa, os cientistas analisaram uma região explorada em 1979 e concluíram que a área sofreu uma perturbação geológica definida como “duradoura”.

 

Os impactos biológicos são menos confiáveis e mensuráveis, pois alguns locais explorados tiveram recuperação da vida marinha, enquanto outros, não. Logo, esses casos sugerem que a recuperação da fauna de águas profundas é mais imprevisível e lenta do que o estimado.

Antes e depois do Planalto Blake

Uma impressionante cordilheira de águas profundas, o Planalto Blake apresenta impressionantes pilares da vida marinha, além de ser a cobertura com o maior habitat de recifes de corais em águas profundas da Terra. Joye, veterana no assunto, descreve o local como um dos mais diversos que já estudou.

 

 

Durante um mergulho, em 2018, a bordo do submersível de águas profundas, a microbiologista desceu mais de 2 mil metros e diz ter ficado encantada.

Trabalhei em todos os lugares e fiquei impressionada com o Planalto de Blake. É espetacularmente diverso– disse a cientista à BBC

Essa área é alimentada pela poderosa Corrente do Golfo e exibe ecossistemas oceânicos dinâmicos de sua superfície ao fundo do mar. Logo, as infiltrações de metano e corais de água profundas sustentam uma ampla diversidade de vida marinha.

Uma enguia-de-cusco nada no fundo do mar na área onde o Deepsea explorou. Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research/ Divulgação

Inclusive, peixes como o Atum, tubarões e outras espécies ameaçadas de extinção dependem de um Planalto Blake saudável. Afinal, as espécies marinhas ainda têm salvação — ao contrário do fundo do mar, totalmente esvaziado de minérios que nunca voltarão.

 

Enquanto a mineração subaquática ganha força em nome da transição para energia limpa, as cicatrizes — que nunca se fecharão — do Planalto Blake serve para nós como um alerta de que aquilo que tiramos pode nunca se recompor e a natureza pode jamais ser a mesma de antes, como diria Heráclito.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Martine Grael relembra trajetória na vela em novo mini documentário disponível no YouTube

    Velejadora faz uma viagem entre os altos e baixos da carreira, passando por momentos de identificação própria, mudança de planos e até depressão

    Mil viagens movidas pelo sol: barco 100% elétrico solar revoluciona a navegação em Ilha Grande

    Idealizadores da embarcação pioneira em Angra dos Reis (RJ) revelam à Revista Náutica detalhes do processo de transformar barco a diesel em um totalmente movido a energia limpa

    Com o T36, Tank Boats estreia no mercado náutico durante o São Paulo Boat Show 2026

    Novo estaleiro firmou parceria com empresa sueca que testa e valida projetos navais. Primeira embarcação fabricada estará no evento

    Nova NX62 by Pininfarina será lançada no São Paulo Boat Show 2026

    Modelo de 60 pés promete recursos inéditos na categoria, inspirados em embarcações acima de 70 pés. Evento ocorre de 24 a 29 de setembro, no São Paulo Expo

    Coral 26 com nova configuração será destaque do estaleiro no São Paulo Boat Show 2026

    Estaleiro apresentará 26 pés com o sistema de controle por joystick Helm Master EX, da Yamaha, e motor de popa com potência de 200 hp; evento vai de 24 a 29 de setembro