Sétimo sentido de golfinhos é descoberto: conheça a eletrorrecepção

17/01/2024

O sexto sentido é geralmente associado àquela sensação de “pressentimento” nos humanos. Nos golfinhos, contudo, esse “sentido a mais” é ocupado pela ecolocalização (depois do paladar, olfato, audição, visão e tato). Agora, chegou mais um para o espaço de nada menos que o sétimo sentido do golfinho-nariz-de-garrafa: a eletrorrecepção.

Essa habilidade recém-descoberta ajuda o animal de nome científico tursiops truncatus a caçar suas presas em espaços mais profundos do mar. Ela funciona como um “plus” da ecolocalização — que, por sua vez, permite à espécie detectar pequenos peixes a quase 100 metros de distância.

Mais animais podem ter o sétimo sentido

A busca pelo entendimento do sétimo sentido do animal começou ainda em 2011, quando um grupo de cientistas alemães descobriu que o golfinho costeiro — nativo do Atlântico Sul — era capaz de captar sinais elétricos. Parte da equipe que fez essa descoberta passou a acreditar que os golfinhos-nariz-de-garrafa também pudessem possuir a habilidade.

 

Segundo Guido Dehnhardt, diretor do Centro de Ciências Marinhas da Universidade de Rostock, na Alemanha — e um dos pesquisadores que associou a eletrorrecepção do golfinho costeiro ao golfinho-nariz-de-garrafa –, ambas as espécies seguem uma estratégia de alimentação bentônica, ou seja, comem peixes que vivem nas profundezas do mar.

Intrigado com o assunto, o pesquisador passou a investigar estudos com o golfinho-nariz-de-garrafa visando demonstrar que outros animais poderiam ter a mesma habilidade.

A eletrorrecepção não ocorre apenas numa espécie, mas é provavelmente uma capacidade da maioria das baleias com dentes– Guido Dehnhardt

Dehnhardt lembra que, em décadas passadas, as baleias cachalote — maior das baleias dentadas e o maior predador com dentes — sofreu com a presença de cabos submarinos no fundo do mar, quando dezenas delas morreram presas aos equipamentos.


A associação disso ao possível sétimo sentido do animal vem do fato de que as baleias cachalote também se alimentam de peixes do fundo do mar e, na busca por seu alimento, se deparavam com os cabos e acabavam morrendo.

Essa é uma primeira indicação da capacidade destes animais de perceber campos elétricos– Guido Dehnhardt

Atualmente, a morte do animal por consequência desse tipo de equipamento deixou de ser relatada. A explicação, segundo o pesquisador, é de que os sistemas telegráficos e telefônicos usavam cabos com núcleo de metal que geravam campos eletromagnéticos, o que explicava a atração das baleias — que acreditavam estar indo de encontro às suas presas.

 

Nos dias atuais, cabos de fibra óptica não geram mais esses campos no ambiente. É por isso que as cachalotes não se envolvem mais com eles.

Sétimo sentido é raro em mamíferos

A habilidade classificada para os golfinhos como “sétimo sentido” não é tão rara quanto parece. Na verdade, muitos peixes, raias, tubarões e alguns anfíbios também detectam campos elétricos de baixa intensidade.

 

Acontece que, entre os mamíferos — como os golfinhos e as baleias –, essa é uma habilidade considerada extremamente incomum. Tanto é que a ciência considera, além dos cetáceos, apenas dois mamíferos a possuir essa capacidade: o ornitorrinco e a equidna australiana — ambos monotremados, que põem ovos.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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