Brasileiros ganham “Oscar do Design” com urna para cinzas em forma de barco

09/03/2024

Lidar com a perda de um ente querido não é difícil apenas pela dor da partida, mas também por todas as burocracias que envolvem o momento para o qual ninguém está preparado. Como, então, tornar esse período menos doloroso, ou, ao menos, mais simbólico? Mauricio Noronha e Rodrigo Brenner tiveram uma ideia que rendeu a eles o “Oscar do Design”, com uma urna em forma de barco feita a base de fungos.

Muito além de um objeto para guardar cinzas, a urna sustentável em forma de veleiro e feita a base de fungos foi batizada de Sail (navegar, em português), e reúne “simbologia, poesia e bons negócios“, como definiu Rodrigo Brenner, um dos criadores do produto, à Forbes.

 

A junção desses três pontos rendeu a ele e ao colega Mauricio Noronha o iF Design Award de 2024, considerado o “Oscar do Design.”

Foto: Furf Design / Divulgação

Em colaboração com a startup Mush, fundada por cientistas de Ponta Grossa (PR), a dupla, eleita Forbes Under 30 em 2018, está à frente do Furf Design Studio, que há mais de dez anos cria artefatos que unem o apelo social às invenções sustentáveis — como o Sail — que, consequentemente, geram a eles bons negócios.

Foto: Furf Design / Divulgação

A urna em forma de barco é feita a base de micélio (massa formada por um aglomerado de filamentos de um fungo), uma matéria orgânica de origem renovável e biodegradável que, em poucos dias, se dissolve na água ou na terra, servindo, inclusive, como um fertilizante natural.

O veleiro simboliza uma viagem final leve e significativa, em completa harmonia com a natureza– definiu o iF Design Award

Foto: Furf Design / Divulgação

A criação da dupla se destaca não somente pela criatividade no sentido sustentável, como também no âmbito social. Isso porque o objeto é mais acessível que as urnas convencionais, e torná-la de fácil acesso era um dos pontos mais importantes para os dois.

Hoje, no Brasil, a maioria das urnas funerárias são feitas de metal ou de cerâmica, são muito caras (mais de mil reais) e, depois de espalhar as cinzas, na maioria das vezes no mar, elas se tornam inúteis– explicou Brenner à Forbes

A inspiração para o nome Sail, ou, em português, navegar, ressalta o simbolismo da obra, que tem como inspiração a frase do poeta Fernando Pessoa: “navegar é preciso.”

 

“Acredito que a urna tenha sido premiada justamente por isso: ela tem uma sensibilidade ambiental, emocional e também econômica”, completa Brenner.


Para garantir um futuro sustentável é necessário um compromisso global com a adoção de práticas que visem a preservação do planeta– Furf Design

Vale ressaltar que o iF Design Award é um prêmio alemão que acontece desde 1954, e é considerado um dos maiores e mais importantes do setor. São várias categorias, desde design de produto à arquitetura, design de interiores e User Experience (UX).

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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