Um novo recomeço: jovem que construiu barco aos 15 anos constrói sucessor após tragédia no mar
Primeiro veleiro artesanal de Maria Beatriz (Bibi) foi destruído em acidente que vitimou um amigo. Hoje, ela prepara um novo em sua memória


Depois de uma experiência traumática, há quem decida enterrar o passado e seguir sem olhar para trás. No entanto, também quem pense em encarar a realidade e dar a ela um novo significado — mais bonito e mais reconfortante. Pode até não parecer, mas esse é o começo da história de Maria Beatriz, a “Bibi”, e o seu veleiro artesanal, o Albacora 2.
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No começo deste ano, a jovem velejadora, no auge dos seus 20 anos, partiu para a construção do seu segundo veleiro artesanal, que, assim como o primeiro, terá 3,5 metros de comprimento e que, quando finalizado, promete desbravar as águas de Itajaí, em Santa Catarina. Tecnicamente, este não difere muito do número 1. Porém, emocionalmente, é um barco vindo do zero.
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Acontece que o Albacora 2 é o sucessor do “Albacorinha”, produzido por Bibi em 2021, quando ela tinha 15 anos. Assim como o segundo, o “primogênito” nasceu dentro da oficina de construção naval do projeto Paiol, da Associação Náutica de Itajaí. Por lá, já foram feitos mais de 127 barcos artesanais, todos por alunos que aprenderam, na prática, o processo completo.


Por mais próxima que fosse sua conexão com o mar desde criança, jamais havia passado pela cabeça dela a ideia de construir um barco, mesmo que de maneira amadora. Sua família tem uma ligação histórica com a pesca de atum e Maria sempre demonstrou um interesse especial pelo mergulho. Mas construção, propriamente, nada.
O convite para participar do Paiol veio como uma surpresa, pois um aluno havia desistido de uma vaga no curso, que já estava em andamento há quase um mês. Um dos professores da iniciativa, que era amigo em comum de sua tia, ofereceu o espaço remanescente para ela. Embora tenha sido completamente inesperado, a adolescente aceitou o chamado.
A minha tia chega de um dia para o outro e fala: ‘Vamos construir um barco’. Tu fala: ‘Calma, espera aí, como assim?– relembrou à NÁUTICA
Já dentro do projeto, a paixão pela vela, que antes era apenas uma sementinha no coração da jovem, começou a geminar. Ao conhecer histórias de velejadores que deram a volta ao mundo, como as de Amyr e Tamara Klink, e a mais recente travessia África-Brasil de Theodora Prado, o interesse ficou mais forte do que nunca.


“No início foi tudo muito novo. Nos deparamos com um maquinário mais pesado, ferramentas que a gente precisaria usar e um pouco perigosas”, lembrou Maria, sobre o começo dessa jornada. Ela não estava só, pois duas tias e uma equipe de instrutores a acompanhavam durante as aulas da oficina — para ajudá-la quando não estava confortável com algum equipamento.
Depois de passar boa parte de 2021 na construção deste modelo, ele ganhou as águas ainda naquele ano. Com o passar do tempo, o Albacora 1 tornou-se a sua fuga do restante do mundo.
Despedida de um amigo
Estava tudo bem. O Albacora navega perfeitamente pela região, todos os finais de semana, enfrentando qualquer condição climática, segundo Bibi. Para ela, o veleiro era a sua segunda casa e onde exercitava sua paixão pelo mar — principalmente pela vela, que nessa altura, já havia virado um amor permanente.


Porém, a história do barco terminaria de maneira breve e trágica. Durante uma navegação a bordo do Albacora, em setembro de 2025, um acidente no mar terminou com uma vítima fatal: Davi, um grande amigo de Maria Beatriz, que a ajudou na construção do veleiro.
O barco se foi nesse acidente, assim como Davi. Ela relembra que a embarcação e o amigo foram encontrados pelo resgate, quando seguia à deriva do mar e seu amigo já estava sem vida.


Veio a fase do luto, onde nada mais relacionado ao barco fazia sentido. Afinal, ele havia sido destruído e o trauma ainda continuava na cabeça. A jovem conta que pessoas próximas até tentaram convencê-la a voltar à rotina do Paiol, mas o choque ainda era bem recente.
Eu falei: ‘Não, vamos para outra história, barcos maiores (…) mas por agora eu não quero nada de vela’. Dei um tempo– contou Bibi
Segundo a velejadora, ela até ajudou um amigo a construir um outro veleiro, mas ainda não havia aquela vontade de retornar para a vela. Na verdade, o mais provável era que a garota desistisse. Até que Edu, seu primeiro professor de vela, jogou a pressão para o lado da garota: “ele me disse ‘se tu desistir, eu desisto também’, só que ele tem a vela como profissão”.
O tempo passou e, alguns meses depois, com incentivo de amigos e da família, ela foi retomando o costume de velejar — com direito à sua primeira Regata Internacional Recife/Fernando de Noronha (Refeno), em 2025. Mas ainda faltava uma motivação maior para Bibi voltar, de fato, a colocar a mão na massa. E ela veio.


Renato, outro professor e instrutor de vela, falou a Bibi que estava com a vela do Albacora 1, recuperada em meio aos destroços após o acidente, em sua casa. “Eu havia decidido no dia anterior que não voltaria para aula. Estava todo mundo botando pilha para eu fazer outro, mas eu não queria”, afirmou à época. Até que ela mudou de ideia.
Mas quando ele [Renato] me falou da vela, foi que eu decidi fazer o segundo, mas com outro sentido– contou à NÁUTICA
Um novo rumo
O aparecimento da vela de seu antigo barco foi bastante simbólico para Bibi. Foi o sinal que a garota precisava para seguir em frente e voltar a mexer com resina, madeira e aqueles maquinários pesados. Porém, esse novo projeto, uma continuação representativa do Albacorinha, teria um outro significado.


Como uma forma de processar o luto, ela decidiu recomeçar para dar continuidade a uma história interrompida e homenagear seu amigo. A partir de então, nascia o Albacora 2, que seria produzido com um novo sentido: um tributo a Davi.
Porque, pensando melhor, conversando também com os pais do Davi, ele não iria querer que eu terminasse ali– refletiu a jovem
Sendo assim, a decisão estava tomada. Mas, dessa vez, ela optou por uma “construção compartilhada”, levando convidados toda semana para que mais pessoas “colocassem a mão na massa” e sintam que fizeram parte de cada detalhe do veleiro.


O parceiro fixo de todas as construções na oficina é seu pai, construtor naval de formação. Juntos, eles trabalham no projeto do Albacora 2 todas as terças e quintas-feiras, das 19h às 21h. Por enquanto, o barco consiste apenas em peças e chapas de compensado, ainda longe do formato de veleiro, mas já com um prazo para ficar pronto: 12 de dezembro.
“É um evento muito bacana o batismo do barco, onde ele vai para a água pela primeira vez. Até me arrepio de falar porque é muito legal. Já participei de 4/5 batismos e todo ano parece que é o primeiro”, confessou sem esconder a empolgação.


Diferentemente da primeira vez, essa jornada não ficará apenas em algumas fotos. Para que todos acompanhem cada etapa dessa rotina, ela criou plataformas para o projeto “Maria Ao Vento”, com direito a site oficial, perfil no Instagram, no TikTok e canal no YouTube.
Nessas plataformas ela divulga, diariamente, o passo a passo na construção do Albacora 2, com dicas, perrengues e os bastidores do processo. Como explicado na entrevista, a ideia é desmistificar a vela como algo inacessível, mostrando que todos podem começar com um pequeno barco feito à mão.


No entanto, Bibi relata que é muito difícil realizar as tarefas e gravar ao mesmo tempo, especialmente quando está com as mãos cheias de resina, o que a impede de tocar no celular ou na câmera. Porém, nada que tenha atrapalhado a experiência.
O público tem gostado bastante, tem muita gente curiosa– contou Maria
“A construção comunitária é muito especial. Recebi amigos para ajudar e eles saíram fascinados. O trabalho manual é como uma terapia, tu foca ali e a tua mente fica sem turbulências”, afirmou a velejadora.


Não tem uma parte do barco que tu não passe a mão. Tu conhece teu barco de verdade– disse Bibi
O maior objetivo desse projeto é que as pessoas entendam cada processo e trazer gente para a náutica. “Este ano já temos um aluno que veio pelo meu Instagram”, disse Maria. “Decidi documentar tudo na internet para mostrar que a vela não inicia nos 40 pés”, completou.
Apenas o começo
Depois de construído, ela pretende velejar intensamente com o novo barquinho, da mesma forma que fazia com o primeiro. Além do lazer, Bibi planeja participar de regatas próximas em Santa Catarina, como a regata de volta ao mundo The Ocean Race — que acontecerá em 2027 e 2031 em Itajaí.


Contudo, aqui entra um sonho que transcende os 3,5 metros de comprimento do Albacora. Embora, reconheça o valor da construção naval, seu foco atual é a viagem. Pensando nisso, futuramente, Maria Beatriz sonha em dar uma volta ao mundo em solitário, assim como Amyr e Tamara Klink.
Quero fazer travessias sozinha como a do Atlântico que a Theodora fez há pouco– destacou
“Pretendo comprar um barco maior. Eu tenho uma meta de que tenho que sair para dar minha volta ao mundo até os 30 anos. Então eu tenho 10 anos para me programar”, sonha a velejadora, que conta com o apoio da família nessa missão.


Enquanto almeja explorar o mundo, a jovem velejadora continua com os pés no chão. No momento, o foco é finalizar o Albacora 2 e, acima de tudo, passar uma mensagem importante por meio da oficina.
Precisamos ser mais ativos e interessados nessas atividades que trazem saúde mental. Hoje não temos tempo de tédio, então acho legal essa parte da construção que me faz esquecer o mundo lá fora– compartilha Bibi
Seja em Itajaí ou nas redes sociais, a jornada continua.
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