Cocô de baleia pode ajudar vida marinha e combater aquecimento global

Estudo descobriu como os dejetos do animal colaboram com os fitoplânctons, base da cadeia alimentar marinha

05/03/2025
Foto: wirestock/ Envato

Um grupo de pesquisadores de diversas universidades americanas realizou uma descoberta, no mínimo, curiosa, do ponto de vista científico. Segundo o estudo, o cocô das baleias de barbatana tem um papel vital nos oceanos e colabora na conservação do ecossistema.

Os dejetos produzidos pelas baleias em questão ajudam na reciclagem de nutrientes nos oceanos, um serviço ecossistêmico crucial que foi drasticamente afetado pela atividade humana. Eles funcionam como um verdadeiro “adubo” para o mar, visto que fornece nutrientes essenciais para o fitoplâncton, a base da cadeia alimentar.

Foto: wirestock/ Envato

De acordo com a pesquisa, nas fezes destes animais pode ser encontrado ferro, elemento fundamental — e escasso — no mar. Ao expelir seus dejetos na superfície do oceano, esses nutrientes atingem as áreas de concentração de fitoplâncton, fertilizando as águas e estimulando seu crescimento.

 

A pesquisa também confirma a concentração de cobres dissolvidos, elemento vital para a vida marinha, mas que pode se tornar prejudicial em excesso. Porém, os cientistas identificaram ligantes orgânicos que se ligam a esses metais e o tornam mais “acessíveis” para o fitoplâncton.

Os resultados detectaram ferro presente em todas as amostras de cocô das baleias jubarte e azul. Por conta disso, Patrick Monreal, estudante de doutorado em oceanografia e autor principal da pesquisa — publicada na Communications Earth & Environment — exaltou o papel dos animais na conservação dos mares.

Acho que os animais desempenham um papel maior nos ciclos químicos do que muitos especialistas lhes dão crédito, especialmente quando pensamos na escala do ecossistema– Patrick Monreal

Na pesquisa, foram analisadas cinco amostras de fezes, com duas sendo de baleias jubarte no Oceano Antártico e três baleias-azuis, na costa central da Califórnia.

O paradoxo do krill

Essa descoberta casa com uma contradição do mundo marinho — mas que agora faz mais sentido. O krill, pequeno animal parecido com um camarão, é uma das presas favoritas das baleias, devido ao seu tamanho pequeno, abundância, disponibilidade e valor nutricional.

Foto: Image-Source/ Envato

Porém, após a intensa caça de baleias no século 20, a população das baleias caiu drasticamente. Logo, isso significa que, com menos baleias, existiriam mais krills — visto que eles vivem para ser devorados por elas — , certo? No entanto, o que se descobriu foi o contrário.

 

A biomassa de krill diminuiu drasticamente, especialmente no Oceano Antártico, onde a caça de baleias foi mais intensa. Ou seja, se o predador sumia, a presa também. E o estudo realizado recentemente, por consequência, dá força à teoria mais aceitada para este paradoxo.

Uma representação das interações (A) pré-caça às baleias e (B) pós-caça às baleias fitoplâncton-krill-baleia no Oceano Antártico. Foto: Communications Earth & Environment/ Divulgação

Com a redução drástica dessas espécies, a quantidade de nutrientes reciclados no mares diminui — já que temos menos cocô de baleias nas superfície do oceano — , que afeta produtividade do fitoplâncton e, consequentemente, a disponibilidade de alimento para o krill.

A hipótese é que as baleias estavam, na verdade, adicionando nutrientes ao ecossistema que esse fitoplâncton conseguia usar, então eles floresceriam mais e o krill poderia comê-los– Randie Bundy, professor assistente de oceanografia e autor sênior do estudo

Obrigado, baleias

Por sua vez, o fitoplâncton desempenha um papel importante na regulação do clima — tanto marinho quanto global. Ele absorve dióxido de carbono (CO2) da atmosfera durante a fotossíntese.

Foto: imagesourcecurated/ Envato

Ao promover o crescimento deste organismo, o cocô das baleias também contribui para a remoção de CO2 na atmosfera e combate os efeitos do aquecimento global.

 

O estudo ainda destaca como a caça de baleias reduziu em mais de 90% a capacidade desses animais de fertilizar os oceanos, que causou impacto negativo nos processos de sequestro de carbono e na produtividade primária.

 

Por fim, a pesquisa diz que a caça excessiva da megafauna marinha desencadeou grandes mudanças nos oceanos, e as consequências delas são de longo alcance para nós e para os animais.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    9 barcos: Mestra Boats aposta em diferentes tamanhos e layouts para o São Paulo Boat Show

    Estaleiro apresentará modelos dos 19 aos 35 pés no salão náutico que acontece de 24 a 29 de setembro, no São Paulo Expo

    Mulheres se destacam como líderes e gestoras em atividades da economia do mar 

    "A Náutica Por Elas: Eventos, Estaleiros, Marinas e Planejamento Estratégico" foi o assunto do sétimo painel do 2º Fórum Náutico Internacional da ANB

    Projeto Sailing Sense abre vagas no curso de vela para cegos e prepara velejadores para disputar o Mundial

    Aulas gratuitas acontecem no Yacht Club Paulista, às sextas-feiras. Saiba como se inscrever!

    Especialistas chamam atenção para a importância de envolver as comunidades em ações de gestão costeira

    Painel do evento reuniu representantes do poder público e pesquisadores para discutir governança territorial, preservação ambiental e potencial econômico do turismo de praia

    Pearl Jam leiloa pôster autografado de show histórico em apoio à pesquisa de orcas

    Ação visa arrecadar fundos para o Center for Whale Research, organização que há 50 anos se dedica ao estudo e à conservação da espécie