Ilhabela deve ganhar 1ª usina de dessalinização de água de São Paulo em 2026

14/06/2024

Considerada um dos únicos municípios–arquipélagos marinhos brasileiros, Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, reserva belezas naturais que impressionam ao primeiro olhar. Por lá, a ideia agora é construir a primeira usina de dessalinização do estado, visando abastecer cerca de 8 mil moradores de regiões remotas da cidade a partir de 2026.

Atualmente, segundo o Instituto Água e Saneamento, 69,6% da população de Ilhabela (com cerca de 35 mil habitantes) é atendida com abastecimento de água, enquanto a média do estado é de 96,6%.

 

A cidade ainda chega a receber 100 mil turistas na alta temporada, sendo um dos principais destinos do litoral paulista. Com a chegada de uma usina de dessalinização, esses dados devem mudar.

Foto: Ana Paula Hirama / Flickr / Reprodução

Através do projeto, a ideia é aumentar em 22% o volume atual de água tratada em Ilhabela, a partir da captação da água do mar. O projeto prevê a produção de 30 litros por segundo de água potável para a população, volume semelhante ao já praticado no arquipélago de Fernando de Noronha.

 

Em Noronha, há 20 anos a população conta com o consumo da água do mar, a partir de dessalinizadores que produzem 27 m³ de água por hora. Em 2014 houve ainda a construção de uma nova usina, aumentando a capacidade para 80 m³ por hora.

Para que o projeto tome forma também em Ilhabela, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) publicou um edital convocando empresas interessadas em construir no município o que seria a primeira usina de dessalinização do estado.

Como vai funcionar a usina de dessalinização em Ilhabela

A previsão é que a usina de dessalinização comece a operar em Ilhabela a partir de 2026, próximo à foz do Ribeirão Água Branca. O processo de osmose reversa, que deve ser aplicado na usina, é usado internacionalmente e traz uma tecnologia já amplamente empregada em locais como Dubai, Israel e na Califórnia, nos Estados Unidos.

Layout da dessalinizadora de Ilhabela, proposto em edital. Foto: Reprodução

Nessa tecnologia, a água é submetida à alta pressão e passa por membranas que retêm as partículas de sal, após passar por um outro processo: o de ultrafiltração — que retira as partículas e impurezas da água. Assim que o sal é retirado, o líquido é submetido a um tratamento que visa devolver os componentes minerais perdidos no processo anterior.

Antes de ser distribuída, a água passa também pelo processo de cloração, que, segundo a Fundação Nacional de Saúde, “consiste em utilizar produtos químicos à base de cloro, com o objetivo de inativar os micro-organismos patogênicos existentes na água”. A salmoura resultante do processo, por sua vez, é diluída e devolvida ao mar.

 

Para, enfim, chegar à população, a água já tratada deverá ser transportada para um reservatório na própria Estação de Tratamento de Água (ETA) Água Branca.


Ao Estadão, Kepler Borges França, coordenador dos Laboratórios de Referência Nacional em Dessalinização e de Membranas Cerâmicas da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, disse que “o sistema de membranas para dessalinização pode ser usado não apenas nas ilhas, mas nas cidades do litoral que têm problemas de abastecimento”.

Entendo que toda a rede hoteleira da costa deveria ser abastecida com água do mar dessalinizada. É um processo barato, e que hoje vem sendo usado com mais frequência– destacou Kleper ao Estadão

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

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    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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