Mergulhadores chegam ao fundo de buraco azul do Caribe pela 1ª vez

Equipe explorou a região a bordo de submarino, chegando a 274 metros de profundidade

05/02/2024
Foto: Youtube Geologyscience / Reprodução

Levando em conta que pouquíssimo se sabe sobre que tipo de criaturas se escondem nas profundezas do mar, mergulhar em um gigantesco buraco azul no meio do oceano não parece ser lá uma boa ideia. Contrapondo tudo isso, mergulhadores enfrentaram a aventura de ir pessoalmente averiguar o que há dentro do segundo maior buraco azul do mundo.

Batizado de Taam ja‘ (que significa “águas profundas”, na língua maia) e também conhecido como “Grande Buraco Azul”, essa cratera tem nada menos que 274 metros de profundidade, cobre uma área aproximada de 13.690 m² e representa uma das maiores incógnitas da América Central.

Foto: Youtube Geologyscience / Reprodução

Próximo à fronteira entre o México e Belize, em frente à Península de Yucatán, no mar do Caribe, os segredos escondidos nas profundezas do buraco foram revelados por mergulhadores em 2018.

 

Essa história, contudo, começa com Jacques Cousteau, ainda em 1960. O cineasta, oceanógrafo francês e ex-oficial da Marinha Francesa foi o responsável por tornar o Taam ja’ famoso no mundo todo. Ele próprio, contudo, nunca mergulhou nas profundezas da cratera oceânica, mas deixou essa missão para seu neto Fabien, que enfrentou o desafio ao lado do bilionário proprietário do Virgin Group, Richard Branson.

Foto: Youtube Geologyscience / Reprodução

Seis anos atrás, os dois viajaram para o fundo do Taam ja’ a bordo de um submarino e, à medida que a embarcação avançava, novas descobertas iam surgindo quase que instantaneamente.

O que há dentro do buraco azul do Caribe?

Durante a descida pelo buraco azul, não demorou para que a água começasse a escurecer e uma camada de sulfeto de hidrogênio (gás incolor, de cheiro desagradável, extremamente tóxico e mais denso do que o ar) pairasse sobre o submersível.

 

Aos poucos, a vida marinha bacteriana, de peixes e algas foi perdendo sua força e desaparecendo.

 

O que se seguiu logo após não supera o que veio no final, mas intrigou grandemente os mergulhadores: estalactites. Isso porque esse tipo formação rochosa sedimentar é mais comumente encontrada em ambientes terrestres, principalmente no teto de cavernas.


A poucos metros do solo, os mergulhadores se depararam, infelizmente, com lixo produzido por seres humanos — no caso, uma garrafa de vidro de dois litros e uma câmera do tipo GoPro.

 

Apesar de se surpreenderem com o alcance da poluição do mar, isso não chegou nem perto do que veio a seguir: dois corpos humanos.

 

A dupla de mergulhadores não mexeu nos corpos, mas informou o governo de Belize sobre sua existência. Acredita-se, até então, que se tratavam de dois mergulhadores que não conseguiram emergir.

Buracos azuis ainda são um mistério

Diferentemente das trincheiras marinhas, que resultam do movimento das placas tectônicas e podem atingir até 11 mil metros de profundidade, os buracos azuis formam-se gradualmente devido à entrada e saída de água salgada em solo de rocha calcária. O maior deles, chamado The Dragon Hole, está em Sansha Yongle, na China, com uma profundidade de 300 metros.

 

As informações do Taam ja’ as quais temos acesso atualmente (como tamanho, profundidade e etc) se devem a um estudo realizado em setembro de 2021, através de uma expedição ao buraco azul feita em conjunto por estudiosos e um pescador local, chamado Jesus Artemio Poot Villa.

 

Essa exploração submarina, no caso, foi realizada através de eco sondagem, perfis termohalinos, análise química de amostras de água coletadas e mergulho autônomo, que levaram os estudiosos à primeira documentação do local — mesmo sem irem até as profundezas da cratera oceânica.

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.