Pesquisadores acham lula-vampiro que morreu devorando presa há 183 milhões de anos

Fóssil de animal hoje extinto mostra que seu fim aconteceu enquanto caçava dois peixes

07/03/2024
Lula-vampiro-do-inferno, a única viva da espécie atualmente. Foto: Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI)/ Divulgação

Era uma vez, no fundo do mar, uma lula-vampiro que nadava tão distraída em busca de suas presas, que acabou se afundando numa região sem oxigênio. Fruto de seu descuido, o pobre animal se sufocou, e hoje o único registro que temos dele é um fóssil congelado nas profundidades do oceano.

Essa história realmente aconteceu há 183 milhões de anos, mas o único vestígio desse animal só foi descoberto recentemente. Segundo estudo publicado no Swiss Journal of Paleontology, um fóssil em Luxemburgo revela informações sobre a evolução da lula-vampiro-do-inferno — sim, esse é o nome.

Foto: Swiss Journal of Palaeontology/ Divulgação

Um trio de paleontólogos na Alemanha encontrou a forma fossilizada da lula-vampiro preservada em calcário da era Jurássica, em Bascharage. De acordo com os cientistas, trata-se de uma espécie nova, porém extinta, chamada de Simoniteuthis michaelyi.

 

O fóssil descoberto mede 38 centímetros (15 polegadas) de comprimento, e ainda contém vestígios de estruturas de tecidos moles, incluindo globo oculares e tecido muscular. Segundo a pesquisa, a morfologia deste animal é intermediária entre as famílias Loligosepiidae e Geopeltidae.

Foto: Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI)/ Divulgação

Atualmente, há apenas uma espécie da lula-vampiro nos mares: o Vampyroteuthis infernalis — conhecido também como lula-vampiro-do-inferno. Com pele vermelha escura e olhos também avermelhados, não seria exagero afirmar que este bicho realmente tem uma aparência diabólica.

Uma raridade no fundo do mar

Comparado com outros fósseis de “vampimorfos” encontrados no Jurássico, inclusive aos desenterrados no mesmo depósito de xisto próximo de Luxemburgo, o vestígio encontrado conta com “apenas” oito braços, compostos por quatro pares — outros costumam ter cinco ou quatro com um “quinto par” rudimentar.

Foto: Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI)/ Divulgação

No momento, a falta de mais dados impedem os paleontólogos de concluírem o motivo da inexistência deste quinto par. Entretanto, a espécie mais recente pode ser uma parte importante da linha do tempo, e o análogo mais próximo até agora dos seus parentes vivos.

 

Outro fator importante é o fato que fósseis deste calibre raramente sobrevivem por muito tempo. Isso justifica o motivo dos melhores restos já encontrados terem sido quando o oxigênio nos oceanos ainda era relativamente escasso, como há 183 milhões de anos.

 

Por isso, as condições hipóxicas (em que não chega oxigênio suficiente às células e tecidos do corpo) impedem a decomposição, além de evitarem que eles sejam consumidos por animais, segundo o portal Science Alert.

Diferente dos iguais

Por incrível que pareça, a lula-vampiro não é, de fato, uma lula. Eles podem ser definidos como pequenos cefalópodes, intimamente relacionados aos polvos — e realmente se assemelham. Porém, seus oitos braços ligados por uma teia de pele criam uma pequena “rede de pesca” única.

Foto: Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI)/ Divulgação

A presença de dois peixes ósseos na área sugere que Simoniteuthis michaelyi atacava em águas profundas no momento do seu congelamento. Em contraste com a lula-vampiro-do-inferno, o antigo costumava caçar em águas mais rasas, comportamento típico de “vampimorfos” da linhagem troca mesozóica.

 

Segundo os cientistas, é possível que tenha ocorrido uma migração vertical — ou seja, para águas mais profundas. Eles associam esse movimento a uma mudança no comportamento alimentar, que se iniciou no Oligoceno (entre 36 milhões e 23 milhões de anos).

O triste fim da lula-vampiro

O descuido que levou a única espécie Simoniteuthis michaelyi a sucumbir tem nome: afundamento por distração. Faminta, a lula-vampiro perseguia dois peixes até morrer sufocada de tamanha profundidade que alcançou, mas morreu abocanhando sua última refeição.

Foto: Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI)/ Divulgação

Tanto é que os restos mortais de dois peixes foram encontrados no fóssil, situados perto da boca, entre dois globos oculares acinzentados. Sendo assim, a desatenção custou a vida deste animal, e a última lula-vampiro desta espécie está destinada a agarrar sua última presa para a eternidade.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

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