Amazônia Azul é responsável por 20% do PIB do Brasil, aponta pesquisa
Os mares acabam de dar mais uma resposta sobre sua importância na economia do Brasil. As atividades econômicas relacionadas ao oceano e regiões costeiras do país, chamada de “Amazônia Azul”, são responsáveis por cerca de 20% do PIB nacional — além de oferecer vários serviços essenciais.
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É isso que diz um documento elaborado por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), em parceria com representantes de comunidades indígenas e outros grupos ligados ao oceano.


Com extensão litorânea superior a 10 mil quilômetros — equivalente a distância entre Los Angeles (Estados Unidos) e São Paulo — e área marinha de 5,7 milhões de km — que mede dois terços do território continental — , o Brasil é um dos principais países oceânicos do mundo.
Um fator que colabora com a economia marinha é a movimentação comercial que envolve as capitais litorâneas — como Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Recife e Florianópolis. Assim, 20% do PIB vem da zona marinho-costeira, impulsionado por pesca, aquicultura, navegação, mineração e turismo.
A economia do mar definitivamente contribui para o bem-estar da nação brasileira e é bastante diversificada– Beatrice Padovani Ferreira, Departamento de Oceanografia da UFPE
Vale destacar que 18% da população do país vive na faixa litorânea, que concentra dezenas de capitais de estados. Por envolver um extenso trecho do Brasil, serviços essenciais como alimentos, água, energia, proteção da costa e regulação climática esquentam o mercado dessa região.
Para Beatrice, a porcentagem do PIB traz vantagens além da geração de empregos, que acabaram não sendo mensuradas no documento, por não considerar benefícios como bem-estar, lazer e conexões espirituais.
Amazônia menos azul
Entretanto, o documento contou com dados preocupantes — ou até mesmo, a ausência deles. Como é o caso do descontrole da pesca no Brasil: desde 2008, não há coleta de dados oficiais sobre atividades pesqueiras. Não se sabe o que, quanto, como e onde se pesca em águas brasileiras.


A pesquisa também aponta uma grande lacuna de conhecimento sobre o oceano no Brasil. Segundo o diagnóstico, as políticas públicas para sua conservação e uso sustentável são insuficientes, sem contar as mudanças climáticas que podem afetar a biodiversidade e a qualidade ambiental.
Os cenários futuros indicam intensificação dos vetores de mudança e consequente perda de biodiversidade e qualidade ambiental, com destaque para as mudanças climáticas e seus efeitos cumulativos sobre a zona marinho-costeira– José Luís Menezes Turra, professor da IO-USP
Outros dados sobre a pesquisa devem ser publicados apenas na metade do ano que vem — em junho de 2024 — , que é quando sai a versão completa do diagnóstico, composta por seis capítulos.
O que é a Amazônia Azul?
Com 7,4 mil quilômetros de costa, o país tem 3,5 milhões de km² de espaço marítimo sob sua jurisdição. Assim, apenas o Brasil pode explorar economicamente esta área que, por conta das riquezas naturais e minerais abundantes, ganhou o nome de Amazônia Azul.


Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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