De Graciliano Ramos a Madame Satã: barco que levou presos icônicos amarga abandono no Rio

Embarcação Tenente Loretti foi essencial para a construção do "Caldeirão do Inferno". Reforma é aguardada desde 2014

08/08/2025
Foto: Portal Ilha Grande / Reprodução

Um pedaço da história do Brasil está abandonado em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Trata-se da embarcação Tenente Loretti, que, entre tantos feitos, transportou presos políticos influentes ao “Caldeirão do Inferno” (antigo presídio de Ilha Grande), como o romancista Graciliano Ramos e o assaltante Madame Satã.

O abandono do barco é fruto de promessas que nunca saíram do papel. Não faltam notícias anunciando que a embarcação, finalmente, seria restaurada para se tornar um museu — o que nunca aconteceu. Sua história, porém, é daquelas que a fazem viva mesmo no abandono.

A brava Tenente Loretti

Construído em 1910 e com 19 metros de comprimento, esse barco cargueiro de madeira era à época pertencente à Marinha do Brasil, para quem prestava suporte aos faróis e faroleiros da costa e ilhas do estado do Rio.

Tenente Loretti após ser retirada do fundo do mar, em 2014. Foto: TurisAngra / Reprodução

Em 1937, a Tenente Loretti foi doada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro e transferida para Ilha Grande, onde atuou no transporte de materiais e mantimentos para a construção da então Colônia Penal de Dois Rios.

 

Mais tarde batizado de Instituto Penal Cândido Mendes, o local ficou popularmente conhecido como “Caldeirão do Inferno” devido às cenas de violência, onde presos comuns e políticos conviviam e se organizavam — foi lá, inclusive, que nasceu a famosa facção “Comando Vermelho”. O “Caldeirão” foi desativado e implodido em 1994, com ruínas presentes até hoje em Ilha Grande.

O Instituto Penal Cândido Mendes atualmente. O local briga o Museu do Cárcere, que expõe objetos e histórias relacionadas ao sistema prisional de Ilha Grande. Foto: TurisAngra / Reprodução

Na década de 70, o Loretti foi transferido da Administração Penitenciária para o Corpo Marítimo de Salvamento (corporação marítima do Corpo de Bombeiros), recebendo a sigla L-37.

Tenente Loretti transportou presos políticos e nomes icônicos do crime

Embora de nome novo, a embarcação seguiu baseada na Vila do Abraão, bairro mais importante de Ilha Grande, servindo ao presídio com viagens quase diárias entre Ilha Grande e Mangaratiba.

 

Além de levar turistas e moradores, o barco constituiu parte relevante da história do país, transportando soldados, mantimentos, combustíveis, máquinas, equipamentos e, principalmente, presidiários.

Em 2013, Fernando Gabeira gravou um programa para a TV a bordo da Tenente Loretti. Foto: Arquivo PMAR / Reprodução

Entre os presos famosos transportados pelo Tenente Loretti ao Caldeirão do Inferno estão o romancista e jornalista Graciliano Ramos; e o jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira, ambos presos políticos.

 

Passaram ainda pelo barco o assaltante João Francisco dos Santos, transformista brasileiro conhecido como Madame Satã; o contraventor Castor de Andrade, tido como o maior bicheiro brasileiro; José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, famoso por fugir do presídio de helicóptero; e Lúcio Flávio, criminoso que teve sua história como tema de livros e filmes, incluindo “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, de José Louzeiro.


Anos de abandono

Nos seus últimos anos de operação, o Loretti seguiu servindo ao Corpo de Bombeiros em missões de salvamento e resgate nas costas de Ilha Grande. Em 2006 o barco foi aposentado, sendo transferido, em 2011, para a Prefeitura de Angra dos Reis. À época, a embarcação ainda flutuava, mas já estampava sinais da falta de manutenção atracada no cais Santa Luzia, no centro de Angra dos Reis.

Foto: Arquivo PMAR / Reprodução

A embarcação chegou a naufragar em março de 2014. No entanto, com o apoio do empresário Bráulio Gaspar de Oliveira, da MMA Transportes e Serviços Marítimos, foi retirada do fundo do mar com a ajuda do Corpo de Bombeiros e de funcionários da Fundação de Turismo de Angra dos Reis (TurisAngra).

 

A promessa, já naquela época, era de que a embarcação iria para um estaleiro, onde seria restaurada para ser transformada em museu — o que nunca aconteceu.

 

De lá para cá, ano após ano, uma nova “reforma” é anunciada, inclusive pela Prefeitura de Angra dos Reis, mas nunca chega a sair do papel. Não à toa, atualmente o barco segue abandonado no antigo estaleiro Verolme, também em Angra. Lá repousa um pedaço da história do Brasil, respirando por aparelhos, mas ainda na esperança de receber seu lugar ao sol.

 

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