Já na metade do caminho, espanhol Álvaro de Marichalar pretende dar volta ao mundo de jet

Desafio visa celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação marítima, além de chamar atenção para poluição dos mares

17/03/2024
Foto: Arquivo Pessoal

Em homenagem aos navegadores Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano, o espanhol Álvaro de Marichalar pretende dar uma volta ao mundo a bordo de um jet, que o aventureiro chama de “meu pequeno barco” — e ele já está no meio do caminho.

Ex-piloto de caça na Força Aérea da Espanha, o empresário e aristocrata Álvaro de Marichalar teve de abandonar a aviação quando tinha 30 anos de idade, em consequência de um acidente de carro. Desde então, passou a dividir as atividades de empreendedor nos setores imobiliário e de telecomunicações com a de navegador e aventureiro.

Foto: Arquivo Pessoal

Sempre a bordo de motos aquáticas, a sua paixão, em 30 anos ele realizou 40 expedições marítimas e estabeleceu 14 recordes mundiais. Em 2002, por exemplo, cruzou o Oceano Atlântico em 17 dias, 1 hora e 11 minutos, a bordo de um Sea-Doo bimotor. Nenhuma aventura foi tão desafiadora, porém, quanto a atual: uma volta ao mundo completa, em solitário, sobre um jet. E que jet!

 

“Meu pequeno barco (não gosto do termo “jet”) é um Sea-Doo, montado em Querétaro, no México, com muitas modificações. Tem, por exemplo, dois tanques de combustível adicionais, que permitem atingir um alcance de até 300 milhas náuticas”, conta o explorador, que batizou a moto aquática de Numancia, nome em homenagem a uma pequena cidade ibérica que não se rendeu ao Império Romano, 23 séculos atrás.

 

Só isso? Não. “Pintei o casco com tinta do fabricante norueguês Jotun, para garantir a estanqueidade da fibra de vidro, e instalei o sistema AIS. Além disso, meu barquinho de 11 pés tem luzes de navegação, para poder navegar à noite (o que faço com muita frequência), dois rádios de comunicação, duas bússolas e dois GPS, entre outros componentes extras”, acrescenta Álvaro.

Foto: Arquivo Pessoal

O objetivo da expedição é celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação marítima — iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães e concluída em 1522, por Juan Sebastián Elcano. “Vamos comemorar fazendo a mesma viagem ao redor do mundo”, explica ele.

 

Ao mesmo tempo, o piloto espanhol pretende sensibilizar para o problema dos resíduos plásticos nos mares e oceanos. “Devemos nos ajudar mutuamente para resolver os problemas globais que afligem o mundo”, defende Álvaro, que é ativista ambiental, acadêmico da Real Academia do Mar e criador do movimento Guardiões do Mar.

 

Apesar de ser uma homenagem à circum-navegação de Magalhães e Elcano — e ter sido iniciada no dia 19 de agosto de 2019, o mesmo dia em que o navegador português soltou as amarras em 1519 — , a rota seguida por ele não será a mesma de 500 anos atrás.

Foto: Arquivo Pessoal

Dividida em 18 etapas (cinco já concluídas), a volta ao mundo de jet só tem algumas etapas coincidentes. “Quero mostrar que, 500 anos depois, existem dois canais que encurtam distâncias”, justifica-se Álvaro, referindo-se aos canais do Panamá e o de Suez.

 

Tal qual seus heróis do século 16, Álvaro foi de Sevilha até Sanlúcar de Barrameda, na região da Andaluzia, navegando pelo Rio Guadalquivir. Então, ganhou o Oceano Atlântico. Antes de apontar a proa para o Caribe, porém, ele decidiu circular por algumas cidades e regiões da Espanha, de Portugal e da França.

 

Começando por Huelva, foi para Lisboa, Porto, Galícia, Astúrias, Santander e Getaria, no País Basco, onde nasceu o navegador Juan Sebastian de Elcano, que em 1522 completou a circum-navegação iniciada por Fernão de Magalhães três anos antes — o espanhol assumiu a expedição após a morte do português, em 1521, e desembarcou em Sevilha com apenas um dos cinco navios que iniciaram a viagem (o Victoria) e 18 marinheiros da tripulação original, de 234 homens.

Foto: Arquivo Pessoal

Em Bayonne, na França, Álvaro transportou o jet por terra até Mônaco. Já no Mediterrâneo, seguiu no sentido de Gibraltar, na costa sul espanhola, com escalas em Marselha, Barcelona, Valência, Alicante, Granada, Málaga e Marbella. Em resumo, viajou quase 3.000 milhas antes de cruzar o segundo maior oceano em extensão, entre Gibraltar e a ilha caribenha de Guadalupe.

 

Na travessia do Atlântico, um trecho de 3.700 milhas vencido em 15 dias, o Numancia teve pela primeira e única vez a companhia de um barco de apoio (o navio explorador Yersin), que abasteceu o piloto com água e comida e o pequeno barco, com combustível.

 

“Eu reabastecia a cada seis horas usando um sistema que me permitia pegar a mangueira enquanto navegava a 10 nós. O reabastecimento de 60 litros demorava menos de dois minutos”, conta Álvaro, que pilota 100% do tempo em pé, para evitar lesões em sua espinha dorsal.

Foto: Arquivo Pessoal

Ao contrário do que se possa imaginar, essa travessia não exigiu muito esforço ao piloto. “Foi uma etapa simples, porque as correntes e os ventos são favoráveis para quem navega de leste a oeste”, ensina o piloto espanhol, que durante toda jornada dormiu no próprio jet, a menos em alguns momentos em que que o mar agitado o obrigou a embarcar no navio de apoio.

 

Mas, como foi possível tirar uma sonequinha em pleno Oceano Atlântico? “Estou muito acostumado a fazer isso, desde que comecei a navegar, em 1982. Durmo deitado, com o pequeno barco à deriva”, explica Álvaro.

 

“Assim como havia acontecido em 2002, eu tinha de ficar à espera do navio-mãe, que navegava à metade da minha velocidade. Ou seja, para cada hora de navegação eu estava uma hora à frente do barco de apoio.  Então eu aproveitava esse tempo para descansar um pouco”, acrescenta.

Foto: Arquivo Pessoal

No Caribe, o explorador espanhol perambulou sem pressa por diversas ilhas: Montserrat, Saint Barths, Saint Croix, Ilhas Virgens Americanas, Porto Rico, República Dominicana, Haiti, Cuba e, já em território estadunidense, Key West. “Às vezes, pegava trechos de 8, 10, 12 ou 16 horas sem avistar terra”, lembra Álvaro. “E navegava também à noite, orientando-me pelas estrelas”, acrescenta.

 

Seu desembarque em Miami, no dia 16 de março de 2020, coincidiu com o pior momento da epidemia de COVID-19, o que o obrigou a fazer uma longa pausa de dois anos.

 

Ao retomar a jornada, em fevereiro de 2022, o Numancia contornou todo o Golfo do México até Quintana Roo, no extremo sudeste mexicano. “Foram cerca de 3.000 milhas, quase como cruzar o Atlântico novamente”, compara.


Antes, ainda na Flórida, passou por Pensacola, cidade fundada em 1559 por um antepassado seu: Don Tristán de Luna. “Os Estados Unidos nasceram com a nossa herança hispano-americana”, lembra. De Pensacola foi a Nova Orleans e dali, navegando pelo Delta do rio Mississippi, partiu para o Texas.

 

Deixando o Golfo do México para trás, rumo ao Canal do Panamá, ele atracou primeiro em Belize, depois na Guatemala, em Honduras, na Nicarágua e na Costa Rica. Quase chegando no Panamá, o primeiro e (até aqui) único perrengue: “Meu pequeno barco afundou devido a um erro cometido durante a manutenção na Costa Rica. Esqueceram de instalar corretamente a tubulação de água da bomba de esgoto”, explica.

 

Em decorrência do acidente, o jet sofreu graves danos mecânicos, que obrigaram Álvaro a interromper a aventura por alguns meses. Enquanto aguardava o conserto da máquina e a permissão para cruzar Canal, ele esteve no Brasil, onde visitou a redação de NÁUTICA, em São Paulo, e revelou detalhes exclusivos da viagem.

Álvaro de Marichalar visitou o escritório de NÁUTICA durante sua passagem por São Paulo. Foto: Revista Náutica

Em algumas etapas do percurso pela costa mexicana, o Numancia — que ostenta decalques dos países que visitou, o brasão de sua família e a frase “Viva a Espanha” — foi abastecido de gasolina feita a partir de detritos plásticos produzidos no México. “Isso é incrível. Estamos à procura de soluções sustentáveis, não apenas falando sobre isso, mas também implementando-as”, comemora.

 

De volta ao Panamá — país com o qual tem uma ligação histórica, já que o seu antepassado, Miguel Francisco de Marichalar, era seu governador quando o pirata inglês Henry Morgan matou quase toda a população de Panamá Viejo — , ele aguarda autorização para transpor o grande canal.

 

Depois da travessia, pegando o rumo norte, pretende navegar até o Alasca, com passagens por toda a América Central, México, Califórnia, Oregon, Washington e Canadá, até o Alasca. Em seguida, deixando o estado americano que tem parte do seu território dentro do Círculo Polar Ártico, cruzará pelas Ilhas Aleutas (ao sul do Estreito de Bering) até a Rússia.

Foto: Arquivo Pessoal

Já no continente asiático, visitará as Ilhas Curilas (situadas a norte do arquipélago japonês), o Japão, o Sudeste Asiático (Coréia, China, Filipinas, Indonésia e Tailândia) e Sri Lanka. Contornará então a Península Arábica e entrará no Mar Vermelho para atravessar o Canal de Suez até o Mediterrâneo, onde continuará a jornada por Jerusalém, Líbano, Mar Negro e Atenas.

 

Dali, pelo Mar Adriático, o Numancia seguirá até Veneza, na Itália. Depois, apontará a proa para Mônaco, onde a volta ao mundo no menor barco da história será completada.

 

Já nas costas francesa e espanhola, Álvaro pegará o caminho de volta para Sevilha. Na 18ª e última etapa, a aventura dá lugar ao misticismo: ele navegará novamente de Sevilha a Galiza por todo Portugal, chegando a Padrón, de onde pretende caminhar até Santiago de Compostela, a cidade conhecida como ponto culminante da rota de peregrinação dos Caminhos de Santiago.

Foto: Arquivo Pessoal

Dali, novamente a bordo do Numancia, navegará pelo Golfo de Biscaia até Getaria, a cidade onde nasceu Juan Sebastian de Elcano, quando dará por encerrada uma das aventuras mais espetaculares da história da navegação — assim como fizera o navegador espanhol 500 anos atrás. No seu caso, uma experiência também inédita: a primeira volta ao mundo sobre um jet.

 

Para acompanhar a viagem, acesse o site oficial da circum-navegação de Álvaro.

 

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