Robin Lee Graham: o menino que partiu para volta ao mundo à vela aos 16 anos de idade
A bordo do Dove, garoto navegou durante cinco anos numa aventura que envolveu casamento, gatos e muitas atribulações
O que você fazia quando tinha 16 anos? Pois foi nessa idade que Robin Lee Graham largou o sul da Califórnia, nos Estados Unidos, para entrar na história: sozinho, apenas com a companhia de alguns gatos, o menino velejou ao redor do mundo, numa história inspiradora digna de um livro de aventura.
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Lenda viva do mundo náutico, Graham é considerado um dos maiores nomes da circum-navegação. À época, sua aventura foi coberta e virou capa na consagrada revista National Geographic três vezes (em 1968, 1969 e 1970). Sua história também virou o livro “Dove” e o filme “The Dove” (1974).


O livro, inclusive, virou best-seller, explodiu no mundo todo com milhões de cópias vendidas e impactou imensuráveis jovens navegadores — ou aqueles que só queriam ler uma boa história antes de dormir.
A volta ao mundo foi uma verdadeira epopeia. Cinco anos depois de zarpar, o garoto, que àquela altura já era um homem, retornou ao porto de origem casado e sem três mastros, que se perderam pelo caminho. Todavia, o mais importante se manteve: a memória.
Início de um sonho…
Durante o verão de 1965, o menino queria receber de seus pais um “brinquedo” um pouco exótico: um barco. Ele queria viajar até as ilhas do Pacífico Sul, um destino totalmente distante da urbana Los Angeles. Como os pais de Robin não sabiam dizer “não”, ele ganhou um veleiro e, quatro meses depois, embarcou na maior aventura de sua vida.


O barco era um saveiro de 24 pés (7,3 metros de comprimento), robusto e feito de madeira — nada extravagante ou glamoroso. Embora fosse leve para navegar, era simples demais para o objetivo. As ondas balançam violentamente a embarcação, que tinha pouco espaço para mantimentos e equipamentos.
A esse barco ele deu nome Dove. E foi com este modelo sloop (de um único mastro e duas velas principais) que ele desbravou o mundo. Seu primeiro destino, Havaí, lhe custou 23 dias de navegação, mas não apresentou maiores problemas. Robin Lee Graham achou tão fácil que queria mais.


De início, Robin tentou chamar amigos, mas como não são todos os pais que deixam seus filhos saírem numa aventura extremamente perigosa a bordo de um veleiro enxuto, ele não teve tanto sucesso. A ambição, inclusive, não partia apenas dele, mas do seu pai, que só não poderia acompanhá-lo por conta da Segunda Guerra Mundial, problemas de saúde e a criação da família.
Logo, o pai via no filho a oportunidade de realizar um sonho que ele próprio não pôde concretizar. Os dois faziam treinos e melhorias no Dove e eram extremamente unidos. Além de técnico, o pai era agente e assessor de imprensa do menino.


Sendo assim, Robin Lee Graham partiu, com apenas 75 dólares no bolso e um sonho. A viagem estava apenas começando.
Mar calmo não faz bom marinheiro
Bastaram 14 dias para a Robin Lee Graham chegar nas Ilhas Fanning, um atol que faz parte das Ilhas Line do Oceano Pacífico. O começo pouco turbulento não refletiu na viagem toda, que teve episódios de tempestades violentas, solidão profunda e mortes dos gatos que ele pegava durante o caminho, que viravam sua única companhia em meio à imensidão azul.


Em Samoa, o mundo começou a ficar menos colorido. Por lá, o Dove teve uma pane, ficou alguns dias à deriva e cinco meses parado para conserto — sem contar o tempo estagnado enquanto a temporada de furacões não cessava. Durante esse período, Graham recebeu suplementos da família.
Um dos momentos mais difíceis aconteceu no Oceano Índico. Após uma mudança de rota, um dos seus gatos caiu no mar e morreu. No livro, o episódio é descrito por Robin como um momento de “profunda tristeza”.


Para piorar, a relação com seu pai se estremeceu. Robin era apaixonado por Patti Ratterree, jovem americana inquieta e curiosa que viajava pelo mundo sozinha, parando para trabalhar em vários lugares. Ela se encontrou com o garoto por diversos cantos do planeta durante a navegação.
O pai dele ficou furioso quando soube da presença de Patti em Darwin e, a partir disso, a relação entre os dois ficou tensa. Porém, antes de deixar Darwin, Robin e sua namorada concordaram em se encontrar em Durban, na África do Sul, que serviu como motivação para o garoto não desistir da volta ao mundo.
O amor sempre vence
Dito e feito: os dois pombinhos se encontraram no local combinado. Lá, eles ficaram por 9 meses, atracados e só saíram do país casados. Inclusive, Patti e Robin continuam juntos até o dia de hoje, com 56 anos de união.
O trecho final da viagem, portanto, aconteceu na companhia de Patti. Para sorte de ambos, a Perna do Atlântico teve menos imprevistos e permitiu Robin explorar o Caribe. Os próximos destinos seriam a travessia do canal do Panamá e, por fim, a chegada a Long Beach, na Califórnia.


Cinco anos e 53 mil quilômetros depois, o filho retornava para casa — mas por pouco tempo. Já uma celebridade na época, o garoto se mudou para Montana, a oeste dos Estados Unidos, com a esposa para ficar longe dos holofotes da mídia. Por lá, eles construíram uma casa e Robin se tornou marceneiro.
O lugar afastado não fez bem para eles e, principalmente, para Robin. Certa noite, enquanto moravam a bordo do Return of the Dove cercados por fãs, Patti precisou impedir que Robin se matasse.


Atualmente, os dois vivem uma vida tranquila e longe da mídia. À revista Sail Magazine, Robin comentou, em 2024, sobre uma possível nova viagem à vela. “Fazer viagens longas é passar muito tempo sem fazer nada, e eu não sei onde colocaria minha marcenaria em um barco”, revelou.
Com o mesmo brilho nos olhos de quando velejou o mundo ainda garoto, Robin Lee Graham descobriu que a vida não é sobre quantos mares se atravessa, mas sim sobre encontrar o seu porto seguro. Ele encontrou, e atracou nesse cais.
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