Veleiro Lelei: a história do andarilho que construiu a própria casa flutuante
Vanderlei Becker precisou de cinco anos e muitos sacrifícios para tirar do papel um barco de alumínio de 36 pés
Perto dos 50 anos de idade, o gaúcho Vanderlei Becker descobriu que nunca é tarde para começar a viver um sonho. Ele, que passou boa parte da vida trabalhando em terra, deixou os ventos soprarem seu destino e tirou do papel um projeto que parecia grande demais para uma pessoa: construir, do zero e sozinho, um veleiro oceânico de 36 pés.
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Tudo isso veio de um desejo ainda mais antigo, como um verdadeiro projeto de vida. Inspirado por famosas séries de TV dos anos 1970, como Kung Fu e O Incrível Hulk, Vanderlei sempre quis, desde garoto, viver como um andarilho, sem destino certo.


Logo, se a ideia era ser um nômade, por que não explorar o mundo a bordo de sua própria casa? O raciocínio foi certeiro, mas, até que uma boa alma lhe aconselhasse a adquirir um veleiro, Becker teve que enfrentar os percalços da vida adulta e deixar o sonho de criança na gaveta — contudo, nunca esquecido.
Um desejo de liberdade
Crescido em Taquari (RS), dentro de uma família humilde, a infância de Becker foi um alicerce primordial para sua alma de construtor, alimentada por seu desejo de liberdade. Não era apenas um espírito aventureiro e sem rumo que corria no seu sangue, mas um tipo de “loucura de querer fazer as coisas”.


Um certo dia, o pequeno Vanderlei e seu irmão resolveram construir um caiaque. Para isso, os dois juntaram madeiras velhas e as reaproveitaram para montar a base da embarcação. Para vedar — ou tentar vedar — as frestas do barco, utilizaram latas metálicas de azeite abertas, devidamente pregadas na madeira. Resultado: o barquinho afundou assim que foi colocado na Lagoa Armênia, em Taquari.
Embora tecnicamente a experiência não tenha sido das melhores, ali, naquele momento, algo muito maior aconteceu: uma sementinha, que germinaria no coração de Becker décadas depois, foi plantada. Sem saber, aquele foi o último barco construído por ele que afundaria assim que colocado na água.
Alma itinerante, coração ancorado
À NÁUTICA, Vanderlei contou que saiu de casa muito jovem, aos 13 anos, com um desejo claro: virar um nômade. Sem um lugar fixo, o garoto passou por diversos destinos, trabalhou e aprendeu diferentes ofícios, até se casar, aos 21 anos, e dar uma enorme pausa na rotina andarilha.


Sua vida foi seguindo o script esperado: ele se casou, teve filhos, criou uma família e dedicou dezenas de horas de seus dias ao trabalho como mecânico e eletricista. Mais tarde, veio a separação, um novo relacionamento e outras responsabilidades — contudo, o desejo de voltar a ser nômade continuava engavetado, pronto para ser reaberto.
A sensação era a de que só faltava um estalo para que Vanderlei vivesse o que sempre sonhou — e ele veio. Veio da forma mais traumática possível. Em um terrível incidente com gasolina, enquanto trabalhava, Becker sofreu um acidente de extrema gravidade que mudou completamente a sua vida — especialmente sua forma de enxergá-la.
As queimaduras tomaram grande parte do seu corpo. As lesões eram tão intensas que fizeram com que ele passasse 16 dias internado sob efeito de morfina. Por outro lado, depois de ver a morte diante dos próprios olhos, Becker teve uma epifania.
Eu não quero isso para a minha vida. Eu não quero morrer dentro de uma oficina– pensou Vanderlei, ainda deitado no leito do hospital
À época, sua rotina praticamente não comportava uma vida social — era só trabalho e casa. Ele conta que chegou a trabalhar de 18 a 20 horas por dia antes do acidente, em um cotidiano completamente exaustivo. Por isso, ao sobreviver às queimaduras, Becker deu um basta. A patir dali, seu tempo fora da profissão passaria a ser dedicado a projetos que lhe davam prazer, como marcenaria e construções em seu sítio.
“Por que você não compra um veleiro?”
O estopim soou como um alerta na cabeça de Becker, que traçou um objetivo: trabalharia intensamente até os 55 anos para, então, tirar o sonho itinerante da gaveta. “Se eu tivesse grana ou não tivesse, não interessava. Eu pararia para aproveitar o resto de vitalidade que eu tivesse para viajar”, prometeu a si mesmo.


Apesar disso, um barco não foi a primeira opção que lhe veio à mente para viver esse sonho. Afinal, quando se fala em viagens, o comum é mirar em carros, motos e aviões — e com ele não foi diferente. Acontece que os valores o assustaram e nenhuma opção o convenceu 100%. Em meio à falta de ideias, um antigo cliente lhe fez uma pergunta que mudaria para sempre sua história.
Por que você não compra um veleiro?– indagou
Vanderlei admitiu que nunca havia pensado nessa hipótese. “Interessante, uma casa flutuante”, respondeu o mecânico. A partir dessa rápida conversa, uma curiosidade genuína surgiu na cabeça de Becker, que passou a pesquisar valores, modelos e como seria, na prática, velejar.


Na verdade, ele sequer sabia se realmente gostava de navegar — mas só havia um jeito de descobrir. Sem pensar duas vezes, matriculou-se em um curso de vela e foi amor à primeira vista. Quando os motores do veleiro desligaram e só restaram ele, o mar e o vento soprando, teve certeza do que queria: era hora de a terra ser o seu apoio, e a água, o seu lar.
É isso aqui mesmo!– afirmou à época
Porém, querer é diferente de poder. Logo de cara, ele percebeu que precisaria tirar alguns escorpiões do bolso para comprar um barco, mesmo que fosse o mais simples. Como se não bastasse, Vanderlei notou que ainda teria que reformar a embarcação num nível em que construir uma do zero valeria mais a pena. Dito e feito.
O nascimento do veleiro Lelei
Para construir um barco sozinho, mais importante do que estar disposto a colocar a mão na massa é saber planejar cada detalhe do processo. Não à toa, Vanderlei passou anos preparando o terreno para que o veleiro oceânico saísse do papel. O nome, ao menos, ele já tinha: Lelei, à sua imagem e semelhança.


Construir um barco com base apenas na própria imaginação, claro, não era uma opção. Assim, Becker escolheu e comprou o design do Kiribati 36 — o mesmo utilizado Angelo Guedes, que também construiu uma embarcação, conforme mostra uma série especial no Canal NÁUTICA. Robusto e valente, esse veleiro de alumínio de 10 metros de comprimento foi pensado para navegar o mundo.


Completamente novato no assunto, Vanderlei estudou e entrou de cabeça no universo náutico. As aulas de vela, aliás, o ajudaram no processo de construção — foi como aprender a dirigir com o carro em movimento.


Nascia, assim, em 2016, o canal Veleiro Lelei. A proposta era que, ao mesmo tempo em que ele aprendia a construir um barco sozinho, seu público o ajudasse e também aprendesse junto. Afinal, naquela época, eram raros conteúdos como esse não só no YouTube, mas na internet como um todo.
Seu “estaleiro” foi montado em seu próprio sítio, em Santa Cruz do Sul (RS), onde a antiga marcenaria deu lugar a um grande galpão com todas as ferramentas necessárias para a fabricação de uma embarcação de alumínio, com direito a ponte rolante e equipamentos de solda. “Era um estaleiro completo”, destacou Becker.


Um ponto crucial do projeto foi a recusa de Vanderlei em comprar o kit pré-cortado em CNC. “Comprei só o projeto de obra para estudar e depois pedi um detalhamento.” A fabricante até tentou oferecer o pacote completo, com todo o alumínio já cortado, mas a resposta dele foi categórica.
Eu não quero montar um Lego, eu quero construir um barco– brincou Vanderlei
Ele queria desenhar e cortar cada peça para que o barco fosse 100% de sua autoria — e assim seguiu durante os cinco anos de construção do Lelei.
O dia a dia na construção
Um projeto desses exige muita dedicação. No caso de Vanderlei, ainda foi preciso conciliar o trabalho em sua oficina mecânica com a construção do barco durante cinco anos. A rotina era pesada: seu trabalho na oficina terminava às 18h e, após o expediente, ele gastava cerca de 20 minutos para chegar ao sítio onde trabalhava na construção do Lelei.


Além disso, todos os finais de semana e feriados eram dedicados exclusivamente à obra. No início do projeto ele costumava trabalhar até as 3, 4 ou 5 horas da manhã.
Eu trabalhei para esse barco umas 5 mil horas– calculou o construtor


Esse ritmo alucinante foi levemente reduzido quando sua ex-esposa passou a frequentar o sítio após se aposentar. Como ela chegava por volta das 22h, pedia para que ele parasse com o barulho, fazendo com que o progresso noturno diminuísse.
Só tirava 15 dias no final do ano para umas férias, uma viagem, e o resto trabalhei direto no barco– relembrou Vanderlei
Todavia, o ponto de virada na conciliação das atividades ocorreu durante a pandemia, quando ele precisou fechar a oficina e, assim, acelerar significativamente a execução da obra.


Como um todo, a construção do barco em si (a parte do alumínio) levou cerca de dois anos, ao passo que a marcenaria interna, descrita como a parte mais difícil e rica em detalhes, consumiu outros três.
Tu tem que dedicar muito do teu tempo e vai deixar de curtir a família– disse Becker
Nesse meio-tempo, visando ganhar experiência, ele tomou uma decisão ousada: comprou um barco de aço de 36 pés, na Bahia, sem vê-lo pessoalmente, confiando na indicação de um amigo. Entretanto, a embarcação estava em péssimas condições.
O barco estava podre: casco podre, motor fazia mais de anos que não funcionava, banheiro estava um horror. Tudo um horror, nada funcionava– detalhou Vanderlei
Para piorar, a viagem para levar a embarcação ao Rio Grande do Sul, que deveria durar 15 dias, levou 40. Foi uma experiência traumática, mas que serviu como uma escola prática de manutenção, mecânica e navegação oceânica antes do construtor finalizar o próprio barco. Além disso, a mastreação, as catracas e o painel elétrico dessa embarcação foram reaproveitados no Lelei.
O sonho navegou
De acordo com Becker, o valor gasto para construir o veleiro de 36 pés ultrapassou R$ 1 milhão apenas em materiais, sem contar a mão de obra. Além do dinheiro, ele enfrentou desafios técnicos e físicos severos, como machucar a coluna ao tentar cortar chumbo para o lastro com um machado — a solução foi usar uma motosserra para concluir a tarefa.


Apesar de todos os obstáculos, o sonhado Lelei ficou pronto em 2022, do jeitinho que o dono queria. Contudo, colocá-lo na água não foi nada simples: a embarcação pesava 10 toneladas e precisou ser içada por um guindaste que a elevou a quase 20 metros de altura, passando por cima da mata e da rede elétrica.


No fim, deu tudo certo. Após o transporte, o Lelei foi colocado no Rio Jacuí, e Vanderlei navegou até Porto Alegre. Depois das primeiras velejadas, ele passou um ano e meio no Rio Guaíba e na Lagoa dos Patos, ambos no Rio Grande do Sul, testando tim-tim por tim-tim da obra e aprendendo a velejar na sua criação.
A sensação é indescritível. Eu não tenho como explicar isso. É mais do que eu posso– contou à NÁUTICA sobre o lançamento do Lelei
O barco de 36 pés de comprimento (3,85 metros de largura) possui uma quilha retrátil (estilo canivete) com 2,30 metros de calado. Construtor de mão cheia, Vanderlei realizou diversas mudanças no projeto original para torná-lo mais funcional e independente.


Ele modificou profundamente o Kiribati 36, incluindo a dog house, a popa, o banheiro (para acomodar seus 1,90 m de altura) e os sistemas de propulsão. Além disso, foram colocadas baterias de lítio e um boiler elétrico.


Ele também alterou os lemes para obter melhor resposta nas manobras e instalou um bow thruster (propulsor de proa) para facilitar a atracação. Boa parte das mudanças foram realizada na parte interna, principalmente na disposição dos ambientes.


Uma delas ocorreu na mesa de navegação, que foi posicionada voltada para a proa, ao contrário do projeto original. O interior funciona como uma moradia contínua, com foco em detalhes de alta qualidade e recursos como sistema de home theater e TV de 32 polegadas.








Uma característica única é a existência de uma oficina completa, com bancada em um dos lados da popa, permitindo que ele realize reparos e manutenções durante as viagens. O veleiro, por sua vez, possui apenas um quarto fechado (o do comandante, na popa).
Tudo que tem no barco eu tenho peça sobressalente. Tudo. Se precisar de qualquer coisa, eu tenho uma peça para substituir– garantiu Becker
Seu maior companheiro
Segundo Vanderlei, o Lelei é um “tanque de guerra”. Não faltam aventuras a bordo do bravo veleiro, como o dia em que ficou encalhado por 17 horas na areia, ou quando enfrentou ondas de 4 metros de altura e ventos de 45 nós na Lagoa dos Patos. Isso sem contar os temporais em Paraty (RJ), Antonina (PR) e São Francisco do Sul (SC).


Mesmo diante de adversidades extremas, o veleiro Lelei não arredou o pé e segue firme e forte, segundo o dono. Para garantir autonomia como nômade, o Lelei foi equipado para longas travessias, carregando 500 litros de diesel e aproximadamente 700 litros de água potável.


A confiança no projeto é tanta que o velejador conta que nunca se desesperou, nem mesmo quando perdeu dois dedos do pé após um acidente na plataforma de popa — tudo isso parece pouco para quem encontrou uma nova forma de viver.
Quando eu entro no barco, o meu semblante muda. É realmente a minha casa, é o meu mundo– revelou Vanderlei


Inclusive, ele conta que nem consegue mais se acostumar com a vida fora do barco. “Eu não consigo ficar em terra. A vida em terra, para mim, é complicada. Eu me sinto mal.” No mar, Becker fez amigos que levará para a vida toda e encontrou uma calmaria que não teve durante quase cinco décadas. Todo aquele esforço de cinco anos compensou.
Vale a pena porque a satisfação de ter feito o teu barco e tu navegar com uma coisa que tu fez, que tu construiu, não tem explicação– afirmou à NÁUTICA


É como se ele tivesse construído, com as próprias mãos, o seu melhor amigo. Muito mais que um veleiro de alumínio, o Lelei promete ser o legado de quem batalhou dias e noites para que seu sonho pudesse navegar. Aquele menino que sonhava em ser andarilho hoje navega o mundo a bordo da própria casa.
O veleiro Lelei foi a obra da minha vida– concluiu Vanderlei Becker
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